Em matéria de gafe, Zelotes supera Temer e o Itamaraty

"Esperemos que esta manobra dos próceres da Zelotes em busca de holofotes, e futuras prebendas e sinecuras nas manchetes da mídia que eles acham grandes, não venham a favorecer o recuo da compra dos Gripen, em favor de uma revisão que opte pelos Boeing norte-americanos. Nesta linha de afirmação da subserviência aos Estados Unidos que Temer e os interventores no Itamaraty preconizam, tudo é possível, e piorar é o que há de melhor…", diz Flávio Aguiar, no site Rede Brasil Atual 

"Esperemos que esta manobra dos próceres da Zelotes em busca de holofotes, e futuras prebendas e sinecuras nas manchetes da mídia que eles acham grandes, não venham a favorecer o recuo da compra dos Gripen, em favor de uma revisão que opte pelos Boeing norte-americanos. Nesta linha de afirmação da subserviência aos Estados Unidos que Temer e os interventores no Itamaraty preconizam, tudo é possível, e piorar é o que há de melhor…", diz Flávio Aguiar, no site Rede Brasil Atual 
"Esperemos que esta manobra dos próceres da Zelotes em busca de holofotes, e futuras prebendas e sinecuras nas manchetes da mídia que eles acham grandes, não venham a favorecer o recuo da compra dos Gripen, em favor de uma revisão que opte pelos Boeing norte-americanos. Nesta linha de afirmação da subserviência aos Estados Unidos que Temer e os interventores no Itamaraty preconizam, tudo é possível, e piorar é o que há de melhor…", diz Flávio Aguiar, no site Rede Brasil Atual  (Foto: José Barbacena)

Flávio Aguiar, da Rede Brasil Atual - Na reportagem abaixo reproduzida, que fiz quando fui à Suécia visitar a fábrica da Saab-Scania, que produz o caça Gripen, cuja compra (36 exemplares) o Brasil acertou para renovar a frota da FAB, fica claro que a empresa sueca oferecia vantagens com que as outras duas na concorrência, a Boeing norte-americana e a Dassault francesa não podiam competir. Isso tanto em termos de transferência de tecnologia como em participação no processo produtivo da aeronave. Por momentos a Dassault teve a preferência do então ministro da Defesa, Nelson Jobim, com seus Rafale.

Mas agora os policiais da Operação Zelotes, cuja ação inicial apontava para fraudes de sonegação, resolveram acusar o ex-presidente Lula de favorecimentos ilícitos no exterior para conseguir que o Brasil optasse pelos Gripen. No seu afã de Lawfare contra Lula, envolveram o atual primeiro-ministro sueco, que na época era presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do país, e que entrevistei. Se deixarem esta tigrada “new style” à solta, são capazes de envolver a família real sueca também, não duvidem. Nada os detêm nesta monomania de protagonizarem-se internacional e nacionalmente.

Como se não bastasse o presidente (?) Temer ser o bobo da corte mundial com suas declarações sobre mulher, lar e supermercado, e o Itamaraty estar reduzido a um empório ou aparelho do PSDB, agora a PF adentra cena produzindo gafes que vão envolver até, possivelmente, o ex-presidente Sarkozy, da França, que favorecia os Rafale.

Para variar, o Itamaraty nada tem a dizer sobre o assunto, obrigado que está a olhar apenas para o umbigo do PSDB, que, além de direita, em matéria de diplomacia é anacrônico, tacanho, provinciano e paroquial, confundindo o mundo com Higienópolis onde rege o seu Barão, antigo Príncipe da Sociologia.

Lamentável

Esperemos que esta manobra dos próceres da Zelotes em busca de holofotes, e futuras prebendas e sinecuras nas manchetes da mídia que eles acham grandes, não venham a favorecer o recuo da compra dos Gripen, em favor de uma revisão que opte pelos Boeing norte-americanos. Nesta linha de afirmação da subserviência aos Estados Unidos que Temer e os interventores no Itamaraty preconizam, tudo é possível, e piorar é o que há de melhor…

A chegada do caça sueco e seu impacto tecnológico e no emprego

 

Gripen supera rivais norte-americanos e franceses para desembarcar no Brasil. Acordo prevê parte da produção na região do ABC

 

Quando fui para a Suécia, em abril de 2010, a pedido da revista Inova ABCD, jamais me passou pela cabeça que estaria documentando a abertura de uma nova página na aviação brasileira. Para mim, tratava-se de documentar a existência de um avião militar, o Gripen da Saab-Scania – existência que fora posta em dúvida por uma afirmação do então ministro da Defesa, Nelson Jobim, de que ele nunca sairia do papel. É verdade que uma parte do projeto ainda estava no papel, mas sua realização dependia também da decisão do governo brasileiro sobre a compra de 36 caças para a FAB. Os concorrentes eram o F18-Super Hornet, da Boeing norte-americana, e o Rafale, da Dassault francesa, a preferida de Jobim.

O projeto Gripen não era apenas o de importação de um tipo de avião. A parte mais importante seria a da transferência imediata­ de tecnologia, inclusive mediante a fabricação de parte das peças da fuselagem do avião no Brasil, para o fornecimento em escala mundial – o Gripen já era o preferido em países como a África do Sul, República Tcheca, Hungria, além, é claro, da própria Suécia.

Sei que pensar em aviões militares e transferência de tecnologia nessa área pode não parecer muito bonito. Ainda mais para quem participou de marchas pacifistas desde os tempos da Guerra do Vietnã. Mas sei também que não vivemos num mundo paradisíaco onde o lobo vai beber água tranquilamente ao lado do cordeiro. E o Brasil – esperemos que jamais se torne um país imperialista ou agressivo do ponto de vista militar – tem de se defender e tem o que defender. Além das nossas gigantescas fronteiras, há o “território” do pré-sal, o que significa nosso “território” virtual no futuro, por meio do controle soberano dos investimentos e rendimentos. E – esperemos também que isso se concretize – da reversão destes para educação e saúde.

