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Celso Amorim se recolhe e aponta diálogo e cooperação como saída, em tempos de coronavírus

O chanceler Celso Amorim falou ao 247 da necessidade de se cumprir a quarentena e discorreu sobre a situação internacional, cooperação e fechamento de fronteiras entre os países e fez críticas a Jair Bolsonaro

Celso Amorim, sobre acordo com EUA: "vamos ter o direito de comprar ferro velho deles". (Foto: Brasil247)

Por Denise Assis - Acostumado a cruzar oceanos a bordo de aviões oficiais ou de carreira, com a desenvoltura de quem pega um ônibus interestadual, e ter como interlocutores grandes figuras mundiais, o embaixador e ex-chanceler do governo de Lula, Celso Amorim, gozando de excelente saúde, tem cumprido estoicamente a quarentena imposta pelo coronavírus. 

“É muito grave, muito grave, muito grave, isto. O Brasil está indo por um caminho que nunca foi. Vou dizer algo que pode parecer absurdo, mas nem no governo militar, com tudo que possa ter havido internamente, mas nunca houve nada parecido. Estamos à deriva e trombando aí nesses aspectos todos. O que ele (Bolsonaro) está esperando? Que tudo venha dos Estados Unidos? Os Estados Unidos estão cuidando deles. O Trump já investiu um trilhão para salvar os dele”. 

Neste período em que está recluso, o Brasil fechou fronteiras terrestres com oito países vizinhos, na América do Sul; com todos os da Europa e com a China. A medida tem validade por 15 dias, podendo ser prorrogada. A exceção ficou por conta dos Estados Unidos, o que causou, digamos, estranheza, em Amorim, pois trata-se de um país onde o coronavírus anda grassando sem cerimônia. Afinal, os EUA estão longe de uma boa posição no ranking do combate à doença. Ontem os Números estavam na casa de quase 10.500 casos, com 150 mortos.

Disciplinado, o embaixador conforma-se com o confinamento. “Estou com a prudência que é necessária para uma pessoa da minha idade (na casa dos 70 anos). É uma coisa inédita. Eu nunca vi na minha vida nada parecido. Mesmo na Segunda Guerra Mundial, do ponto de vista brasileiro, não foi uma crise assim”. E lembra que “os Pracinhas foram lá, lutaram, obviamente muitos morreram, isto foi muito triste, mas foram mortes em número menor do que as que virão com esta doença. E num contágio, que é uma coisa terrível. Afeta a vida social, a vida pessoal, separa filhos, netos. Mesmo os que estão na mesma cidade, não estão se vendo”, lamenta. 

Aposentado da carreira no Itamaraty - onde serviu nos mais variados e importantes postos -, reconhece que está no grupo de risco e o melhor é mesmo seguir o conselho dos especialistas, de ficar em casa. Em momentos de tédio pode mirar à sua frente o mar de Copacabana. Contudo, o recolhimento a que tem se submetido foge totalmente aos padrões de sua rotina, sempre dedicada aos temas internacionais. Ainda assim, não se furta a analisar as movimentações que a pandemia exige e acompanha com preocupação a tensão criada pelo deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) entre Brasil e China, sobre a qual já havia se pronunciado ao site “Congresso em Foco”, desculpando-se pela grosseria do rapaz: 

“Faço minhas as palavras do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, que se desculpou publicamente em nome da Casa junto ao embaixador da China”. E para clarificar o que está sendo colocado em risco, lembrou o acordo sobre o satélite sino-brasileiro, assinado durante o governo Sarney e levado adiante por todos os presidentes. “É um modelo de cooperação entre países em desenvolvimento em área de tecnologia avançada. Nesta área de cooperação científica, podemos trocar experiências sobre a criação de vacinas. Este é apenas um exemplo”.

Sem esconder a indignação, prossegue: “Coisa errada, discutível e sem ética. Ele (Eduardo Bolsonaro) não pode dizer uma coisa baseada em twitter. Um ataque juvenil a um país que tem uma cooperação expressiva conosco. Bom, eu não vou repetir os prejuízos sobre mercado, mas também na parte científica, tecnológica. A gente poderia até se beneficiar da cooperação chinesa, que está contendo, parece, e conseguindo avanços importantes com relação à epidemia, lá. Poderíamos aprender com eles, nesse caso. É um tiro no pé, como disse o embaixador chinês.”

