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Carta de militante a Dilma vira petição pública

Texto escrito pelo jornalista Artur Scavone, que participou da fundação do PT, manifesta indignação com o fato de "um presidente da Câmara, enrolado até os cabelos com corrupção", estar à frente "para te pegar por – é incrível – improbidade administrativa!"; e critica o silêncio da presidente; com cinco mil assinaturas registradas nesta manhã, carta diz que a angústia dos que assinam é "ver você quieta, sendo torturada no Planalto calada, amortecida, como se aí dentro não batesse mais um coração tão valente"

Texto escrito pelo jornalista Artur Scavone, que participou da fundação do PT, manifesta indignação com o fato de "um presidente da Câmara, enrolado até os cabelos com corrupção", estar à frente "para te pegar por – é incrível – improbidade administrativa!"; e critica o silêncio da presidente; com cinco mil assinaturas registradas nesta manhã, carta diz que a angústia dos que assinam é "ver você quieta, sendo torturada no Planalto calada, amortecida, como se aí dentro não batesse mais um coração tão valente" (Foto: Gisele Federicce)

247 – Uma carta escrita pelo jornalista Artur Scavone, compartilhada desde sexta-feira 9 pelas redes sociais, passou a receber apoio dos internautas e virou petição pública dirigida à presidente Dilma Rousseff. O texto de Scavone, que participou da fundação do PT, manifesta indignação com o fato de "um presidente da Câmara, que está enrolado até os cabelos com corrupção, está à frente para te pegar por – é incrível – improbidade administrativa!".

Na manhã desta terça, cinco mil assinaturas apoiavam o texto, que critica o silêncio da presidente e afirma que a angústia dos que assinam é "ver você quieta, sendo torturada no Planalto calada, amortecida, como se aí dentro não batesse mais um coração tão valente". A carta também critica a presença do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, no governo.

A manifestação, que foi publicada pela blogueira Conceição Lemes no Viomundo, termina convocando Dilma: "Não se deixe abater em pleno voo. Vá às massas. Mostre que teu compromisso é com quem precisa. Na dúvida, opte pelos oprimidos e radicalize a disputa para deixar claro o que está em jogo. Se for para cair, caia atirando".

Ao final, a carta pede que a presidente faça um aceno àqueles que sempre a apoiaram, "gente que espera por um aceno teu, para ir junto, e te ajudar a enfrentar o inferno atual".

PS: A imagem que ilustra a petição é um grafite de 2011 feito em Saint-Romain au Mont d'Or, na região metropolitana de Lyon, França, cujo autor, Thierry Ehrmann, deu o título: "Dilma Rousseff — aquela que retorna do inferno". As assinaturas à carta podem ser feitas clicando aqui.

Abaixo, a íntegra da carta:

Por um aceno teu

Querida companheira Dilma:

Nós imaginamos como anda difícil sua vida aí no Planalto. Mas é possível que você não tenha ideia de como anda a nossa aqui na planície. Não, nós não falamos da carestia, do desemprego. Nós todos sabíamos que, quando o cobertor ficasse curto, a briga pela coberta ia ser feia. E eles, da elite, têm muita mais força que nós, apoiados pela grande mídia. Sabíamos, sim.

Nossa angústia aqui é outra. É ver que você tomou para si a bandeira da luta contra a corrupção e deixou todos eles, da elite, fulos de raiva. Eles não conseguem te associar à corrupção, por mais que façam. E olha que não fazem pouco. A martelação é todo dia, nos rádios, nas TVs, em todo canto. Chega a encher o saco.

Pois é. Mas esse é o problema. Nós estamos sentindo que você está achando que teu principal legado vai ser o combate à corrupção. "Duela a quién duela". Daí que você não quer nem ver perto de você qualquer um que tenha respingos de Lava Jato. Tem razão, é complicado. Você chegou a se isolar por causa disso. E não fala com ninguém. "Meu governo não impedirá a apuração dos mal-feitos", você tem repetido. E o teu ministro da Justiça segue nesse rumo.

O problema é que a justiça em nosso país tem olhos, ouvidos e enxerga bem demais por baixo daquele paninho nos olhos. Ela só apura o que interessa para seus patrões. Não, não, não estamos sendo exagerados. Ela só apura se for contra o PT. Com o resto, ela é complacente. Você, obviamente, já reparou isso.

Sabe aquele poema do Brecht, que a gente falava tanto nos nossos tempos de luta contra a ditadura? "Primeiro levaram os negros. Mas não me importei com isso. Eu não era negro..." Lembra? Pois é. A agressão está crescendo cada vez mais, já estão hostilizando nossos companheiros nos bares e restaurantes.

Agora, companheira Dilma, um Presidente da Câmara, que está enrolado até os cabelos com corrupção, está à frente para te pegar por – é incrível – improbidade administrativa! E conta com os votos de ministros do TCU, que também estão enrolados com malfeitos.

Mas você não está. Incrível! E vai ser impedida por causa de quê?

Porque a elite quer, porque eles não aturam mais os investimentos sociais que tiram deles margens de lucro. E já está claro que não adianta ter um Levy para amansar essa gente. Você sabe disso, nós não precisamos dizer. Veja o desespero deles, hipócritas, com a decisão do STF sobre financiamento de campanha.

Mas o que nós queríamos falar, que dói no nosso peito, é que não dá pra ficar calada, aí, no Planalto. Nós não ficamos calados no tempo da ditadura. Você foi à luta. E agora?

Você vai deixar teu ministro da Justiça quieto enquanto eles vão tomando os espaços, um a um, acusando todo mundo de corrupção como se fossem todos eles vestais da honestidade?

Vai deixar que o cobertor descubra os mais humildes?

Nós sabemos a hipocrisia da política. Basta olhar o tratamento dado ao Cunha. Ou ao Nardes. É estarrecedor.

Mas, companheira Dilma, não se deixe abater em pleno voo. Vá às massas. Mostre que teu compromisso é com quem precisa. Na dúvida, opte pelos oprimidos e radicalize a disputa para deixar claro o que está em jogo.

Se for para cair, caia atirando. Mas diga aos quatro ventos a que você veio, pra que tua vida serviu. Vá à batalha defendendo o que acreditas. Essa é nossa angústia. Ver você quieta, sendo torturada no Planalto calada, amortecida, como se aí dentro não batesse mais um coração tão valente. Você não imagina a quantidade de gente que espera por um aceno teu, para ir junto, e te ajudar a enfrentar o inferno atual.

São Paulo, 11 de outubro de 2015