De estrela do mercado financeiro a amigo do MST, a jornada de Eduardo Moreira

De um dos principais economistas do Brasil e uma das palestras mais requisitadas pelo mercado financeiro, Moreira passou a ser um porta-voz da luta contra esse mesmo mercado que conhece tão bem

(Foto: 247)

Sul 21 - “Para quem tem dúvida, eu sou de esquerda. Não estou usando progressista para não ter mais dúvida”. É assim que o ex-banqueiro Eduardo Moreira define a sua posição política atual. Carioca da zona sul da cidade do Rio de Janeiro, aos 43 anos ele vive uma guinada que contraria aquele antigo chavão de que o coração levaria as pessoas a serem socialistas na juventude e a experiência e o conhecimento de como as coisas funcionam a serem liberais na maturidade. De um dos principais economistas do Brasil e uma das palestras mais requisitadas pelo mercado financeiro, passou a ser um porta-voz da luta contra esse mesmo mercado que conhece tão bem.

Moreira diz que não é possível singularizar em um evento a mudança que ocorreu em sua vida que resultou na sua aproximação com a esquerda. “As pessoas buscam muito um evento. ‘Pô, vem cá, tu bateu com a cabeça algum dia? Escorregou?'”, brinca. Ele reconhece que sempre foi “doutrinado” para acreditar que os problemas do País poderiam ser resolvidos pelo estímulo à competição pessoal e ao lucro. Uma cartilha que lhe fora passada, primeiro, no curso de Engenharia da PUC-Rio, depois, quando cursou Economia na Universidade da Califórnia de San Diego e, de maneira mais incisiva, quando atuou no mercado financeiro.

Ele recorda, contudo, que já nessa época uma semente de preocupação com a desigualdade havia sido plantada. Durante o curso de Engenharia, em determinado momento precisou conseguir um emprego para ajudar a pagar a própria faculdade. Um aluno sempre com boas notas, começou a dar aulas particulares. Mas não era o suficiente. Buscou então uma das bolsas de iniciação científica oferecidas pela universidade. Havia uma disponibilizada pelos departamentos de Engenharia e Serviço Social, que tinha por objetivo realizar um trabalho para ajudar na contenção de encostas sob risco de desabamento no Rio de Janeiro. Durante o ano de 1995, o futuro banqueiro trabalharia em algumas das comunidades mais carentes da capital fluminense. “Eu vi o surgimento da milícia, o tráfico, o crime organizado”, diz.

Foi a primeira vez que Moreira ficou de frente com uma realidade de dezenas de milhões de brasileiros, mas algo que parece absurdo para as camadas médias e superiores da sociedade: a falta de acesso ao mínimo de saneamento básico. “Isso foi muito forte, porque eu não imaginava que aquilo existia daquele jeito. Eu via, por exemplo, uma criança de três, quatro anos, brincando dentro de uma vala de esgoto. Uma jogando esgoto na outra. A mãe saindo de casa chorando, desesperada e pedindo ajuda. Aquilo me chocou demais”, conta.

O jovem Eduardo não era insensível àquela realidade, mas também nutria o desejo de ficar rico, ser um troféu para a família. Um case de sucesso, como fala. E assim foi. Foi sócio do Banco Pactual, o maior banco de investimentos do País. Fundou a Genial investimentos. Nas suas palavras, conseguiu “ganhar algum dinheiro” e teve uma carreira de “relativo sucesso”.

