FNCP vê avanço de vapes ilegais e alerta para ação do crime
Presidente do FNCP, Edson Vismona, afirma que política atual favorece crime e amplia consumo entre jovens, enquanto apreensões batem recordes
247 - A política de proibição dos cigarros eletrônicos no Brasil tem falhado em conter o avanço do consumo e fortalecido o mercado ilegal, avalia Edson Vismona, presidente do Fórum Nacional de Combate à Pirataria (FNCP). Em entrevista à TV247, ele afirmou que a ausência de regulamentação tem transferido o controle desse mercado para organizações criminosas e ampliado o acesso ao produto, inclusive entre adolescentes.
Segundo Vismona, a posição da Agência Nacional de Vigilância Sanitária de proibir totalmente os dispositivos contrasta com o modelo aplicado ao cigarro convencional. “O vape, o cigarro eletrônico, é totalmente proibido. A Anvisa se recusa a regulamentar, ao contrário do que faz, sempre fez com o cigarro convencional”, disse.
Ele destacou que, mesmo com a proibição, o acesso ao produto é amplo e facilitado em diferentes ambientes. “Você tem acesso a esse produto via internet, nas mídias sociais, em marketplaces, nos bares, restaurantes, nas praias, nas baladas. E as pessoas imaginam que ele é legal, porque é tão fácil encontrar”, afirmou. Para ele, a estratégia baseada em apreensões não tem conseguido conter a demanda. “Só a apreensão não consegue dar conta do crescimento da demanda”.
O avanço do consumo entre jovens é outro ponto de alerta. “O IBGE demonstra que tá crescendo muito junto aos adolescentes. Os adolescentes estão comprando muito esses dispositivos e é o pior dispositivo possível”, declarou, citando dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
Vismona também chamou atenção para o tamanho do mercado clandestino. “Nós temos pesquisas mostrando mais de 3 milhões de usuários. E esses usuários, ao comprarem esses vapes, movimentaram mais de 7 bilhões e 800 milhões de reais. Totalmente ilegal”, afirmou. Para ele, esse cenário cria um ambiente dominado por redes ilícitas. “Este é um verdadeiro monopólio do crime, porque quem opera nesse mercado totalmente ilegal são as organizações criminosas”.
Além disso, o presidente do FNCP ressaltou os riscos sanitários decorrentes da falta de controle sobre os produtos ilícitos. “Podendo manipular, você pode inserir substâncias muito prejudiciais à saúde, porque não tem regulamentação”, disse. Ele defende que a regulamentação poderia oferecer maior segurança ao consumidor: “O consumidor saberia que está consumindo um produto que atende a esses rigores”.
Ao comparar com o mercado de cigarros tradicionais, Vismona destacou que a regulação permite a coexistência de produtos legais e ilegais, reduzindo a participação do crime. “Você tem um cigarro legal que atende as normas da Anvisa e 70% do mercado convencional de cigarros está na mão do produto legal. 30% está no ilegal”, afirmou.
Ele também criticou o aumento de impostos como estratégia para reduzir o consumo. “Não vai acontecer isso. Não aconteceu isso historicamente. Nós tivemos aumentos dos tributos que fizeram com que o mercado ilegal dos cigarros convencionais dobrasse”, disse. Segundo ele, o encarecimento do produto legal tende a empurrar consumidores para o mercado clandestino.
Assista à entrevista de Edson Vismona:
Apreensões recordes e avanço do mercado ilegal
O alerta feito por Vismona ocorre em meio à expansão do mercado clandestino de cigarros eletrônicos no país. Mesmo proibidos, os dispositivos seguem sendo vendidos com facilidade em centros urbanos, redes sociais e plataformas digitais, evidenciando os limites da fiscalização.
Dados da Receita Federal do Brasil, repercutidos pelo FNCP, mostram a dimensão do problema. Apenas entre janeiro e fevereiro de 2026, foram apreendidas 238.801 unidades de cigarros eletrônicos — cerca de 4 mil dispositivos por dia. Em 2025, o total chegou a 3 milhões de unidades, indicando crescimento contínuo do mercado paralelo.
Para Vismona, esse cenário reflete uma mudança estrutural. “O que estamos vendo é a consolidação de um mercado ilegal que cresce à margem do Estado e alimenta diretamente o crime organizado. A simples proibição do comércio legal desses dispositivos não impediu o acesso ao produto – apenas transferiu esse mercado para as mãos de redes criminosas. E, pior: com a oferta de produtos completamente desconhecidos e sem qualquer controle sanitário ou procedência conhecida”, afirmou.
Ele também ressaltou o nível de organização das redes de contrabando. “Estamos diante de um contrabando altamente organizado, que se aproveita de diversos canais para vender, inclusive da internet. E, em muitos casos, da estrutura oficial de entregas para distribuir. Isso amplia o poder de atuação dos criminosos e dificulta o trabalho de combate por parte das autoridades”, disse.
O problema ganha ainda mais relevância diante do aumento do consumo entre jovens. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde Escolar (PeNSE) 2024, divulgada pelo IBGE, apontam que a experimentação de cigarros eletrônicos entre adolescentes subiu de 16,8% em 2019 para 29,6% em 2024.
Diante desse cenário, o FNCP defende a revisão das políticas públicas sobre cigarros eletrônicos e o reforço das estratégias de combate ao comércio ilegal. Para a entidade, sem medidas mais amplas, o Brasil pode assistir à consolidação definitiva de um mercado clandestino cada vez mais estruturado, acessível e lucrativo para organizações criminosas.