Dilema nas escolas: proteger ou educar?

Escolas discutem o que fazer depois do Massacre do Realengo; enquanto alguns colgios falam em edificar fortalezas, outros do nfase ao respeito na sala de aula

Letícia Moreli_247 – Neste fim de semana, jornais e programas de televisão trouxeram à tona novos detalhes do perfil psicológico do autor da chacina na escola municipal Tasso da Silveira, em Realengo, Rio de Janeiro. O Fantástico, da Rede Globo, apresentou uma reportagem com ex-alunos da escola, que foram colegas de turma de Wellingon Meneses de Oliveira. Eles contaram que o assassino foi alvo de bullyng extremo quando tinha entre 13 e 14 anos de idade e cursava o ensino fundamental na instituição. No dia 8, o Brasil 247 publicou entrevista com um dos irmãos do assassino, que também afirmou que Wellington fora alvo de bullyng na fase de pré-adolescência. O termo bullying é utilizado para descrever atos de violência física ou psicológica, intencionais e repetidamente praticadas por um indivíduo ou grupo com o objetivo de intimidar ou agredir outro incapaz de se defender. Em alguns casos, os agressores são vítimas de assédio escolar e descontam o trauma sofrido maltratando outros colegas. Esse tipo de violência vivida por Wellington teria sido uma das razões – entre outras que estão sendo discutidas, como seu suposto envolvimento com grupos terroristas, até um estado de esquizofrenia crônica – que o levaram a disparar os 60 tiros que mataram 12 adolescentes na última quinta-feira 7. Psicólogos garantem que ser vítima de bullying não é motivo suficiente para se cometer tamanha barbárie. Tantas incertezas andam mexendo com o clima nas instituições de ensino brasileiras. Algumas já tomaram providências para reforçar a segurança. Na Câmara dos Deputados tramita um projeto para instalação detectores de metais nas portas dos colégios. Mas será que transformar as escolas em verdadeiras fortalezas resolve?

As opiniões estão bastante divididas. Na manhã do dia seguinte ao massacre no Realengo, uma das mais antigas instituições de ensino de São Paulo, a centenária Escola Técnica Estadual Getúlio Vargas, foi vítima de um trote. “Telefonaram para pais de alunos dizendo que tinha gente ferida aqui na escola. Três viaturas da polícia vieram checar se era verdade. Graças a Deus não passou de uma brincadeira de mau gosto”, contou o diretor Antonio Pereira Afonso. Diante do fato, o diretor apressou-se em instalar nove câmeras de segurança nas dependências do colégio. Segundo ele, a iniciativa já era prevista como parte de um conjunto de medidas definidas, no início do ano, para controlar um problema eminente na escola: o tráfico de drogas. “Já tínhamos colocado catracas nas entradas e estamos confeccionando carteirinhas de identificação para cada aluno matriculado, com código de barras, foto e dados pessoais. Desta maneira, vai ficar mais fácil detectar quem é nosso aluno e quem não é”, explica. Neste momento, um inspetor monitora a catraca por onde passam os 4500 alunos da instituição. Para acessar as dependências do colégio, eles são obrigados a apresentar documento de identificação. Logo na entrada, duas câmeras capturam e registram quem passa, uma fica visível para quem circula, a outra é oculta. A uniformização dos alunos também está em estudo. “Fizemos uma pesquisa com os pais e todos se mostraram a favor. Mas a verba da nossa APM [Associação de Pais e Mestres] é insuficiente para confeccionarmos uniformes para todos. Então encomendei a confeccção do brasão do colégio para que eles coloquem, como quiserem, na camiseta”, afirma.

A implantação de um detector de metais foi descartada pelo diretor. “Acho inviável. O custo desse equipamento seria astronômico, e não acredito que o Estado consiga arcar. E o trânsito aqui é muito intenso. Além disso, os alunos portam muitos objetos feitos de metal: compassos, esquadros, estojos, uns trazem marmita. O detector iria apitar constantemente”.

Com um histórico de tráfico de drogas e a dificuldade de controlar milhares de alunos com uma equipe de seis inspetores que se dividem em três turnos, a coordenação do colégio discute agora como serão programadas as catracas eletrônicas. “No período da manhã temos alunos menores, não posso permitir a saída deles. Mas no turno da noite, temos adultos e sou obrigado a permitir a saída deles. Talvez prevaleça a ordem 'quem entrou, não sai até o fim do período'”, afirma.

Nos colégios privados, os casos de violência não costumam ultrapassar os muros da escola, e não aparecem com relevância na grande mídia. É como se, aparentemente, não existisse esse tipo de coisa na redoma destas instituições. A maioria prefere nem se manifestar sobre o assunto. O Colégio Dante Alighieri, por exemplo, foi um dos procurados por nossa reportagem que não quis se pronunciar sobre o assunto por considerar o acontecimento no Realengo fato extremo e isolado, que não compreende a realidade de sua instituição.

Mais aberto, o Colégio Bandeirantes disse que aposta na orientação pedagógica como prevenção da violência. “Aqui praticamos a Justiça Restaurativa. Fizemos um trabalho com os nossos inspetores, que também são educadores, e eles estão em alerta para qualquer situação que possa caracterizar um bullying”, declara a orientadora educacional do colégio, Rita de Cássia Lopez Vázquez. “A questão da empatia é muito trabalhada junto aos alunos, fazemos eles se colocarem no lugar do outro. Nunca tivemos um problema sério de violência ou perseguição. Quando percebemos algum desentendimento, encaminhamos o aluno para o departamento de orientação educacional e deixamos um canal aberto para ouvi-lo. Se a coisa fica mal resolvida entre alunos, ou entre aluno e professor, ela se solidifica e cresce e aí fica difícil controlar”, justifica.

O Colégio Bandeirantes foi a única instituição de ensino fundamental e médio brasileira a participar da 5º Conferência Mundial sobre Violência na Escola, que aconteceu (coincidentemente) nos dias 7, 8 e 9 de abril, em Mendoza, na Argentina. O encontro reuniu educadores, psicólogos, sociólogos e investigadores de criminologia de mais 27 países, para discutir maneiras de combate à violência nas escolas. “A participação da comunidade seria uma das medidas preventivas que reconhecemos como viáveis. Detector de metais, esse tipo de coisa é eficiente, mas muito coercitivo; a educação é o verdadeiro caminho para a paz”, conclui Rita.

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