Delúbio desabafa: “Confio em Deus e na Justiça”

Em São Paulo, o ex-tesoureiro do partido fez a sua última manifestação pública antes do julgamento; disse que foi chamado a quitar uma dívida de R$ 60 milhões do PT e dos partidos aliados na eleição de 2002 e executou a tarefa sem o uso de recursos públicos; sobre o veredicto que o aguarda, demonstrou confiança: “Vai dar certo”

Delúbio desabafa: “Confio em Deus e na Justiça”
Delúbio desabafa: “Confio em Deus e na Justiça” (Foto: Alessandro Shinoda/Folhapress)

247 – O diretório zonal do PT na Vila Mariana, bairro de classe média em São Paulo, foi o palco escolhido por Delúbio Soares, ex-tesoureiro do partido, para sua última manifestação pública, antes do julgamento da Ação Penal 470, que começa na próxima quinta-feira, 2 de agosto. Foi lá, na Vila Mariana, que a sua companheira Mônica Valente, ex-secretária da administração Marta Suplicy, se filiou ao PT. E diante de pouco mais de 30 pessoas, Delúbio, vestido com uma camisa da seleção brasileira, falou por mais de três horas, neste sábado, sobre o processo político que originou a denúncia. “Quero olhar nos olhos de cada um de vocês e assegurar: não houve o uso de recursos públicos”, disse ele.

A narrativa de Delúbio é a mesma que ele vem contando desde 2005, quando o escândalo estourou. Mas que hoje, às vésperas do julgamento, parece mais coerente – e tem mais chances de ser ouvida pelos ministros do Supremo Tribunal Federal e pela opinião pública do que à época em que as chamas das primeiras denúncias ainda ardiam. “Vai dar certo”, afirma Delúbio. “Confio muito em Deus e na Justiça”.

Militante histórico do PT, Delúbio Soares foi radical na juventude. Era daqueles que rejeitavam qualquer tipo de aliança com outros partidos. Em 2002, no entanto, Delúbio fazia parte do grupo que defendia a aliança com o PL (hoje PR), de José Alencar, que foi vice de Lula. Quando a aliança foi selada, Alencar fez uma doação de R$ 2 milhões por meio da Coteminas, mas havia um problema em vários estados: os candidatos a deputado pelo partido, de corte mais conservador, não conseguiriam financiar suas campanhas, estando aliados ao PT, de Lula.

Foi então que surgiu o primeiro acordo político que originaria todo o problema: o PT se dispôs a repassar ao partido de Alencar 20% do que arrecadasse dos seus doadores de campanha. Aos poucos, esse modelo de acordo político passou a ser fechado com outros partidos. E quando Lula se elegeu, em novembro de 2002, o PT e seus aliados acumulavam uma dívida de, aproximadamente, R$ 60 milhões.

Delúbio, como tesoureiro, foi chamado a resolver o problema. E procurou vários bancos, até chegar aos mineiros Rural e BMG, a quem foi levado por meio do empresário Marcos Valério de Souza, apresentado pelo ex-deputado Virgílio Guimarães. “Não criei essa dívida, não fui candidato e busquei apenas arcar com as minhas responsabilidades como tesoureiro do partido”, disse Delúbio aos militantes do PT. “Quero responder pelo que fiz, não pelo que não fiz”.

Na exposição, Delúbio fez até uma diferenciação entre “caixa dois” e “recursos não contabilizados”, expressão que ele repetiu reiteradas vezes ao longo da CPMI dos Correios, em 2005. “As pessoas foram ao banco, deram seus nomes, retiraram os recursos captados via empréstimos de forma transparente”, disse ele. “E isso não é caixa dois, apenas não foi contabilizado nas despesas da campanha”. Outro ponto importante, reforçado por ele, foi o fato de as retiradas bancárias terem ocorrido uma única vez.

Efetivamente, os personagens que sacaram recursos no Banco Rural eram ou tesoureiros de partidos, como Jacinto Lamas, do PL, ou responsáveis por diretórios regionais, como Paulo Rocha, do PT, ou ainda parlamentares com pequenas dívidas de campanha, como Professor Luizinho e João Paulo Cunha, também do PT. Houve ainda aqueles, como Marcio Lacerda, atual prefeito de Belo Horizonte, que também participaram do acordo, mas que, por razões políticas, foram excluídos da denúncia relacionada à Ação Penal 470.

Como os saques ocorrem uma só vez, Delúbio elogiou a decisão do ministro Ayres Britto, do STF, que determinou que o processo seja tratado como Ação Penal 470, e não como mensalão. “A palavra mensalão já representaria uma condenação”, disse ele. “Que mensalão é esse pago uma só vez?”

Sobre o seu veredito, ele demonstrou confiança. Somadas, as penas pelos crimes imputados a ele pelo procurador-geral da República, Roberto Gurgel, podem chegar a 111 anos de cadeia. “Estou tranquilo”, disse ele aos militantes. “O dia seguinte é o dia seguinte e vamos aguardar com serenidade”.

No encontro, vários militantes se queixaram do fato de o PT ter se acovardado – por mais de cinco anos, Delúbio esteve expulso dos quadros do partido. “Agora, finalmente, estamos tendo um apoio importante”, disse o ex-tesoureiro, referindo-se ao vídeo produzido pelo presidente da sigla, Rui Falcão. Comandantes anteriores, como Tarso Genro, Ricardo Berzoini e José Eduardo Dutra, não foram solidários a esse ponto, embora tenham tido também suas dívidas de campanha pagas pelo ex-tesoureiro.

Apesar do que ficou para trás e do sofrimento dos últimos sete anos, Delúbio não demonstrou nenhum tipo de mágoa ou ressentimento. Citou até personagens da esquerda que pagaram preços altos no passado, como o sul-africano Nelson Mandela, o uruguaio Jose Mujica, que ficou oito anos numa solitária, e a própria presidente Dilma Rousseff. No fim, pediu a todos apoio espiritual e foi aplaudido. Alguns se emocionaram. Delúbio sorriu, distribuiu abraços e lembrou que o projeto político do PT não significa tomar o poder, mas sim conciliar e dividir.

De certa forma, a eleição de 2002, que uniu o operário Lula ao empresário Alencar, foi o início desse projeto, mas também do pesadelo chamado mensalão.

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