Covid-19 atrasará eventual avanço do 5G no Brasil, afirma especialista

Nesta terça-feira (15), termina prazo da consulta pública sobre a tecnologia 5G no Brasil. Alvo de disputa entre EUA e China, o 5G pode também sofrer influência da crise da pandemia. Sobre isso, a Sputnik Brasil ouviu um engenheiro da UFF, que afirma que a Covid-19 será mais um entrave para o avanço do 5G

(Foto: Reuters)
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Sputnik - O 5G é uma tecnologia de transmissão de dados em alta velocidade que deve levar a banda larga para um novo patamar e promete acelerar outras transformações técnicas correlatas, como a Internet das coisas e o uso de veículos autônomos. A tecnologia, porém, vem sendo alvo da crescente disputa geopolítica entre Estados Unidos e China, com os norte-americanos tentando impedir que operadoras chinesas da tecnologia, como a Huawei, se espalhem pelo mundo.

Washington tem acusado a China de usar a tecnologia para espionar cidadãos estrangeiros e interferido nas negociações de Pequim com outros países para impedir que acordos sejam fechados. No Brasil, a situação não é diferente, e autoridades dos EUA têm feito pressão sobre o país para garantir que a tecnologia chinesa não seja implementada em terras brasileiras.

O 5G no Brasil ainda está em fase de estudos, sendo que a consulta pública publicada pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) sobre a tecnologia termina nesta terça-feira (15). A consulta sobre as questões técnicas e operacionais envolvendo o 5G no Brasil foi adiada anteriormente pela Anatel devido ao atraso nos testes necessários diante do forte avanço da pandemia da Covid-19.

O engenheiro Luiz Cláudio Schara Magalhães, doutor em Computação e professor do Laboratório de Comunicação de Dados da Escola de Engenharia da Universidade Federal Fluminense (UFF), explica que a implementação da tecnologia 5G envolve um salto técnico que demanda a construção de uma nova infraestrutura de transmissão de dados no país e também da disseminação de aparelhos capazes de utilizar a tecnologia. Magalhães salienta que esse tipo de contrato costuma levantar problemas políticos.

"É mais ou menos óbvio que qualquer contrato comercial que envolva uma quantidade considerável de dinheiro vai gerar disputas e é comum os Estados Unidos usarem o seu peso político para tentar conseguir uma decisão favorável ao país deles", avalia o engenheiro da UFF em entrevista à Sputnik Brasil.

Nesse contexto, na avaliação do engenheiro, a pandemia da Covid-19 gera dois grandes problemas para o processo de implementação da nova tecnologia no Brasil.

"A pandemia certamente gera dois problemas, o primeiro problema é um problema de foco. Quando as pessoas estão pensando na pandemia fica difícil escolher, pensar em outras coisas, pensar em como vai ser feita a implantação do 5G quando se está lutando com uma doença tão complicada como essa. Mas a outra coisa que a pandemia afeta é a economia", avalia.

O engenheiro ressalta que o segundo ponto é fundamental, uma vez que não basta que o governo feche um contrato para a implementação de bases 5G de transmissão de dados em todo o Brasil, mas que também será necessário que as populações troquem seus aparelhos, como celulares, para que tenham acesso à nova tecnologia. Diante dessa condição, ele acredita que o encolhimento da economia prejudicará o avanço da tecnologia no Brasil.

Alto investimento e avaliação da tecnologia

Magalhães acredita que a negociação atual é complicada não só pela política e pelo avanço da pandemia, mas também pelo alto investimento envolvido nessa transação.

"Existe um interesse do governo brasileiro para que elas [as operadoras do 5G] entrem porque o governo faria um leilão das frequências a serem utilizadas pelo 5G. As frequências melhores são as frequências mais baixas, abaixo de 5 GHz, que estariam disponíveis, a princípio, pelo fim da TV analógica", explica o professor, que aponta que a passagem da televisão analógica para a digital também teve a intenção de liberar essas frequências para a tecnologia móvel.

Em meio às pressões políticas, em agosto o vice-presidente brasileiro chegou a garantir que a tecnologia chinesa não será excluída do processo de escolha no Brasil. Durante videoconferência, Mourão afirmou que "a Huawei tem capacidade acima de seus concorrentes" e que não há empresas norte-americanas "capazes de derrotar a concorrência internacional". Em julho, o embaixador norte-americano no Brasil, Todd Chapman, disse que o país poderia sofrer "consequências", caso optasse pela China.

Sem tecnologia, EUA não deveriam pressionar tanto

O professor ressalta que no caso específico do 5G essa questão política se torna ainda mais acirrada, pois os EUA não têm uma tecnologia própria para competir com os chineses.

"Nesse caso específico, como não existe tecnologia norte-americana de 5G – os maiores fabricantes que detêm essa tecnologia hoje em dia estão na Europa e na Ásia – os Estados Unidos não deveriam estar fazendo tanta pressão assim para que não fosse escolhida a tecnologia chinesa. Isso passa muito mais por uma decisão política do que técnica, porque a não ser que haja testes comparativos, é impossível dizer que uma tecnologia seja melhor que a outra", aponta.

Em meio ao imbróglio e pressões políticas, o engenheiro da UFF explica que não é possível avaliar qual é a melhor tecnologia 5G disponível, uma vez que tal avaliação depende de saber quais são os objetivos a serem alcançados com a tecnologia.

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