A virada

O primeiro freio na “loucura” do mercado financeiro veio após um acidente em 2009. Naquele ano, ele comprara uma fazenda no interior de São Paulo. Comprou também uma égua pela internet. “Fui montar, o cavalo era super bravo e levei um tombo”, contou em entrevista ao G1 em 2012. Quebrou o tornozelo e sofreu rupturas musculares nas costas. Foram duas semanas de cama e outros seis meses de fisioterapia. Durante a recuperação, conheceu o americano Monty Roberts, que era conhecido mundialmente por uma técnica de doma gentil de cavalos. Após aprender o método, escreve um livro “Encantadores de vidas”, sobre a técnica que apregoa uma relação menos violenta do ser humano com animais como uma alegoria para relacionamentos de outros níveis, como marido e mulher, professor e aluno, patrão e empregado. Para surpresa do próprio Eduardo, o livro virou um bestseller internacional. Ao ponto de, em 2012, receber uma homenagem da rainha da Inglaterra, Elizabeth II, como reconhecimento pelo seu trabalho pela doma não violenta de cavalos.

Na volta ao Brasil, ele começa a receber convites para palestras. Inicia então, uma terceira carreira de sucesso, a de palestrante. As viagens pelo Brasil, contudo, também servem para que ele faça o contato com pessoas de fora da bolha do mercado financeiro em que vivia. Em cada parada, ao final sempre havia uma pessoa que se aproximava com um relato de sofrimento pessoal. “O meu livro falava de superação, então as pessoas se aproximavam com dificuldades. ‘Você conseguiu superar a tua dificuldade, eu estou com uma dificuldade, deixa eu te contar a minha'”, diz.

Em uma hora de conversa na redação do Sul21, ele lança mão de várias analogias. A melhor delas é sobre regar plantas e o mercado financeiro. “Você não rega nunca esse seu lado humano e rega só esse seu lado materialista, ambicioso, competitivo, etc. E o que você rega cresce, o que você não rega, murcha”.

Ele conta que foi ao ouvir os relatos do sofrimento das pessoas que um quebra-cabeça começou a se fechar em sua mente. Timidamente, começava a compreender que, apesar de dizer que lutava por um país melhor, era uma peça no tabuleiro que contribuía para os problemas que dizia enfrentar.

Um novo momento de “revelação” veio em 2015, acompanhando uma nova complicação de saúde. Um problema simples resulta em um cirurgia que dá errado, que ocasiona seis tromboses e uma delas necrosa. Moreira entra e sai do hospital sob tratamento com morfina a cada quatro horas para suportar a dor. Perde 12 kg em uma semana. No meio desse processo, recebe uma ligação do caseiro de sua residência.

‘Olha só, seu Edu, eu sei que o senhor está aí no maior sofrimento, está passando por esse problema todo, mas tô ligando só para avisar que não vou poder ir trabalhar amanhã porque a minha filha de 12 anos está com um problema de apendicite, acho que é apendicite, e aí está com muita dor e eu tô correndo para o hospital’.

‘Corre para o hospital e vai lá ser atendido’.

No dia seguinte, Moreira liga para o caseiro para perguntar como a menina passou e se tinha passado por cirurgia.

‘Não foi atendida ainda não’.

‘Como assim não foi atendida? Você voltou para casa com ela e marcou outro horário?’

‘Não, não. Não dá para voltar para casa, ela tá com muita dor. Só que ela está aqui na maca ainda e tô sentado desde ontem aqui’.

‘Não é possível. Você tá sentado na mesmo cadeira?’

‘Tô, tô sentado na mesma cadeira’.

Mais um dia passa e a menina continua sem ser atendida. Posteriormente, ela seria atendida e se recuperaria normalmente, mas a ficha terminara de cair para o banqueiro.

“Aquele negócio começou a bater muito forte em mim. Eu falei: ‘Por que que eu tenho direito a isso tudo no meu sofrimento, um hospital, vários médicos, vários enfermeiros, TV de plasma, a comida que eu escolho no cardápio e um cara que trabalha mais do que eu, que tem o amor pelos filhos que eu tenho, que tem a mesma vontade de fazer as coisas certas na vida e que dá tudo que ele tem para poder fazer as coisas darem certo na vida dele, o cara não tem direito ao mínimo de dignidade para a pessoa que ele mais ama na vida?'”.

