Exclusivo: O golpe do teatro em São Paulo

Internautas denunciam encenao de vendedores do Clube do Teatro Brasil, revista que d desconto em centenas de atraes culturais em SP; paulistanos como Gustavo Correia (dir.) foram induzidos a assinar formulrio que na verdade contrato; Procon revela ao 247 "gigantesca investigao"

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Exclusivo: O golpe do teatro em São Paulo (Foto: Felipe L. Gonçalves/Edição/247)


Diego Iraheta _247 - Primeiro ato: você caminha apressado pela Avenida Paulista ou próximo às universidades de São Paulo. Nessas áreas movimentadas, uma personagem-chave já chega cercando. É um representante do Clube do Teatro Brasil com script pronto... O clube é um lindo projeto de inclusão cultural. Se você virar sócio, terá direito a ir ao teatro por um preço bem em conta – ou até de graça! Para isso, basta preencher um “formulário” com seus dados. E, claro, pagar uma taxa simbólica para ter a carteirinha de associado.

Em troca de R$ 39,90, o agente lhe entrega a revista que contém os cupons de desconto. E você ainda receberá em casa, de brinde, duas edições nos meses seguintes. “Se chegar algum boleto, basta ignorar. É só não pagar que você deixa de ser sócio”, aconselha o representante do Clube do Teatro Brasil (CTB).

Segundo ato: as duas revistas gratuitas não chegam. Mas chega o tal boleto que, o vendedor instruiu, pode ser descartado. Dois meses depois, um novo boleto. E vêm outros. Você tenta cancelar o serviço, mas descobre que não pode. Por telefone, os atendentes do clube informam que o contrato assinado por você (!!!) determina que, para deixar de ser sócio, você deve pagar todas as parcelas em atraso (???).

Ato final: Seis meses após o contato com o despretensioso vendedor na rua, você recebe uma notificação. Seu nome está sujo porque tem uma dívida de R$ 300 com o CTB.

A encenação que narramos acima é um conflito para centenas de paulistas que se dizem vítimas de um golpe. O Procon-SP recebeu 134 denúncias contra o Clube do Teatro Brasil de 2006 a 2010. A empresa, fundada em 2002, figura há mais de cinco anos no ranking de companhias privadas com maior índice de reclamações no Procon. As mais recorrentes são: cobrança indevida, venda enganosa e problema no contrato.

Na internet, ex-sócios do clube acusam os vendedores de “estelionatários”, “picaretas” e “bandidos”. A empresa é recordista de queixas no site Reclame Aqui. Sua nota é 1,19, de um máximo de 10. São 240 reclamações – 152 sem qualquer resposta. Só neste ano, foram mais de cem problemas relatados por internautas.

Contrato em cena

“Quando o vendedor me abordou, não houve informação de que eu estava assinando um contrato”, explica o empresário Gustavo Felipe Correia. Em setembro de 2010, ele preencheu os dados pessoais no que seria apenas um cadastro em uma tenda do Clube do Teatro Brasil, montada na saída do Mackenzie, no centro de São Paulo. “O agente não me falou sobre a obrigação de pagar mensalidades e me garantiu que seriam dois meses de revista grátis, além da primeira que eu paguei”. Hoje, mais de um ano depois, ele tem uma dívida de R$ 306 e pode entrar no SPC.

Há quatro meses, Renata Barrega tenta resolver problema semelhante. "A pessoa que vendeu não informou que eu teria de ligar pra cancelar. Isso é uma falta de respeito". O contrato, que foi possivelmente assinado por Gustavo e Renata, de fato existe. Mas em nada lembra um documento oficial sacramentado por empresa e cliente. É simplesmente uma página da revista entregue pelo vendedor ao novo sócio. “Está bem claro que é um contrato”, rebate o diretor de programação do Clube do Teatro Brasil, Marcelo Cabral, em entrevista ao Brasil 247.

Boleto entra no palco

O publicitário Gabriel Barletta também preencheu a “ficha” apresentada por um representante do Clube do Teatro Brasil perto da estação Consolação. No entanto, ele disse que não pagaria pelo serviço e, por isso, não recebeu revista do vendedor. “Ele não me deu nada. Não recebi revista nem carteirinha em casa. Só recebo boleto”, conta.

Gabriel não teve acesso à revista e, portanto, ao contrato do serviço. O publicitário não pagou nada, nem o que seria a taxa de adesão. Ele não deveria ter qualquer vínculo com a empresa.

Porém, de acordo com os boletos que atormentam sua rotina (fotos acima), Gabriel é assinante da revista e devedor do CTB. “Foi safadeza do vendedor e, agora, esse clube faz cobrança abusiva”, acusa.

Procon: "Está em curso uma gigantesca investigação"

Em 2008, o Procon multou o Clube do Teatro Brasil por mau atendimento ao consumidor. De lá para cá, no entanto, os percalços dos associados continuam - como um rápido Google comprova. Como a empresa é reincidente em denúncias de cobrança indevida e venda enganosa, o órgão de defesa do consumidor pode obrigar o clube a suspender suas atividades. "É uma medida para estancar a sangria da empresa; se ela continua com alto índice de reclamações, significa que não se adequou", avalia o diretor de Fiscalização do Procon-SP, Renan Ferraciolli.

O Procon orienta as pessoas que se sentirem lesadas pelos vendedores do clube a relatar o problema à empresa e, se nada for resolvido, recorrer ao órgão. Segundo o diretor de Fiscalização, está em curso uma "gigantesca investigação" sobre o modus-operandi da empresa e dos agentes autônomos. "O Procon não está parado", adverte Ferraciolli.

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