"Eu ia matar o Pimenta Neves"

Joo Gomide, pai da vtima, vinha treinando tiro para vingar a morte da filha

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Claudio Julio Tognolli

Hoje entrevado numa cadeira de rodas, em decorrência de uma fratura femural sofrida há 40 dias, João Gomide, pai da vítima de Pimenta Neves, desenvolveu um exercício mental, e as vezes nem tanto, para debelar sua dor: planejava matar Pimenta Neves a tiros. Óbvio que isso pode parecer inatural, ou até perverso, para um homem como João --entre cujas sub-rotinas consta ser um homem de paz. Mas foi isso que João confessou a este repórter, numa conversa travada por telefone.

Sua voz ao aparelho era plácida. Mas toda a vez que os vocábulos “Pimenta” e “Neves” são conjurados no palavreado do repórter, esse senhor de seus 72 anos, que já conheceu dias melhores, assume uma voz rascante, em total desacordo com o estado anterior. Afinal, João Gomide, pai de Sandra Gomide, confessa que pode ter se tornado um homem de gatilho fácil. “Não vou esconder de você, meu caro, nem de ninguém: eu tenho vontade de matar esse canalha do Pimenta Neves, todos os dias me vem essa vontade. Tenho treinado tiro para isso, sim, eu tenho treinado. Mas eu não encontro o Pimenta Neves. Aviso a ele que meus dedos estão bons assim como a minha mira. Eu quero muito fazer ele virar bicho”.

João vinha caminhando, antes da queda do fêmur, num andador.

Imperturbável, apesar de tudo, João Gomide só não levou essa urdidura a bala a frente porque, confessa, “o Pimenta Neves é um canalha medroso, que nem sai mais na porta de sua casa. Não matei ele ainda porque não encontrei. É um verme”. Todas essas vendetas de um pai ferido surgem como as de uma cigarra estonteada pelos presságios da chuva: porque falar em Pimenta Neves, em julgamentos intermináveis, em memórias corrosivas, tiram o senhor João Gomide do seu centro cinético. Sua voz, ora grave, volta a ser plácida. Talvez ele não esteja falando sério. Talvez sim. Quem sabe? Não há juízo de valor a ser feito, sobre o que quer que ele fale, quando João Gomide relata o que óxido da rotina, depois de ter tido sua filha assassinada, fez com sua vida.

João Gomide teve de botar em penhora sua casa. Há quatro anos sua esposa, Leonilda Florentina, ora com 74, chegou ao clímax de um transtorno bipolar (brotado pouco depois de Pimenta Neves ter matado a filha Sandra). Dona Leonilda ficou 15 dias internada numa UTI. Ligada a dez aparelhos. Seu João, que vive daquele ceitil minguado de todos os aposentados, foi ao banco tomar empréstimos seriados. Teve de vender sua oficina de escapamentos, após a morte de Sandra. Afinal, mesmo o local mais barato encontrado para tratá-la, a casa Bezerra de Menezes, em São Bernardo do Campo, terra do presidente Lula, cobra-lhe RS$ 200,00 por dia de internação.

A voz de João Gomide assume uma ressonância espectral quando começou a relatar os problemas de saúde surgidos após a morte de Sandra. Ele teve problemas de coração, teve de botar próteses na coluna, no quadril, a diabetes lhe deparou um risco de amputação. Nesse momento da conversa, ocorre a reiteração dramática, impassível, totalitária, da figura de Pimenta Neves. João Gomide conecta aos relatos de sua saúde extratos filosóficos que ele teceu, anos a fio, sobre o que é Pimenta Neves para ele. “O verme aí é pior que um assassino analfabeto. Ele é duas vezes assassino. Um cara que tem cultura e faz isso, que é diretor de jornal e faz isso, é pior, muito pior, que o cara que não tem cultura nenhuma e te dá uma facada”.

Uma lucidez perversa faz João Gomide trazer à memória extratos do que era Pimenta Neves: o jornalista, pouco antes de matar Sandra, pedira à mãe dela que rezasse por sua filha, que morava nos EUA e estava com câncer. “Ela foi lá e rezou. Ele havia dito “fala para a sua esposa, a dona Leonilda, para ela rezar para a minha filha que mora nos Estados Unidos, chamada Andréia, porque ela está com câncer”. Veja o que ele fez depois”.

João Gomide vai trinchando a conversa com esses lampejos poderosos. “Olha, um mês e meio antes de assassinar a minha filha, ele fez o seguinte: abriu a porta do apartamento dela, usando chave falsa, e bateu nela. Ela morava sozinha na França Pinto, na Vila Mariana”

Uma revelação inédita do caso está gravada em vídeo. Consta de um trabalho de conclusão de curso de jornalismo, defendido nas faculdades Fiam, de São Paulo, pela hoje jornalista Patrícia Stiefelman. O trabalho se chama “Instáveis”. Relata como pessoas aparentemente dentro dos eixos e equilibradas podem cometer, de uma hora para outra, as piores barbaridades. O vídeo traz um depoimento contundente do publicitário Enio Mainardi, em que conta como, e em que circunstâncias, escondeu Pimenta Neves em seu apartamento, na zona sul de São Paulo, logo depois de ele ter metido os balaços em Sandra Gomide.

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