É nessa situação que ele começa uma jornada de compreensão sobre o funcionamento do que considera hoje um sistema que é voltado para redistribuir o dinheiro dos pobres para os ricos. A primeira pergunta que se fez é sobre quem estaria pagando o luxo que tinha no hospital e que era negado ao caseiro. Bom, ele tinha um plano de saúde vinculado à sua empresa. Mas os custos desse plano saíam do lucro da empresa ou eram repassados ao cliente? E quem era um de seus clientes? O caseiro. “Aí eu falei: ‘Caramba, é esse cara que não tem direito ao mínimo que banca esse luxo que eu tenho. E eu, como um grupo da sociedade, como classe, não dou direito a ele de ter o mínimo de dignidade e ainda luto contra ele ter'”.

Ele aplica a mesma lógica para outras áreas. “Comecei a fazer o dinheiro em tudo, educação, saúde, tributos, e comecei a ver que a gente tinha uma máquina montada de desigualdade que tirava dinheiro dos pobres e dava dinheiro para os ricos, quase como que num Robin Hood às avessas”.

Moreira diz que tinha lido todos os grandes nomes da Economia em sua vida de estudante. Milton Friedman, Clive Grange, Hayek, Mises e até Marx. Mas o que o move, nesse momento, é um desejo de investigação pessoal. O que Eduardo Moreira pensa da economia? Como, se possível fosse, pensa em um ET que pousa na Terra e busca compreender como funciona o sistema, diz, em mais uma alegoria. O que ele descobre é justamente o funcionamento dessa máquina montada para perpetuar a desigualdade.

“Uma coisa super simples que eu nunca tinha percebido era que o que tinha para ser distribuído era finito. Aquela história de que é só crescer o bolo, que o problema não é a desigualdade, é a pobreza, é uma balela enorme. Porque se o que a gente tem para distribuir é finito, quando alguém começa a acumular muito, em algum lugar está faltando”, diz.

Junto com a concentração de renda, diz Moreira, vem o poder. “O problema do Jorge Paulo Lemann e do grupo dele terem centenas de bilhões de reais não é só que vai faltar riqueza em outros lugares, é que esse cara vai decidir o que vai ser do País. Ele decide se a gente vai ter reforma da Previdência ou não”, diz. Ele destaca que não tem o objetivo de singularizar o problema em um bilionário específico. “Se o Lemann resolver hoje ser um franciscano, no sistema que a gente tem hoje, alguém vai assumir o lugar dele. Essas pessoas decidem efetivamente, no Brasil de hoje, qual a reforma que vai passar, quem vai ser o próximo prefeito, quem vai ser o próximo governador. O jogo é bruto. Aí vai dizer: ‘Não é, tanto é que o Bolsonaro se elegeu com uma campanha só de 10 milhões de reais’. Quem é bobo para acreditar nisso? Quem é bobo para acreditar que ele se elegeu só com 10 milhões de reais, quando, na verdade, ele subia na pesquisa e a Bolsa subia 10%, ele caia na pesquisa e a Bolsa caia 10%. E o dono de uma das maiores empresas de varejo do Brasil falava o seguinte: ‘Se o candidato oponente do Brasil for eleito, eu vou mandar embora 20 mil’. Esse negócio vale muito mais do que qualquer milhão de real para fazer panfleto”.

Novos amigos na esquerda

Esse processo de investigação resultou em outro livro: “O Que os Donos do Poder Não Querem que Você Saiba”, de 2017. As teses de Moreira não repercutem bem entre os seus antigos colegas do mercado financeiro, nem entre os economistas acadêmicos ortodoxos. Uma crítica que recebe é a de que seu livro carece de bibliografia. No que ele responde: “Ele não tem bibliografia porque eu parti do zero e eu cheguei naquelas opiniões. A bibliografia é a minha cabeça. Os dois livros que eu tenho alguma inspiração são citados ali. Um do Erich Fromm, que é o ‘The Same Society’, e outro que é ‘A Grande Transformação’, do Karl Polani. Mas o resto é todo um processo de descobrimento pessoal”, justifica.

