Denúncias de trabalho escravo batem recorde histórico no Brasil em 2025
Especialistas e autoridades avaliam que o aumento das denúncias não reflete apenas uma eventual ampliação do crime
247 - O Brasil registrou, em 2025, o maior número de denúncias de trabalho escravo e de condições análogas à escravidão desde o início da série histórica. Ao longo do ano, foram 4.515 registros, um crescimento de 14% em relação a 2024, quando já havia sido observado um recorde. Os dados são inéditos e foram divulgados pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC).
As informações, obtidas pelo g1, revelam a consolidação de uma tendência de alta nas denúncias nos últimos anos e reforçam que o trabalho escravo contemporâneo permanece como um problema estrutural no país, apesar dos avanços na fiscalização e nos mecanismos de combate.
Entre as denúncias contabilizadas em 2025 estão casos envolvendo trabalho escravo infantil e situações de adultos submetidos a jornadas exaustivas, condições degradantes, servidão por dívida e restrição de liberdade. Essas práticas configuram crime de acordo com a legislação brasileira e são combatidas por meio de ações integradas do poder público.
O mês de janeiro de 2025 marcou um novo recorde mensal desde a criação do Disque 100, em 2011, com 477 denúncias registradas apenas nas primeiras semanas do ano. Desde que o canal passou a receber comunicações sobre trabalho escravo, mais de 26 mil denúncias já foram feitas em todo o território nacional.
A série histórica mostra um crescimento contínuo. Em 2021, foram 1.918 denúncias. Em 2022, o total subiu para 2.084. Em 2023, chegou a 3.430 registros. Em 2024, o número avançou para 3.959, até então o maior já contabilizado. Antes desse ciclo de alta, o pico havia ocorrido em 2013, com 1.743 denúncias, o que evidencia que o volume mais que dobrou em pouco mais de uma década.
Os dados de denúncias dialogam diretamente com o número de resgates realizados pelo Estado. Segundo a Secretaria de Inspeção do Trabalho (SIT), vinculada ao Ministério do Trabalho e Emprego, 2.186 pessoas foram resgatadas em 2024 de condições análogas à escravidão.
Desde 1995, quando o Brasil reconheceu oficialmente a existência de formas contemporâneas de escravidão, cerca de 65,6 mil trabalhadores já foram libertados nessas operações. O número é resultado de mais de 8,4 mil ações fiscais realizadas em todo o país até dezembro de 2024.
As fiscalizações são conduzidas principalmente pelo Grupo Especial de Fiscalização Móvel, coordenado pelo Ministério do Trabalho, com apoio de equipes regionais nos estados. As ações envolvem ainda o Ministério Público do Trabalho, a Polícia Federal e a Defensoria Pública da União.
Em 2024, os setores econômicos com maior número de trabalhadores resgatados foram a construção civil e o agronegócio. De acordo com a Classificação Nacional das Atividades Econômicas (CNAE), lideraram os resgates a construção de edifícios, o cultivo de café e de cebola, além de serviços ligados à preparação de terreno, colheita e horticultura.
Os dados também apontam uma mudança relevante no perfil do problema. Cerca de 30% dos trabalhadores resgatados no último ano estavam em áreas urbanas, indicando um crescimento do trabalho escravo fora do meio rural, tradicionalmente associado a grandes propriedades agrícolas.
Especialistas e autoridades avaliam que o aumento das denúncias não reflete apenas uma eventual ampliação do crime, mas também maior conscientização da população, fortalecimento dos canais de denúncia e aumento da confiança nos mecanismos de proteção. Ainda assim, os números elevados mostram que o combate ao trabalho escravo segue como um dos principais desafios sociais do país.
As denúncias podem ser feitas de forma gratuita e anônima pelo Disque 100, que funciona 24 horas por dia, inclusive aos fins de semana e feriados. Também é possível registrar casos por meio do Sistema Ipê, canal eletrônico específico para denúncias de trabalho análogo à escravidão, sem necessidade de identificação do denunciante.



