Curioso: PM prefere investigar crimes que repercutem na mídia

Relatrio revela que regra de delegacias distritais em Porto Alegre apurar delitos com "autoria conhecida" ou de "repercusso na imprensa"

Curioso: PM prefere investigar crimes que repercutem na mídia
Curioso: PM prefere investigar crimes que repercutem na mídia (Foto: Divulgação)
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247 – O jornal Zero Hora publicou nesta segunda-feira um relatório que revela uma regra de delegacias distritais em Porto Alegre. Delitos com "autoria conhecida" ou de "repercussão na imprensa" têm preferência, enquanto os demais permanecem estagnados nas dependências dos órgãos policiais.

Leia na matéria de Carlos Etchichury:

A regra nas delegacias distritais da Polícia Civil em Porto Alegre é investigar crimes com “autoria conhecida” ou “delitos que dão repercussão na mídia”.

É o que revela o relatório do Controle Externo da Atividade Policial, referente ao ano de 2010, encaminhado à cúpula de segurança pública ao qual Zero Hora teve acesso com exclusividade. O documento atesta:

"Os demais (crimes) permanecem estagnados nas dependências dos órgãos policiais onde se vê um serviço de investigação pouco efetivo."

A fragilidade das investigações policiais é assunto recorrente. Em 2008, em uma série de reportagens, Zero Hora mostrou que apenas 16% dos inquéritos geravam denúncia. O restante (84%) era devolvido para investigações ou pedido o arquivamento.

O documento de 81 páginas, que sintetiza um ano de visitas dos promotores a delegacias, sinaliza que, quatro anos depois, o problema permanece sem solução:

"Para que se tenha uma ideia, no mais das vezes, nem crimes graves, como, por exemplo, roubo e extorsão, têm os seus respectivos cadernos policiais instaurados se a autoria não é conhecida".

Dois terços ignorados

Dos 2.366 crimes registrados entre janeiro e outubro de 2010 na 7ª Delegacia da Polícia Civil, zona sul da Capital, 1.521 (64,2%) sequer foram investigados. Entre eles, há crimes graves como assaltos a residências, roubos de veículos, ataques ao comércio, cujos autores provavelmente permanecem impunes.

Proprietário de um Centro de Formação de Condutores, um empresário de 51 anos é uma das vítimas que procurou a 7ª DP. No final de janeiro, às vésperas do feriado de Nossa Senhora dos Navegantes, o homem foi rendido quando chegava em casa, no bairro Ponta Grossa.

– Entrei rápido na garagem, mas nem consegui sair do carro. Dois caras me surpreenderam apontando uma arma – conta.

Os criminosos invadiram o imóvel de três pisos, vasculharam todos os 12 cômodos, acordaram a mulher da vítima, uma comerciante de 44 anos, aterrorizaram os três filhos do casal – dois adolescentes com 11 e 15 anos e um jovem de 19 anos.

– Chegaram a colocar a arma na cabeça do mais novo – recorda.

Fugiram levando R$ 1,3 mil em dinheiro, documentos, cartões de crédito, três celulares e um Ka da família – além de um Golf vermelho, conduzido por um terceiro comparsa.

– Sequer cobriram os rostos – pondera a vítima, que pede para não ser identificada na reportagem.

Um policial para investigar

Com o efetivo disponível, é improvável que algo fosse investigado na 7ª DP. No dia 9 de março, data em que promotores realizaram uma das visitas à repartição, havia sete servidores trabalhando, distribuídos da seguinte forma:

"...dois no cartóio, três no plantã, um em outros setores e um na investigaçã".

Surpreso ao saber que o inquérito policial nem chegou a ser instaurado, o empresário desabafa:

– Eu esperava que alguém investigasse, que fosse atrás dos bandidos. É um absurdo.

Três dias após a residência ser devassada, o empresário soube que, no mesmo bairro, criminosos, também a bordo de um Golf vermelho, assaltaram uma padaria.

– Talvez não fosse tão complicado prendê-los – complementa.

À espera desde 2003

Nos armários empoeirados da repartição da 20ª DP, no bairro Cristal, ocorrências policiais repousam desde 2003 à espera de alguém para investigá-las.

Uma delas foi registrada pelo gerente de projetos Alexandre Faria Silva, 46 anos. Morador do bairro Cristal, ele foi rendido quando chegava em casa, na Rua Butuí, às 19h do dia 3 de agosto de 2010. Antes que os bandidos fugissem levando um 307, Silva teve tempo apenas para retirar o filho de seis anos, sentado numa cadeira infantil no banco traseiro. Surpreso com a inépcia policial, Silva pondera:

– Eu imagino que por trás de um assalto, atuem quadrilhas organizadas. Se não houver investigações, os roubos continuarão acontecendo e as consequências serão cada vez mais graves. Não vou entrar no mérito das deficiências da polícia, da falta de efetivo, mas a sociedade espera soluções concretas.

O carro foi recuperado no início da madrugada seguinte, seis horas mais tarde. No porta-malas, Silva encontrou papéis e documentos de outras vítimas, supostamente atacadas na mesma noite.

– Quantas pessoas mais foram assaltadas por aquele grupo? – questiona.

A interpretação do MP é de que não há método para decidir o que deve ser investigado:

"...deixou-se de formalizar e instaurar inquéitos policiais que passaram a atender não princípio da obrigatoriedade, mas o princípio da conveniêcia, ligado ao entendimento pessoal de cada delegado de polícia no que respeita à viabilidade investigatóia e relevâcia".

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