Ele conta que, inicialmente, essa jornada o levou para um verdadeiro limbo. Antigos amigos haviam se afastado e não se sabia ainda se alguém ficaria do seu lado. Não estava mais escrevendo um livro com uma jornada inspiradora, estava comprando, propositalmente, uma briga com o mercado financeiro.

É aí que o ex-banqueiro de sucesso se aproxima dos “comunistas”. O primeiro novo aliado que ganha é o sociólogo Jessé de Souza, crítico voraz da elite brasileira, essa da qual Moreira estava buscando se afastar. Aliás, ele próprio se mostra um grande crítico da elite brasileira. “O rico no Brasil é extremamente covarde, né. Porque no Brasil o problema nem é de ser cada um por si. Se fosse cada um por si, ainda era menos pior. Mas ele nem quer que seja cada um por si, porque ele depende do outro para poder ter o que ele tem. ‘Cada um por si não, eu quero aquele cara para eu poder explorar, eu preciso do mais frágil’. Essa é a covardia do rico brasileiro. Ele é um covarde, é um frouxo, um cara raso, superficial. É verdade isso”, diz.

Depois viriam os políticos. O senador Paulo Paim, os deputados Henrique Fontana e Jandira Feghali, e Ciro Gomes. O ex-governador cearense e ex-candidato à presidência é um grande entusiasta da obra de Moreira. Os dois já gravaram vídeos em que conversam sobre a situação econômica do País. Outra grande aliada e amiga que fez foi Maria Lúcia Fattorelli. Auditora aposentada da Receita Federal, Maria Lúcia trava uma luta inglória, e com raros aliados, pela realização de uma auditoria cidadã da dívida pública brasileira. Os dois, ao lado de Jessé, têm sido parceiros em uma série de debates em 2019. Recentemente, esteve com Noam Chomsky, um dos pensadores mais proeminentes da esquerda mundial, nos Estados Unidos.

“Eu me vi tendo a possibilidade de contribuir para essas pessoas que querem desarmar essa máquina de desigualdade. Eu resolvi me colocar como um porta-voz, não só das pessoas que querem desarmar essa máquina de desigualdade, como das pessoas que sofrem essa desigualdade”, diz.

A notoriedade nacional nessa nova luta contra o mercado financeiro ganha destaque no final de julho de 2018. É nessa época que começam a circular diversos trechos de uma entrevista que concedeu à rádio Jovem Pan. São tantas versões que seria uma batalha inglória contabilizar. Foi compartilhada por muitos políticos. O motivo pode ser atribuído a um trecho de sua fala pinçado por Manuela D’Ávila na época: “Se as pessoas soubessem como funcionam as coisas, os pobres e a classe média fariam uma revolução”.

Manuela✔@ManuelaDavila"Se as pessoas soubessem como funcionam as coisas, os pobres e a classe média fariam uma revolução", Eduardo Moreira, ex-banqueiro.
8.31414:30 - 31 de jul de 2018Informações e privacidade no Twitter Ads

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Dormindo com quilombolas, trabalhando com o MST

Eis, então, que o ex-banqueiro decide iniciar uma nova jornada. Para ser um porta-voz legítimo dos movimentos que lutam contra a desigualdade, ele acredita que precisa conhecê-los. Saber como dormem, comem, trabalham. “Sentir um pouquinho da dor que eles sentem”, diz.

Com auxílio de Jessé, essa jornada o leva a passar um período em um assentamento do MST, outro com pessoas que enfrentam a seca do Nordeste, outro com quilombolas. Esse último, neste mês de agosto. O máximo que ficou foi um mês, o mínimo, uma semana. Um desses períodos rendeu uma conversa em vídeo com outra figura marginalizada do debate político nacional, João Pedro Stedile, da coordenação nacional do MST. Em breve, pretende estender a experiência para junto de quem vivencia a luta dos movimentos sem-teto urbanos.

