Em ato extremo de submissão, chanceler veta homenagem de alunos a desafeto dos EUA

 O chanceler Ernesto Araújo, interferiu na formatura dos alunos do Instituto Rio Branco deste ano e vetou uma homenagem que os formandos planejavam fazer ao embaixador aposentado José Maurício Bustani; a razão é a de sempre: Bustani não reza pela cartilha da submissão aos Estados Unidos; o embaixador aposentado é considerado um dos grandes nomes da diplomacia mundial e a homenagem pretendida era um reconhecimento ao período em que ele chefiou a Opaq (Organização para a Proibição de Armas Químicas), uma agência da ONU -entre 1997 e 2002 

Em ato extremo de submissão, chanceler veta homenagem de alunos a desafeto dos EUA
Em ato extremo de submissão, chanceler veta homenagem de alunos a desafeto dos EUA

247 - O chanceler Ernesto Araújo, interferiu na formatura dos alunos do Instituto Rio Branco deste ano e vetou uma homenagem que os formandos planejavam fazer ao embaixador aposentado José Maurício Bustani. A razão é a de sempre: Bustani não reza pela cartilha da submissão aos Estados Unidos. O embaixador aposentado é considerado um dos grandes nomes da diplomacia mundial e a homenagem pretendida era um reconhecimento ao período em que ele chefiou a Opaq (Organização para a Proibição de Armas Químicas), uma agência da ONU -entre 1997 e 2002. 

Eleito para a Opac em 1997, Bustani foi reeleito em 2000, por unanimidade, para o período 2001-2005, em decorrência de seu trabalho considerado brilhante. Mas ele não completou esse segundo mandato, em decorrência de pressões do governo dos Estados Unidos que, em março de 2002, propôs, na reunião do conselho executivo do órgão, uma moção de desconfiança, o que implicaria a remoção do diplomata brasileiro da diretoria-geral da Organização. Por não conseguir os votos necessários, o embaixador americano, John R. Bolton, em total sintonia com o então presidente George W. Bush, chegou ao ponto de ameaçar o embaixador Bustani pessoalmente, para que renunciasse. Não funcionou. Passaram então a defender a realização de uma conferência especial para tratar do assunto. No final de abril de 2002, Bustani - que defendia a adesão do Iraque à Opac a fim de possibilitar as inspeções de armas no país - foi destituído, com 48 votos a favor de sua demissão, sete contra e 43 abstenções. Um ano depois, os Estados Unidos invadiram o Iraque, a pretexto de destruir armas de destruição em massa, que jamais foram encontradas. Agora, Bolton é novamente homem forte no governo dos EUA e aliado preferencial do governo Bolsonaro. 

Os alunos da escola de formação de diplomatas do Itamaraty formalizaram em fevereiro o convite para que Bustani fosse paraninfo da turma. Mas a indicação foi barrada pela cúpula do Itamaraty, segundo relataram diplomatas ao jornalista Ricardo Della Coletta, da Folha de S.Paulo. Bustani confirmou a informação.

Segundo esses diplomatas, que pediram anonimato por temerem represálias na carreira, a seleção de Bustani como paraninfo criaria uma saia justa para Araújo e para o presidente Jair Bolsonaro, uma vez que é tradição que o mandatário compareça à cerimônia de formatura do Rio Branco.

Bustani foi procurado em fevereiro por alunos do Rio Branco, que lhe fizeram o convite para ser paraninfo. A justificativa dada pelos alunos para a escolha, relatou Bustani, foi seu desempenho à frente da Opaq.

O embaixador aposentado disse aos alunos que aceitaria a homenagem, mas pediu que eles primeiro consultassem as "instâncias superiores" do ministério.

"Eu disse para que eles primeiro verificassem dentro da casa [Itamaraty] qual a repercussão, se seria uma coisa viável ou não. Porque eu não queria criar nenhum problema para a turma, não queria que ela ficasse marcada por um confronto ou qualquer coisa do tipo", afirmou Bustani ao jornalista Coletta.

"Algumas semanas depois eu recebi a comunicação de que realmente o meu nome não tinha sido aprovado. Ponto. Não disseram nem onde nem porquê", concluiu.

Antes de 1º de janeiro, John Bolton viajou ao Rio de Janeiro e se encontrou com Bolsonaro, então presidente eleito e, desde então, tornou-se um dos principais elos de ligação entre o bolsonarismo e o governo Trump. Ele é um interlocutor de Araújo, com quem se encontrou quando o chanceler viajou a Washington, em fevereiro, para preparar a visita presidencial aos EUA.

Bolton é um dos representantes da ala mais linha-dura do governo americano. Ele já classificou, por exemplo, os regimes de Venezuela, Nicarágua e Cuba como "troica da tirania" no continente.

Todos os anos, os formandos escolhem um paraninfo, que é um diplomata sênior admirado pela turma, e um patrono, que também vira o nome da turma.

Em 2018, ainda no governo do ex-presidente Michel Temer, os diplomatas escolheram como patrona Marielle Franco, vereadora no Rio de Janeiro e militante dos direitos humanos assassinada em março daquele ano.


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