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Eduardo Moreira sofre ameaças após denunciar situação de vulnerabilidade do povo de Dourados (MS)

Após o economista relatar ter visto na cidade "coisas que não imaginava que existiriam no nosso país", ameaças coordenadas começaram a ser feitas contra ele, que foi inclusive alvo de uma proposta de moção de repúdio na Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul

Eduardo Moreira (Foto: 247)

247 - Após o economista Eduardo Moreira ser atacado por uma declaração sobre a cidade de Dourados, no Mato Grosso do Sul, o Núcleo de Estudos (Neabi) do Instituto Federal do estado divulgou uma nota em defesa de Moreira.

Os ataques começaram, relata Moreira, após uma entrevista concedida à jornalista Leda Nagle, na qual o economista contou o que viu quando viajou à cidade sul-mato-grossense: "vi coisas que não imaginava que existiriam no nosso país. Eu fiquei uma semana na região, visitando as aldeias que ficam ao redor da cidade. Morei com os irmãos e irmãs, dormi com eles, ouvi suas histórias".

Após a declaração, Moreira conta ter recebido "mais de uma centena de ameaças", inclusive de morte. Além disso, surgiu na Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul uma proposta, do deputado estadual Marçal Filho (PSDB), de moção de repúdio contra o economista.

"Foi criada uma narrativa de que eu fiz uma ofensa ao povo de Dourados. Eu falei que em Dourados eu vi as situações mais críticas que eu já vi na minha vida. Eu falei que na região de Dourado eu vi pessoas passando fome. Eu falei que na região de Dourados eu vi milícias armadas andando ao redor destas aldeias. Eu falei que na região de Dourados eu conversei com várias pessoas, e tenho isso gravado, que sofreram agressões absolutamente inaceitáveis. A gente não pode mais aceitar esse tipo de situação".

"Tais ataques não condizem com a verdade, mostrando apenas amplo desconhecimento a respeito do que realmente foi dito na sua entrevista", diz a nota do Neabi em defesa do economista. "Eduardo Moreira fez uma denúncia sobre a situação de vulnerabilidade das/dos indígenas da cidade de Dourados, um descaso".

O economista Eduardo Moreira se manifestou sobre o assunto. Assista:


Leia a nota na íntegra:

NOTA DE REPÚDIO - NEABI/IFMS/DOURADOS

Nota de Repúdio às ameaças ao Eduardo Moreira e em favor dos indígenas de Dourados e de todo o Brasil

O Neabi do IFMS/Dourados, vem manifestar o seu repúdio em decorrência dos ataques ao Eduardo Moreira, sobre a sua fala distorcida e as Fakes News disseminadas contra ele.

Ocorre que tais ataques não condizem com a verdade, mostrando apenas amplo desconhecimento a respeito do que realmente foi dito na sua entrevista no dia 17 de maio de 2021 com Leda Nagle, uma vez que Eduardo Moreira fez uma denúncia sobre a situação de vulnerabilidade das/dos indígenas da cidade de Dourados, um descaso. Muitos estão divulgando de uma forma distorcida apenas a parte que ele diz "Em Dourados, as pessoa comem restos de comida, moram em lugares que não tem água, sem rede esgoto  sem rede elétrica. Dormem uma hora por noite com medo de serem mortas pela milícias", porém ele não generaliza na entrevista os douradenses de Mato Grosso do Sul e sim apenas os povos indígenas aos quais ele se dirige.

Sobre as/os indígenas da região da Grande Dourados:

O holocausto é exposto na Alemanha e em todo o mundo para que não se repita. No Brasil, escondemos a história da escravidão e a diversidade étnica a fim de perpetuar sistemas de opressão, ou seja, equivocadamente, para não reconhecer nossas ações colonizantes e os mecanismos que o sistema impõe de adaptação das áreas de acampamentos, quilombolas, retomadas indígenas e aldeias.

É imprescindível que nos perguntemos: quais as formas de organização e geração de recursos as/os Terena, Kaiowá, Guarani, e outras etnias do Mato Grosso do Sul, secularmente já desenvolvem?

Por que não conhecer e encontrar meios de valorizar/fortalecer as demandas já existentes dessas etnias?

Como agir para que sejam garantidas a autonomia, autodeterminação e soberania desses que estão no território nomeado pelos brancos como Brasil?

Como garantir a segurança e a soberania alimentar se nosso solo virou comoditie?

Como desenvolverão sua medicina, seus roçados, artesanatos e uma vida integrada às agroflorestas se o lucro está acima da vida? 

Indígenas, há milhares de anos já tinham soberania alimentar, mas foram privados disso com as invasões a partir de 1.500. Por isso, precisam defender sua cultura e modo de vida desde 1.500.

Lutam pelo reconhecimento de seu território e por tudo que a natureza fornece, inclusive com sua agricultura mundialmente reconhecida, em harmonia com a floresta.

Em respeito a autodeterminação que eles possuem, temos que encontrar mecanismos para valorizar as pequenas e pequenos agricultores, pequenas e pequenos agroextrativistas que atuam de maneira sustentável, ou melhor, em equilíbrio com a Mãe Terra.

Ter um modo de vida diferente do hegemonicamente imposto é um direito, conforme garante nossa Constituição e, também, a compreensão do direito à autodeterminação e consulta prévia, livre e informada aos povos tradicionais., garantida na Convenção 169, da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que é lei no Brasil desde 2004 (Decreto Presidencial no. 5051).

Como causa espanto imaginar uma Dourados da forma como ele descreveu. Mas ela existe!!!! No espaço apertado da reserva indígena e nas áreas de acampamento e/ou retomadas.

*agradecemos a participação das discentes na formulação da nota.