“Eu não vou para visitar, porque eu acho que visitar é ofensivo. Como se você tivesse num zoológico. Ó, aqui tem o hipopótamo, a girafa, o leão, o sem terra, o sem teto e o quilombola”, diz. “Eu nunca vou sentir na pele a dor que um negro sofre no Brasil, de sair numa loja e o cara ficar olhando para ver se o alarme não vai tocar. De o cara estar andando numa calçada e o outro atravessar. Eu não vou sentir essa dor na pele, mas eu posso chegar ao mais próximo que dá de ser uma escuta verdadeira, de ser uma presença que está ali e tentar de alguma forma esbarrar no problema dele para ser um porta-voz mais legítimo”.

Nessa jornada, o economista diz que aprendeu o que é economia de verdade. Oykos e nomos. Do grego, gestão do lar.

“Essas pessoas têm que viver o processo econômico e não pode dar errado, porque, quando dá errado, elas morrem. A gente acha que economia é: ‘comprei uma ação, a ação caiu, perdi dinheiro’. Esse cara quando algo dá errado, ele morre. A vida dele é investimento, risco e retorno. Investimento, abrir mão de uma riqueza que ele tem hoje. Risco, aquilo dar errado e ele ficar só mais pobre, não ficar mais rico. Retorno, quando aquilo dá certo e a plantação dá certo ou o que ele resolveu construir funciona. Então, eu aprendi mais de economia morando nessas comunidades do que eu aprendi na faculdade inteira, sem querer desmerecer a importância da universidade”.

Moreira não considera a sua jornada um trabalho antropológico, mas sim uma busca por conhecimento.

“Eu estava num quilombo e aí eu fui fazer uma fala sobre a conjuntura, de política, etc. Como eu vou falar de luta para essas pessoas? Quem sou eu para falar de luta num quilombo? Negros, que fogem de uma relação de propriedade entre uma pessoa e outra, se escondem no meio de uma mata e vivem séculos lutando para não ter a vida deles tomada. Quem sou eu, um branco da zona sul do Rio de Janeiro para falar de luta com esses caras? Então, eu me coloco na posição que eu tenho mesmo, de ser um cara que está aprendendo com eles. Porque eu acho que, no Brasil, tem muita gente que quer ficar rica e ignorar esse sistema. Tem poucas pessoas que querem aprender sobre os pobres e ninguém quer aprender com os pobres. Acho que é isso que nós temos que fazer, nos colocarmos numa posição de aprender com os pobres”.

Um oportunista do fracasso

Há algo que soa estranho para muitos na aproximação do economista com setores da esquerda. Para muitos liberais, Moreira é um oportunista com interesses políticos.

Ele refuta, inclusive, acha graça das acusações de oportunismo. “Hoje eu vivo de vender cursos que ensinam as pessoas a se livrarem das armadilhas dos bancos, porque eu vivi esse mundo durante um tempão. As pessoas que podem investir, que lidam com o mercado financeiro, normalmente são pessoas eleitoras do Bolsonaro, mais de direita. Então, quando eu assumi a minha posição política, eu perdi um monte de aluno. Um monte de gente passou a dizer: ‘Eu não vou nunca mais fazer o teu curso’. Então, é um oportunista meio maluco esse. É um oportunista que tem a oportunidade de perder cliente e aproveita essa oportunidade”.

Além disso, o sucesso nas redes sociais lhe rendeu detratores. E, mais do que isso, muitos ataques virtuais. “Eu chegava em casa e a minha esposa estava chorando. Teve um dia que eu recebi mais de 1,5 mil ameaças. Os caras de direita se reúnem, devem ter os grupos de WhatsApp e de repente todo mundo vai junto. Tinha um vídeo meu no YouTube que tinha 3 mil visualizações e já tinha parado de crescer. De um dia para o outro, eu fui ver e tinha 70 mil visualizações, mil e quinhentos comentários, todos eles falando assim: ‘Se esse cara sair na rua, a gente vai pegar esse cara. Cuidado, não se espantem se esse cara sumir de um dia para o outro’. Como tu acha que fica a minha família? Como tu acha que fica o meu filho mais velho que já consegue ler as notícias e ler as matérias? Como um cara desse é oportunista? Só se ele for maluco”.

