Fernando Brito: o laço do ‘The Intercept’

O jornalista Fernando Brito constata que "Moro vai perdendo a escolta"; "É um laço, uma rede, lançada em torno do alvo central, que vai se fechar lentamente, como em toda investigação que se preze, confirmando hoje a veracidade do que se revelou ontem"

Brazil's Justice Minister Sergio Moro attends a session of the Public Security commission at the National Congress in Brasilia, Brazil May 8, 2019. REUTERS/Adriano Machado
Brazil's Justice Minister Sergio Moro attends a session of the Public Security commission at the National Congress in Brasilia, Brazil May 8, 2019. REUTERS/Adriano Machado (Foto: Foto: Reuters/ADRIANO MACHADO)

Por Fernando Brito, no Tijolaço - A impressão que fica, após a leitura das profusas mensagens de procuradores da Lava Jato e de diversas outras áreas do Ministério Público, revelada esta madrugada pelo The Intercept revela que os promotores tratavam a ida de Sérgio Moro para o  Ministério da Justiça de Jair Bolsonaro como algo que representava uma “traição” – por motivos de ambição e vaidade – de  seu chefe, que colocaria em perigo o sentimento de unanimidade ou apoio generalizado, o grande pilar da operação e arma dos apetites da categoria.

Se eu pudesse acrescentar uma fala que resumisse tudo o que se lê nas muitas conversas reveladas, esta seria: “ele não pode fazer isso com a gente”.

A rigor, fica o sentimento de todos eles de que a Lava Jato era uma construção frágil, cheia de truques e ilegalidades, que a atitude de Moro, ao aceitar o cargo que lhe ofereceram, acabaria por revelar a sua precariedade.

Só não assumiram esta posição, assim mesmo com panos quentes, os dois “oficiais de ligação” entre Moro e seu esquadrão de promotores: Deltan Dallagnol e Carlos Fernando dos Santos Lima.

Entre os demais, dentro e fora da Lava Jato, fica claro que a relação entre juiz e acusação não era de autonomia, mas de mando e de submissão. 

Monique Cheker, uma das promotoras mais desabrida nas falas, é taxativa.

Moro é inquisitivo, só manda para o MP quando quer corroborar suas ideias, decide sem pedido do MP (variasssss vezes) e respeitosamente o MPF do PR sempre tolerou isso pelos ótimos resultados alcançados pela lava jato.

The Intercept segue o caminho que traçou: o primeiro passo é estabelecer, acima de qualquer dúvida razoável, a veracidade dos diálogos que obteve, antes que eles revelem a prova escandalosa da interferência extra e antilegal do juiz.

Há, agora, quase duas dezenas de personagens envolvidos na troca de mensagens e mesmo com a epidemia de amnésia dos “não me lembro se disse isso”, é impossivel que isso não acabe encontrando fontes de confirmação, em meio ao que popularmente se chama de “barata voa” criado pela reportagem.

A atuação política do Ministério Público está escancaradamente estabelecida.

Contra isso, a única estratégia continua sendo colocar sob suspeita de edição o material revelado. 

Mas, com tantos que se envolvem, é impossível sustentar esta tese.

Moro vai perdendo a escolta.

É um laço, uma rede, lançada em torno do alvo central, que vai se fechar lentamente, como em toda investigação que se preze, confirmando hoje a veracidade do que se revelou ontem.

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