Falta de vacinas é culpa do governo, avaliam especialistas em saúde pública

Diante da escassez de vacinas contra a Covid-19, a Anvisa tem aliviado regras para a liberação de imunizantes. A Sputnik Brasil ouviu a opinião de especialistas em saúde pública e coletiva, que avaliaram a atuação da autarquia durante a crise sanitária e apontaram o governo federal como o responsável pelos problemas na vacinação

(Foto: REUTERS/Dado Ruvic)
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Sputnik - Um mês depois da aprovação pela Anvisa (Agência Nacional de Saúde) de duas vacinas em caráter emergencial, a Coronavac - parceria entre a chinesa Sinovac e o Instituto Butantan - e a Covishield - parceria da Oxford/AstraZeneca com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), estas continuam sendo as únicas vacinas aprovadas pela agência, enquanto doses dos imunizantes estão em falta no país.

Apesar de que o pedido de uso emergencial foi feito apenas para as duas vacinas, outros laboratórios têm imunizantes sob análise no órgão sanitário brasileiro, conforme dados do governo. É o caso da vacina da Pfizer/BioNtech e também da Janssen, ambas com testes clínicos de fase três realizados no Brasil. No caso das vacinas Covaxin, da farmacêutica Bharat Biotech, da Índia, e da Sputnik V, do Centro Nacional de Pesquisa de Epidemiologia e Microbiologia Gamaleya, da Rússia, a expectativa é de que o processo de certificação das fábricas tenha início em março, um dos passos necessários para a aprovação dos imunizantes. Ambas as vacinas já são utilizadas em outros países.

A Anvisa, uma das autarquias mais respeitadas do Brasil, passou por momentos conturbados durante os meses de especulações políticas em torno da disputa entre o governo federal e o governo paulista pela aprovação de vacinas. Com a vitória política do governador de São Paulo, João Doria (PSDB), com a aprovação e aplicação na mesma data da CoronaVac, parte da desconfiança sobre o órgão foi dissipada, mas permanece a pressão para acelerar a aprovação de mais vacinas.

Nesse sentido, a Anvisa tem tomado medidas. Há duas semanas, o órgão dispensou a exigência de testes clínicos de fase três realizados no Brasil para aprovar novos imunizantes para uso emergencial. Além disso, a agência também consentiu em aprovar o uso emergencial das vacinas do consórcio COVAX Facility compradas pelo Ministério da Saúde. A iniciativa é da Organização Mundial da Saúde (OMS) e busca ampliar a distribuição de imunizantes pelo planeta.

A Sputnik Brasil consultou alguns profissionais de saúde especialistas em saúde pública e coletiva sobre a atuação da Anvisa e a necessidade de aprovação de mais vacinas.

“O problema está no governo brasileiro”

Apesar da capacidade instalada com dezenas de milhares de postos de vacinação e da experiência com amplas campanhas de vacinação no Brasil, a imunização anda a passos lentos e chegou a pouco mais de 2,6% da população, cerca de 5,5 milhões de brasileiros. Mesmo figurando entre os países com mais doses aplicadas de vacinas no mundo, o ritmo é considerado abaixo do necessário.

Os profissionais da saúde do Hospital das Clinicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) recebem primeira dose da vacina Coronavac, produzida pelo Instituto Butantan em parceria com o laboratório chinês Sinovac, para o combate à Covid-19

Segundo especialistas ouvidos pela Sputnik Brasil, o principal problema da campanha de vacinação brasileira não seria a demora na aprovação pela Anvisa, mas a falta de organização do governo federal e a lentidão do Ministério da Saúde para negociar a compra de vacinas, hoje necessárias para acelerar o processo de imunização. Essa é a opinião, por exemplo, de Gulnar Azevedo e Silva, professora do Instituto de Medicina Social da UERJ e presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO).

"O problema está no governo brasileiro negociar com as outras fabricantes. Só agora o governo brasileiro fechou o contrato do restante das doses do Butantan [...]. A Anvisa faz o papel dela e cada um tem que fazer o seu papel, todos os esforços, hoje, são necessários", afirma a presidente da ABRASCO em entrevista à Sputnik Brasil.

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