Moreira, no entanto, reconhece que já recebeu convites de partidos políticos. Mas ele acredita que pode exercer melhor a posição de porta-voz sem nenhuma filiação partidária. “As pessoas que apoiam esses movimentos conservadores, de direita, estão loucas para eu me candidatar a alguma coisa. Porque elas querem achar uma maneira de derrotar essa minha caminhada. Só que hoje eu não posso ser mandado embora porque não sou empregado de ninguém, eu não posso perder voto porque não sou candidato a nada, eu não posso perder patrocínio porque não aceito patrocínio de ninguém. Como o cara vai me derrotar? A única coisa que sobra para o cara é partir para essa história de me difamar, de falar que eu sou isso, que eu sou aquilo”.

O economista garante que não tem interesse em qualquer projeto político pessoal e que sua meta, o endgame, como diriam seus ex-amigos do mercado financeiro em uma linguagem que aparece de vez em quando na conversa com o Sul21, é a sua jornada. “A minha meta é que as pessoas digam: ‘Esse cara está falando o que eu queria e ninguém falou’. Se eu tiver que abrir mão de todas as vaidades pessoais do Eduardo, vou abrir mão”.

Por um capitalismo mais humano

Moreira conta que à noite, antes de dormir, até se pega imaginando possíveis modelos revolucionários de superação ao capitalismo, mas o que ele prega, no momento, não é isso. Ainda dentro do sistema atual, acredita que é necessário trabalharmos por um capitalismo que cuide mais das pessoas. Ele diz que a mensagem que tem a passar é simples. É, diz em mais uma alegoria, como um equilibrista que cruza o vão entre dois prédios pisando na corda bamba. Tudo que ele precisa fazer é pisar bem no meio da corda e manter-se equilibrado. Simples. Mas, ressalva, muito difícil.

O ex-banqueiro acredita que é preciso promover uma melhor distribuição do capital. Isso significa tornar mais fácil o acesso a terras, o acesso ao capital intelectual, o acesso às maquinas para que mais pessoas possam investir. “O Brasil é o maior baú de riqueza que existe no mundo, a gente tem de tudo. Agora, para transformar isso que está dentro do baú em abundância, em prosperidade para todo mundo, todo mundo tem que fazer parte do processo de geração de riqueza. E a chave do baú no Brasil está na mão de meia dúzia de pessoas. Então, se você redistribui o acesso ao capital no Brasil, nem que você não queira, você vai ter uma explosão de crescimento no país”, diz.

O que ele defende, contudo, não é o discurso fácil e bonito pró-empreendedorismo feito pela direita de que é preciso reduzir direitos trabalhistas para que os empresários possam geram mais empregos, mas sim de democratizar esses acessos para que, por exemplo, aquele trabalhador do campo que a vida inteira atuou em lavouras de milho e batata possa plantar em benefício próprio e sem ter que pedir a permissão para um patrão.

“É o que eu falo para as pessoas, esse argumento neoliberal de que é importante diminuir os direitos, de que se tem ou emprego ou direitos, então vamos para a escravidão que não tinha desemprego. Desemprego zero. O limite dessa história é isso. A gente tem que colocar freio”, diz. “Já que eu tenho o capital todo, você não tem capital nenhum, eu não trabalho nada, você é o único que trabalha, tudo que você gera de riqueza fica comigo e você não fica com nada. Cara, eu pelo menos tenho que cuidar de você. Até na escravidão os donos dos escravos eram obrigados a cuidar dos seus escravos. Hoje em dia, a gente está indo para um nível em que, além de você ter que fazer tudo para mim, eu não tenho que ter cuidado nenhum com você. Você vira uma peça tão descartável quanto uma capsula de Nespresso”.

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