Postura de Bolsonaro na crise do coronavírus atinge imagem do Brasil no exterior

As denúncias contra Jair Bolsonaro no exterior, motivadas por sua postura diante da crise do coronavírus, atrapalham muito a capacidade de inserção internacional do Brasil, acredita o deputado federal Enio Verri (PT-PR)

(Foto: REUTERS/Ueslei Marcelino)
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Sputnik - Ao longo do último mês, entidades e parlamentares do Brasil enviaram uma série de denúncias a organizações internacionais criticando a postura de Jair Bolsonaro diante do surto do novo coronavírus. Segundo eles, o chefe de Estado brasileiro tem sido extremamente irresponsável em seus posicionamentos, colocando em risco a vida de milhões de pessoas. 

​Contrariando recomendações das principais autoridades sanitárias do mundo, Bolsonaro tem se colocado como um dos maiores críticos ao isolamento social imposto para reduzir a disseminação do coronavírus, ora minimizando a gravidade da doença, ora dizendo que as consequências econômicas de uma quarentena seriam piores do que a própria enfermidade. 

Embora a visão do presidente e de alguns dos seus aliados não seja, necessariamente, a mesma de toda a administração federal, as colocações de Bolsonaro e de alguns dos seus ministros já têm repercutido no exterior. E, segundo alguns críticos, podem afetar a imagem do Brasil lá fora. 

​"A imagem do Brasil fica absolutamente comprometida em um processo como esse. A verdade é que o Brasil, por conta da figura do seu presidente, fica menor", afirma em entrevista à Sputnik Brasil o deputado Enio Verri (PT-PR), líder do seu partido na Câmara. "Isso vai contra qualquer possibilidade de construção de relação do Brasil com o resto do mundo, isso acaba também prejudicando a iniciativa de outros países que queiram construir conosco parcerias culturais, mas, principalmente, econômicas. Porque, na verdade, as relações internacionais estão muito voltadas a duas questões: primeiro, à manutenção da paz; e, a segunda, às relações econômicas. E a postura de Bolsonaro não ajuda nem uma e nem outra."

Segundo Verri, os desentendimentos recentes do Brasil com a China, evidenciados em declarações agressivas de membros do governo brasileiro ao país asiático, são um exemplo claro de como posicionamentos polêmicos adotados pela administração Bolsonaro podem prejudicar o Brasil. 

"A China representa quase 24% do destino das exportações brasileiras. Quando a China, por exemplo, recentemente, deixou de comprar soja do Brasil para comprar dos Estados Unidos, quem perde é o agronegócio brasileiro. Esse é apenas um exemplo de tantos outros."

O deputado defende que, para um país ser desenvolvido, ele precisa de "produtividade", "justiça social" e "capacidade de inserção internacional", e, sem isso, dificilmente, o Brasil poderá sonhar com desenvolvimento e expansão de sua economia. 

Para o advogado Antonio Fernando Pinheiro Pedro, também ouvido pela Sputnik Brasil, para entender as consequências dessa "avalanche de denúncias" contra o governo brasileiro, é preciso entender que a atual administração se divide em dois grupos. Enquanto um deles está submetido "pessoalmente" às vontades do presidente, "continuamente em campanha", o outro, formado principalmente por militares, estaria efetivamente defendendo os interesses do país.

"E esses militares formam a linha de frente do governo Jair Bolsonaro. Este é o governo que está trabalhando pelo Brasil, que coordena as ações dos ministérios, que faz a máquina funcionar e que está empenhado, inclusive, em se articular com o Ministério da Saúde, visando o combate à pandemia", afirma o especialista. 

​Pedro acredita que, embora essa ala mais profissional esteja mais direcionada para a governabilidade do país, a outra busca constantemente uma política de enfrentamento, levando a uma "politização autoritária do processo democrático brasileiro".

"E isso é o que tem preocupado não só as instituições brasileiras, como também as instituições internacionais", opina.

O advogado argumenta que o discurso de desobediência civil protagonizado pelo presidente da República não está identificado com o que "realmente está fazendo o governo federal". Para ele, se, por um lado, as denúncias contra o governo tenham como objetivo demonstrar repúdio a essa postura mais polêmica, por outro, tentam se aproveitar "desse conflito" para "reforçar as ações de desconforto dos setores globalistas mundiais em relação à política soberanista adotada pelo governo federal a partir do momento em que o presidente Bolsonaro tomou posse".

"Não só nós estamos levando uma imagem que não é condizente à governabilidade que se está instituindo ao país, como também estamos começando a ver essa má imagem se refletir junto ao próprio eleitorado do presidente", afirma. 

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