Em algum momento teremos que refundar o Estado brasileiro, diz José Dirceu
Ex-ministro defende reformas institucionais e do STF, critica foco em escândalos e aposta em Lula mesmo com disputa acirrada contra Flávio Bolsonaro
247 - Aos 80 anos, duas décadas após ter o mandato cassado pela Câmara no escândalo do mensalão, o ex-ministro José Dirceu (PT) afirma que o Brasil se aproxima de um ponto de inflexão institucional. “Em algum momento teremos que refundar o Estado brasileiro. Mas não vejo hoje maioria no país para fazermos isso”, declarou em entrevista à jornalista Monica Bergamo, na Folha de S.Paulo, na qual também confirmou que pretende disputar as eleições e retornar ao Legislativo.
Na avaliação do petista, o país atravessa um cenário de tensão política e institucional que exigirá reformas amplas — envolvendo Executivo, Legislativo e Judiciário — para preservar a democracia. Ele sustenta que o ambiente atual, marcado por crises e escândalos, não pode impedir o debate sobre temas estruturais.
Dirceu afirma que há uma desconexão entre a agenda política e os problemas centrais do país. Para ele, episódios recentes, como os casos envolvendo o Banco Master e o INSS, deslocaram o foco de pautas que vinham ganhando apoio popular, como a reforma tributária e propostas de taxação de setores específicos. “Os escândalos se sobrepuseram a tudo”, disse.
Apesar disso, ele defende que a disputa eleitoral deve retomar o debate sobre questões estratégicas, como desenvolvimento econômico, soberania nacional e transformação tecnológica. “O Brasil tem problemas muito mais graves para enfrentar e resolver, como a guerra, a desestruturação da Petrobras, a segurança pública, a educação, a ciência e a tecnologia”, afirmou.
Defesa de Lula e crítica à oposição
O ex-ministro demonstrou confiança na reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, mesmo diante do crescimento do adversário Flávio Bolsonaro nas pesquisas. Segundo ele, o histórico de governos do PT é um trunfo eleitoral.
“O PT tem o que apresentar. Deu instabilidade institucional ao país. Deu inflação baixa, crescimento, manteve o Brasil fora de conflitos internacionais, conduziu bem as relações com os EUA”, afirmou.
Dirceu também fez críticas diretas ao possível adversário. Para ele, mesmo em caso de vitória, Flávio Bolsonaro não teria condições de liderar o país em um cenário global complexo. “Lula vai liderar o país”, disse, ao projetar o papel do presidente mesmo em caso de derrota eleitoral.
STF no centro do debate
Um dos pontos centrais da entrevista foi a avaliação sobre o Supremo Tribunal Federal (STF). Dirceu defendeu a importância da corte na proteção da democracia, mas afirmou que há necessidade de mudanças internas.
“Quando uma pesquisa mostra que 70% das pessoas querem que o Supremo mude, a corte tem que fazer uma autorreflexão. Desconhecer a opinião pública é um erro”, declarou.
Ele sugeriu que o próprio tribunal conduza esse processo de reforma. “O ideal é que o Supremo faça uma autorreforma”, afirmou. Entre os temas que poderiam ser debatidos, citou a adoção de um código de ética, limites de mandato para ministros e regras sobre atividades privadas.
Para Dirceu, a ausência de mudanças pode levar o Congresso a impor alterações à corte. “O Supremo não precisa ter medo de debater com o país”, disse, acrescentando que uma reforma conduzida pelo Parlamento “vai ser pior”.
Crise institucional e reformas estruturais
Na análise do ex-ministro, o Brasil caminha para uma crise institucional mais ampla, que exige respostas coordenadas entre os Poderes. Ele defende uma reforma política que inclua mecanismos como fidelidade partidária e melhor distribuição de renda.
Dirceu também criticou práticas do Legislativo e indicou que o modelo atual pode se tornar insustentável. Segundo ele, investigações envolvendo parlamentares e suspeitas de enriquecimento ilícito tendem a ampliar a pressão por mudanças.
Ao tratar do Judiciário, reiterou que críticas ao STF não significam enfraquecimento da instituição, mas sim uma demanda por aperfeiçoamento. “Não é possível mais dizer: ‘Se criticar o Supremo, você vai enfraquecer o Supremo’. O rei está nu”, afirmou.