Do ponto de vista da política externa, aponta que o que está acontecendo (tantas fronteiras fechadas) não consta nos manuais da diplomacia: “Nós nunca enfrentamos uma situação similar. Teve a gripe espanhola, mas foi no final da Primeira Guerra Mundial, embora numa situação um pouco diferente. É uma situação única e acho que os países têm obrigação de cooperar”, diz, fazendo a ressalva: “dentro de certos limites eles podem limitar a mobilidade para o controle da epidemia. Só não podem ser discriminatórios e unilateral.”

Amorim ressalta que essas medidas, (fechamento de fronteiras), à luz da diplomacia, em geral são feitas à base de muito diálogo. E aproveita para classificar de “infeliz”, a maneira discriminatória com que Moro anunciou de forma diferenciada, o fechamento da fronteira com a Venezuela. “Ele não deveria ter singularizado a Venezuela. Temos que manter o diálogo, coisa que nós não podemos manter, atualmente, embora eu tenha ouvido dizer que existe ainda algum diálogo com a área militar, mas não vi nada oficial. Eu acho que foi muito infeliz fazer a declaração do jeito que ele fez. Politizou uma questão que é de saúde”. 

Pra Amorim, “numa situação como essas de tal emergência, não existem regras diplomáticas previstas. Acho que há uma norma geral de cooperação entre os países. Isto foi feito com a Alemanha e a França, agora. Não é uma invenção só do nosso continente, não. Por motivos de saúde os países podem fazer isto. Aliás, a China fez até internamente, quando isolou Wuhan”, citou. E concorda plenamente com o relatório divulgado na quarta-feira (dia 19), da organização internacional Human Rights Watch, em que alerta para que as ações tenham “base legal e evidências científicas, e não ser arbitrárias ou com aplicação discriminatória”.

“Sim. Elas não devem ter ações discriminatórias. Em Direito Internacional, não existe o não pode’. Há, sim, o “não deve”, ensina. “Tudo deve ser feito em cooperação, como foi entre a Alemanha e a França”. No contexto em que o Moro apresentou a Venezuela parecia que havia ali, e no fundo há, um conteúdo político”, repisou. “E pelo que eu li os voos foram fechados para vários países, menos para os Estados Unidos?”, espanta-se.

“A questão é que no Direito Internacional você não tem com quem reclamar. Em um caso como este, não tem com quem contestar. É uma questão de bom senso, é a maneira de como executar, tendo a cooperação possível, porque também na hora H você pensa que vai controlar a população, mas tem os familiares, é preciso evitar o alastramento, então é preciso ter uma cooperação. Até que se chegue a uma vacina tem que haver o controle. E eu acho que deve ser feito no diálogo”. 

Para o Chanceler, o mundo vive um momento de excepcionalidade nunca vista. “Eu não vivi o período da gripe espanhola, mas o alastramento era mais lento, porque o mundo era menos conectado”. E volta a emitir o seu alerta, como a um mantra: “A Estratégia com os demais países é alargar a cooperação mundial”. 

Do ponto de vista pessoal, Celso Amorim conta que tem dedicado o seu tempo a se informar “e de vez em quando tenho que ajudar a lavar panelas. Quando sobra um tempinho dedica-o à literatura.

Ele se diz muito preocupado com a situação, e aconselha: “tem que fazer, tem que fazer (a quarentena). Não tem outra saída. E sem as medidas fortes, não vamos sair disto. E quando você vê o noticiário internacional sobre a Itália, a Espanha, você observa o que vai acontecer aqui daqui a 10 dias. Infelizmente as medidas precisam ser rigorosas. Não é uma questão de pânico. É uma questão de bom senso”.

Do ponto de vista social, aponta uma solução: “compensar economicamente as pessoas pobres, que vão ficar sem nada, o que até ajudará a economia a não parar de todo. Esse vírus que começou nas camadas mais altas, infelizmente vai chegar nos pobres e se alastrar de maneira terrível. A não ser que haja um fenômeno natural, que eu não vejo, que dê uma retraída nisto”.