Ex-coronel da PM: "Querem vender imagem de cidade segura"

Em entrevista ao Bahia247, especialista em segurana pblica Antonio Jorge Melo fala da omisso do Estado e alerta o cidado de que ele , sim, o patro: "os polticos so nossos empregados"

Ex-coronel da PM: "Querem vender imagem de cidade segura"
Ex-coronel da PM: "Querem vender imagem de cidade segura" (Foto: Bahia 247)
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Por Camila Vieira_Bahia 247 - A banalização da violência e a vida humana tratada como descartável nortearam o bate-papo com o especialista em segurança pública, Antonio Jorge Melo, ex-coronel da Polícia Militar baiana. Aposentado desde 2006, Melo entende o dia-a-dia da polícia, mas não acredita que o Estado deve se prevalecer desse aparato para promover a segurança para a sociedade: é preciso investir em educação, cidadania e saúde.

Para ele, a implantação de bases comunitárias em Salvador, nos moldes do Rio de Janeiro, muda a rotina da comunidade, levando muito benefícios, como a redução da criminalidade. Porém, critica ele, essas bases são instaladas sobretudo em regiões centrais da capital, por onde os turistas costumam circular. "Se bem que agora vão instalar no Subúrbio Ferroviário, mas nada disso se sustenta sem que haja prestação de serviços essenciais", pondera.

Violências sem remédio

"Não devemos falar de violência, devemos falar de violências. Temos vários tipos, desde aquela das relações interpessoais até a estatal, a simbólica, a da desobediência civil – uma forma de violência justa – e, claro, a da criminalidade. A gente costuma distinguir assim: a violência cotidiana e a do crime organizado". Com a primeira, diz, o aparato do Estado muito pouco pode fazer porque normalmente ocorre entre quatro paredes e sempre aconteceu. Hoje, só há maior visibilidade.

Caim matou Abel

Se crimes acontecem no paraíso, imagine na Terra? "O crime é inerente à convivência humana". Segundo ele, com fiscalização, presença do Estado – não apenas com a presença da polícia – é possível conter essa espécie de instinto. "Agora, por que quando se quer fazer qualquer intervenção humanística, se coloca polícia? Porque é mais visível e mais barato".

Religião cumpre algum papel?

Mas, será que a religião melhora alguma coisa diante de tanta violência? "A religião está em crise, né? Padre pedófilo, pastor corrupto... É claro que você não precisa deixar de ter sua religiosidade. A questão hoje é: como você está lidando com a sua espiritualidade".

Lei pra tudo

O especialista em segurança relaciona a própria natureza humana à violência e assinala que a necessidade de legislação tem a ver com isso. Se nós somos uma sociedade que precisa de uma lei para proteger as crianças, uma lei para proteger as mulheres, uma lei para proteger os afrodescendentes... que tipo de sociedade é essa? Nós somos uma sociedade violenta".

Predadores da própria espécie

"Somos animais, mas a nossa racionalidade nos dá determinadas possibilidades que os outros animais não têm. Então, nós nos tornamos perversos. Porque o animal não é perverso, ele age por instinto, ele mata pra sobreviver, pra se alimentar, para garantir a perpetuação da espécie... nós, não; nós matamos por bens, matamos porque achamos que a pessoa não gostou da gente, porque alguém nos deu uma fechada no trânsito. Essa racionalidade do ser humano nos transforma, talvez, o animal mais perigoso que existem na face da Terra".

Autoridades sem poder

Na avaliação do especialista, as autoridades paternas, religiosas, estatais... estão fracassadas. "Hoje você está vendo coisas que normalmente poderiam ser resolvidas com o diálogo, sendo resolvidas da maneira mais rápida: por meio da violência (física, verbal ou qualquer uma das formas de violência)".

Carências unidas

"Quando você junta a falência das autoridades, facilidades no manuseio, aquisição e distribuição de armamento, uma sociedade cada vez mais consumista – que valoriza mais o ter em lugar do ser –, potencializada pelo mercado publicitário, é obvio que a violência vai se expandir e se apresentar de uma forma mais concreta que você há uns 30, 40 anos atrás não poderia conceber"

Drogas e violência (sob medida)

"O professor Gey Espinheira costumava dizer que não existe sociedade sem drogas e que cada sociedade escolhe a sua droga. Aos muçulmanos o álcool é ilegal e o haxixe é lícito. Pra nós o haxixe ou maconha é ilícito e o álcool é lícito. Mas as drogas contêm um condão de inibir o superego o que ela faz: que nós nos mostremos da maneira que realmente somos. O que as armas fazem: potencializam nossa capacidade de matar, nos transforma em outras pessoas. Quando você atrela o mercado de drogas ao mercado de armas os efeitos são sempre nefastos e é o que estamos vivenciando agora".