Desde aquela visita de 2010, muito chão passou debaixo do Gripen. Dizem os especialistas na área que quando a presidenta Dilma Rousseff assumiu, sua preferência iria para o avião da Boeing, na linha de maior aproximação com os Estados Unidos. Dizem os mesmos especialistas que o que congelou e reorientou essa preferência foi o episódio Snowden­/NSA (envolvendo Edward Snowden, ex-técnico da Agência Nacional de Segurança norte-americana, e denúncias de espionagens contra cidadãos brasileiros, inclusive a presidenta). Se tal aconteceu, a reconversão foi rápida como um avião a jato.

Contra o Rafale da Dassault havia um argumento de peso, até para um leigo na matéria. O Brasil já negociava submarinos nucleares com a França (e negociou). E recomendam os sacerdotes, bispos e cardeais da área que no caso de um país como o Brasil, que não é autônomo em matéria de tecnologia militar, deve-se diversificar o universo dos fornecedores. De modo que também dessa perspectiva o voo do Gripen se encaixava.

Definida a escolha pelo Gripen, levantaram-se alguns argumentos contrários, sem muita base lógica nem real. Como o de que a escolha brasileira se dera por “razões ideológicas”, contra os Estados Unidos, preferindo a opção vinda de um país “socialista”, a Suécia. É argumento coirmão daquele que acusa a diplomacia dos governos Lula e Dilma de ser “ideológica”, em contraposição à tradição “técnica e pragmática” de nossas diplomacias anteriores. A tese fura em dois aspectos: em primeiro lugar, a Suécia está longe de ser “socialista”. Em segundo, não há razão para criar um laço de dependência tão estreito com a águia norte-americana.

Um argumento colateral a esse é o de que haveria uma diferença aviltante nos preços, que o Brasil, “por razões ideológicas”, estaria pagando mais caro pelo Gripen do que pagaria pelo F-18 Hornet. O Brasil vai gastar US$ 4,5 bilhões, quando o preço unitário do Hornet é de US$ 55 milhões. Ou seja, o gasto total seria de US$ 1,98 bilhão, menos da metade.

Esse argumento também não se sustenta. O custo unitário de um Hornet, hoje, é de US$ 66,9 milhões. Em 2009, já era US$ 57 milhões. Em segundo lugar este é o custo chamado de fly away. Ou seja, é o preço para tirar o avião do hangar e pô-lo na pista pronto para decolar. Se a este custo acrescermos a munição, mísseis, metralhadoras etc., o custo já sobe para US$ 80,4 milhões. E ainda não falamos de combustível, manutenção, contratos colaterais etc. Ou seja, é um argumento baseado ou na ignorância, ou na má-fé.

Já pela esquerda, apareceu a crítica de que o Brasil­ deveria ter escolhido um modelo russo ou chinês. Citava-se inclusive a Venezuela como exemplo, uma vez que este país tem vultosos contratos de cooperação militar com a Rússia. Só que as perspectivas brasileiras são bem outras. Dita o bom senso que não nos tornemos dependentes dos Estados Unidos. Mas também dita o bom senso que o Brasil não crie um clima de guerra com o vizinho. Já basta a China ser nosso principal parceiro comercial.

Uma queixa colateral a essa é o de que o Gripen nos tornaria tão dependentes dos Estados Unidos quanto do Super Hornet, pois aquele usa peças de fabricação norte-americana. Bom, os especialistas consultados na fábrica sueca garantiram que os três modelos, o Hornet, o Rafale e o Gripen, são verdadeiros híbridos, usando peças de várias procedências tecnológicas, ainda que de fabricação própria, o mesmo ocorrendo com os protótipos da Rússia e da China.

Mas há ainda as ponderações de “centro”, daqueles que se querem “imparciais”. Por que não aplicar as verbas gastas nos Gripen em saúde e educação? É um argumento parecido com os que se manipula para dizer que o dinheiro “gasto” nos estádios para a Copa do Mundo deveria ser revertido para saúde e educação. Quem assim raciocina demonstra ­ignorar conceitos de elaboração e de natureza de um orçamento público.

E dribla a verdadeira questão, para gáudio dos capitais rentistas: o que vai garantir mais verbas para educação e saúde é cortar os juros da dívida pública, cortar no superávit primário, domar a especulação financeira, combater a sonegação, introduzir melhores medidas para tornar o nosso sistema de impostos mais progressivo do que regressivo.

Além disso, existem repercussões imediatas da fabricação de peças do Gripen no Brasil na criação de empregos diretos e indiretos, pela cadeia produtiva que isso implica. Esse legado – palavra que está na crista da onda – vem do compromisso da Saab-Scania de investir em instalações em São Bernardo do Campo. O projeto é implementar no ABC um polo de incubação tecnológica, nos moldes do que existe em Linköping, cidade sueca onde está o Centro de Pesquisa Tecnológica da companhia. Autônomo, mas anexo à empresa.

A Saab-Scania, em cooperação com as áreas governamentais da educação e da pesquisa, também financia outros projetos independentes, inclusive para estudantes em formação. Conversei com um jovem brasileiro que, na época, desenvolvia algo na área de pesquisa de mercado na internet, visando a otimizar a possibilidade de maior informação e poder de decisão de quem usa esse tipo de ferramenta. Seu projeto envolvia a abertura para que internautas pudessem “passear” e “ir às compras” coletivamente.

Embarquemos no Gripen, portanto. E não é demais repetir: torcendo para que jamais tenha de ser usado pra valer.

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