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Extrema-direita disputa espólio do bolsonarismo, diz Mayra Goulart

Cientista política afirma que embate entre Flávio e Michelle Bolsonaro mira controle do PL, da base parlamentar e da liderança da extrema-direita

Extrema-direita disputa espólio do bolsonarismo, diz Mayra Goulart
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247 - A crise pública entre Flávio Bolsonaro e Michelle Bolsonaro expõe uma disputa pelo comando do espólio político deixado por Jair Bolsonaro dentro da extrema-direita, avaliou a cientista política Mayra Goulart no Giro das Onze desta segunda-feira (29), transmitido pelo Brasil 247 no YouTube.

No programa, Mayra afirmou que o embate não deve ser lido apenas como uma antecipação da corrida presidencial de 2026. Segundo ela, o conflito envolve o controle da máquina partidária do PL, a montagem de palanques estaduais, a eleição de parlamentares e a definição de quem será reconhecido como liderança nacional do campo bolsonarista.

“Não é uma disputa para ser candidato em 2026. É uma disputa para controlar o espólio do PL, que é um espólio que Jair Bolsonaro veio a conquistar, ainda que não tenha sido todo organizado por ele, porque o Valdemar tem uma parcela considerável desse esforço de organizar o PL como o segundo maior partido do país”, afirmou Mayra.

Para a cientista política, a pergunta central é quem terá capacidade de organizar a estrutura da extrema-direita nos próximos anos. “Quem é que vai controlar essa máquina, quem é que vai eleger parlamentar? Quem é que vai eleger governador, deputado estadual, deputado federal, da sua base, da sua confiança. Vai ser Flávio ou vai ser Michele? Quem vai ser a liderança da extrema direita? Eu acho que é um pouco sobre isso e não sobre quem vai disputar com o presidente Lula”, disse.

Mayra avaliou que Michelle Bolsonaro tenta se apresentar como uma liderança capaz de construir base própria. Segundo ela, a ex-primeira-dama sinaliza entender que a política não se resume à disputa presidencial, mas também à formação de apoios, alianças e estruturas de poder. “Política de alicerces que você precisa construir para ser um player nacional”, afirmou.

Na leitura da cientista política, Michelle ameaça a centralidade dos filhos de Jair Bolsonaro porque possui atributos próprios para dialogar com segmentos específicos da direita, especialmente o eleitorado evangélico. “Ninguém vota no Flávio Bolsonaro, ninguém vota no Eduardo Bolsonaro, votam no Jair, ele é o Jair da vez”, disse. “Mas a Michelle ameaça isso, porque ela se apresenta como alguém capaz de construir vínculos próprios com um eleitorado particular em vista do que ela tem de diferente da família. Ela é evangélica, a família não.”

Mayra também destacou que a disputa ocorre em um momento de indefinição sobre a capacidade de Flávio Bolsonaro consolidar apoios entre elites políticas, partidos e lideranças religiosas. Para ela, o movimento decisivo neste momento não está apenas no eleitorado, mas na adesão ou no afastamento de forças organizadas que poderiam sustentar uma candidatura competitiva.

“Para mim, o que está acontecendo, o movimento determinante agora é o solta a mão ou o não da mão”, afirmou. A cientista política citou como exemplo a ausência de apoio explícito de setores relevantes do campo evangélico e de partidos de direita, indicando que silêncios também têm peso na disputa pelo comando da extrema-direita.

Segundo Mayra, uma campanha presidencial depende de palanques, alianças regionais e capacidade de articulação com lideranças locais. Sem esse arranjo, avaliou, a candidatura de Flávio tende a enfrentar obstáculos para se firmar como opção unificada do bolsonarismo.

A cientista política disse ainda que a disputa entre Flávio e Michelle revela uma briga mais ampla pelo futuro da extrema-direita no Brasil. Em sua avaliação, o grupo busca definir quem herdará a autoridade simbólica de Jair Bolsonaro e quem terá força para organizar candidaturas, arrecadação, estrutura partidária e presença territorial.

Mayra também avaliou que a extrema-direita não deve ser subestimada, mesmo diante de crises internas. Para ela, o campo bolsonarista segue com capacidade de reorganização e atuação eleitoral, sobretudo na reta final das campanhas. “É uma eleição que não está ganha, porque a extrema direita ela é sorrateira e ela sabe fazer campanha de reta final”, afirmou.

Na avaliação da comentarista, a fragmentação pública do bolsonarismo pode gerar desgaste, mas não elimina sua competitividade. Ela observou que parte do eleitorado da direita pode rejeitar nomes específicos, mas tende a se reagrupar em torno do candidato que se apresentar como principal adversário de Lula.

Mayra também afirmou que o mercado e setores antipetistas tendem a apoiar qualquer candidatura capaz de enfrentar o presidente, ainda que hoje busquem alternativas para além da polarização. “Eu acredito que o mercado e todas essas pessoas que são antipetistas vão votar em quem quer que seja. Flávio, Michele, o demônio, qualquer coisa vai votar para não votar no Lula, vai votar em qualquer um”, disse.

Para ela, a ideia de uma alternativa de centro competitiva em 2026 continua frágil. A disputa real, avaliou, tende a permanecer polarizada, enquanto parte das elites políticas e econômicas calcula cenários para 2030. Nesse contexto, o embate entre Flávio e Michelle ganha relevância porque pode definir quem comandará a extrema-direita depois da saída de Jair Bolsonaro do centro da cena eleitoral.

A cientista política também observou que Michelle Bolsonaro pode ocupar um espaço próprio por não ser percebida da mesma forma que os filhos do ex-presidente. Enquanto Flávio e Eduardo dependeriam diretamente do capital político do pai, Michelle poderia tentar construir uma identificação particular com setores religiosos e conservadores.

O conflito, segundo Mayra, envolve poder político concreto: influência sobre o PL, controle da base no Congresso, montagem de chapas estaduais e disputa por legitimidade entre lideranças conservadoras. A presidência da República, nesse quadro, é apenas uma das dimensões de uma batalha maior.

Ao final de sua análise, Mayra indicou que a crise interna do bolsonarismo precisa ser acompanhada pelo impacto que produzirá entre lideranças religiosas, partidos aliados e bases regionais. Para ela, será esse movimento de adesões, recusas e silêncios que mostrará se Flávio Bolsonaro conseguirá consolidar sua posição ou se Michelle Bolsonaro ampliará sua influência no campo da extrema-direita.