Bom exemplo?

Ele cita os Estados Unidos e Europa como exemplos de lugares onde o índice de homicídios tem diminuindo sem que haja decréscimo no uso de drogas. "Eles já passaram dessa fase de estar atrelado às drogas com o tráfico de armas ou desenvolveram mecanismos de evitar que essas duas vertentes se encontrem. O que estamos vivenciando no Brasil: talvez a fase anterior ao que esses países ou continente viveram".

Legalize já (ou não tão rápido assim)

Que o mundo inteiro tem problemas de drogas ninguém duvida. Conforme citado anteriormente pelo nosso entrevistado, depende de cada sociedade aceitar, disponibilizar e saber lidar com o assunto. No Brasil, por enquanto, estamos perdidos. Seria melhor legalizar (pelo menos a maconha)? "Olha, é uma grande pergunta. Eu não estou convencido ainda de que o caminho seja esse, mas uma coisa eu tenho certeza: se fizermos uma campanha anterior de sensibilização, (isso pode funcionar) como fizemos com o cigarro... repare os jovens: a grande maioria não fuma, mas bebe".

Dinheiro compra tudo?

"Eu tenho um amigo que trabalha com recuperação de dependentes químicos e eles me conta que as pessoas, às vezes, chegam lá no consultório dele e dizem: 'meu filho está com um probleminha aí e eu quero que você me ajude a resolver. Dinheiro não é problema'. A primeira coisa que ele diz é: 'Vamos com calma. Estou percebendo que no caso do senhor dinheiro, talvez, seja o problema'". Para o professor, aparentemente as pessoas têm tudo, mas falta-lhes o essencial: amor, respeito, educação.

Estado omisso

Melo pontua que a política pública de segurança é recente e o que tínhamos era uma política voltada para a polícia agir. Mas, para se inserir numa agenda política, é preciso mobilização popular "porque o Estado é – de nascença – cego e surdo. Ele se faz. Então ele precisa de volume pra enxergar e barulho pra ouvir. Enquanto isso, ele finge que nada está acontecendo".

Insegurança subjetiva

Estatisticamente, Recife tem o maior índice de violência que o Rio de Janeiro, mas na cidade maravilhosa é mais visível, exemplifica. "Uma coisa é você estar seguro a outra coisa é você acreditar que está seguro (...) Nós estamos tão acostumados a ver um policial na rua portando um fuzil que isso nos causa até uma sensação de segurança. Mas se vier aqui uma pessoa que mora em outro país, outra sociedade, que não esteja acostumado a ver isso, vai se preocupar em ver uma blitz ou policiais portando armas, vai se assustar. Nós não nos chocamos mais".

Salvador, cidade do perigo

O professor vê um crescimento da violência nos últimos anos, mas um aumento da transparência."Nos últimos dez anos, a violência vem crescendo, sem sombras de dúvidas. São índices preocupantes. Mas nós estamos tendo mais transparência, porque antes mascaravam os índices".

Mapa

"Você tem um bairro que você tem um maior tipo de violência. Se você observa aqui Stiep, Pituba e Brotas têm maior número em roubo de carros. Em homicídios, você tem aquela região de Itapuã e Avenida Suburbana. Tráfico de drogas, eu acho que o campeão é o Pelourinho. Lá é uma grande zona; se você quer que um Patrimônio Histórico se sustente sem a presença das pessoas, sem vida social?

'Queremos nos mostrar seguros'

Com a proximidade da Copa de 2014, segurança pública é uma dos temas que ganha destaque. Contudo, a tentativa de solucionar a longo prazo a violência no estado – bem como em todo o País – tem sido deixada de lado, em detrimento da aparência, opina Melo. "Vou pegar o entorno dos lugares que eu sei que serão frequentados pelas pessoas na Copa do Mundo e vou tornar seguro. Não é à toa que estamos aqui, como no Rio de Janeiro, instalando bases comunitárias".

Papel do cidadão

O cidadão precisa entender que é o patrão. "Eles são nossos empregados e não nos fazem favores quando estão asfaltando nossa rua, recuperando calçamento ou colocando iluminação pública. Isso é obrigação deles. Se mais pessoas se juntam para falar, maior é a possibilidade de ser atendido. É como diz Hannah Arendt diz: 'política é fala'; se nós não entendermos que política pública interessa a todos nós, não adianta".

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