Dispara contaminação por Covid-19 em indígenas no Mato Grosso

Avanço da epidemia e abandono governamental colocam em elevado risco as diversas etnias da região

(Foto: Bruno Kelly/Reuters)
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Por Murilo Matias, do Vozes Latinas - Somente no último mês, 24 indígenas, incluindo cinco caciques, morreram por conta da contaminação provocada pelo Covid-19 em uma população estimada de cinco mil pessoas localizada no Alto Xingu, em Mato Grosso. Em todo o estado, de acordo com levantamento da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) já são 60 mortes contabilizadas até a última sexta-feira (17), enquanto considerando o território nacional os óbitos de indígenas totalizam 541, dentro de 136 povos atingidos.

"A situação nunca foi favorável, mas agora está mais complicada. Nossos povos precisam de ajuda, coisa que não tem chegado nas bases. Estamos num clima de tristeza e muito vulneráveis, muitos parentes Xavantes e do Altoxingu já morreram, no Cerrado e Vale do Guaporé os casos aumentam e outras etnias começam a ficar tensos com muita gente com sintomas de gripes fortes e necessidade de internação. Tomamos nossos remédios tradicionais e nossa pajelança, mas em alguns casos precisamos dos remédios da farmácia e precisamos recorrer à sociedade para conseguir acesso a eles", comenta Eliane Bakairi, assessora da Federação dos Povos e Organizações Indígenas do Mato Grosso. 

Os pedidos de socorro das comunidades da região reclamam a falta de assistência sanitária diante da incapacidade de resposta dos órgãos indigenistas no momento em que a pandemia ameaça com mais gravidade sobre determinadas etnias, embora todas estejam inseridas no grupo de risco. "O vírus entrou, há muitos doentes e não sabemos o que vai acontecer, porque eles foram contatados há pouco tempo e não tem memória imunológica para lidar com um ataque tão brutal como esse. A disseminação é rastilho de pólvora", afirma uma procuradora federal que acompanha o tema e pediu para não ser identificada.

De acordo com relatos, não há transporte suficiente para os doentes que necessitam ir às unidades médicas e as equipes de saúde indígena trabalham no limite da capacidade. No Alto Xingu, o médico e as quatro profissionais da enfermagem que compõem a equipe de saúde indígena responsável pela área não atendem a demanda crescente. "Na minha comunidade não há atendimento, o povo foi esquecido. Somos cidadãos brasileiros, temos direitos. Cadê a Sesai (Secretaria da Saúde Indígena)?", questiona Tapi Yawalapiti, filho do cacique Aritana Yawalapiti, internado neste domingo, com quadro de insuficiência respiratória.

Por razões dessa natureza  o senador Fabiano Contarato (Rede-ES) denunciou Jair Bolsonaro à  Comissão de Direitos Humanos ONU na semana seguinte ao vetos assinados pelo próprio presidente desobrigando o executivo de prover água potável, higiene e leitos hospitalares a indígenas. A demanda da construção de um hospital de campanha em Barra do Garça, apresentada pela entidades de representação dos povos indígenas em reuniões com autoridades oficiais foi desconsiderada, agravando o quadro de busca por leitos da rede pública. Sesai e Funai não responderam os contatos até o fechamento da reportagem.

Para além dos problemas de infraestrutura e carência de saneamento, costumes da maioria dos povos dificultam medidas de isolamento, uma vez que muitos parentes, forma pela qual os indígenas se referem uns aos outros, moram em ocas coletivas de até 30 pessoas e compartem comidas e bebidas em recipientes comuns. A não realização de funerais e a perda dos mais velhos também causam angústia aos sobreviventes.

"Como eles aprendemos a viver, são lideranças e repositários de culturas milenares. Se o velho morre é a morte da cultura, um pedaço do conhecimento se perde. É muito triste e revoltante o que acontece com nossos povos", termina Tapi Yawalapiti.

Assista abaixo programa do canal Vozes Latinas no Youtube sobre a denúncia dos indígenas em relação ao descaso governamental:

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