Haddad afirma que deslegitimação da eleição já levou ao caos

O candidato a presidente da República Fernando Haddad (PT) afirmou que deslegitimar o resultado das eleições, como tem feito o candidato Jair Bolsonaro (PSL), pode levar o país ao caos; ele lembrou que o próprio ex-presidente do PSDB Tasso Jereissati (CE) reconheceu que o partido errou ao questionar o resultado das eleições em 2014: "não se devia contestar resultado eleitoral que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) proclamou. O TSE não é petista. Acabou de negar a candidatura do ex-presidente Lula, desautorizando a ONU e um acordo internacional aprovado pelo nosso Congresso”

Haddad afirma que deslegitimação da eleição já levou ao caos
Haddad afirma que deslegitimação da eleição já levou ao caos (Foto: Ricardo Stuckert)

Da Rede Brasil Atual - O candidato a presidente da República Fernando Haddad (PT) afirmou nesta segunda (17) que deslegitimar o resultado das eleições, como tem feito o candidato Jair Bolsonaro (PSL), pode levar o país ao caos. E lembrou que o próprio ex-presidente do PSDB Tasso Jereissati (CE) reconheceu que o partido errou ao questionar o resultado das eleições em 2014.

“Não se devia contestar resultado eleitoral que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) proclamou. O TSE não é petista. Acabou de negar a candidatura do ex-presidente Lula, desautorizando a ONU e um acordo internacional aprovado pelo nosso Congresso”, ressaltou. As declarações foram dadas em sabatina realizada pelo portal UOL, em parceria com o jornal Folha de S.Paulo e o SBT.

Haddad lembrou ainda que todas as últimas eleições, inclusive aquelas em que o candidato do PSL foi eleito deputado, foram realizadas em urnas eletrônicas. “Me parece que a ampla maioria do Congresso que vai ser eleita discorda dessa teoria do Bolsonaro. E na minha opinião existe um cansaço muito grande da população e da classe política de sabotar o país", afirmou. "O Congresso está ciente de sua responsabilidade. O país precisa de paz, de uma agenda firme, de uma condução segura. As pessoas estão sofrendo com o que está acontecendo.”

O candidato petista cobrou uma postura firme do TSE sobre essas afirmações, que colocam o resultado da eleição em xeque. “Em primeiro lugar, espero que o TSE se manifeste sobre essas acusações que estão sendo feitas. Quem garante a lisura do processo é o TSE”, afirmou. E garantiu que a postura do PT será de continuar lutando junto aos organismos internacionais para que seja reconhecida “a injustiça que foi cometida” contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Questionado sobre a participação do ex-presidente de Lula em um eventual governo dele, o candidato foi categórico. “Ele vai ser ouvido. Jamais dispensaria a experiência do presidente Lula. É uma pessoa que eu admiro profundamente. E ele é uma personalidade internacional. Não recebe visitas só de Fernando Haddad, é do mundo inteiro. Infelizmente a cobertura da imprensa nem sempre retrata isso”, disse.

Diante da insistência se tentaria libertar Lula, Haddad ressaltou que o próprio ex-presidente descarta receber qualquer tipo de indulto. “Ele viu a imprensa tratando disso e nos disse que ‘não troco a minha dignidade pela minha liberdade. O que eu quero é que os tribunais superiores reconheçam que não há prova no processo contra mim e me absolvam’”. Além disso, a legislação brasileira não reconhece a concessão de indulto individual e não tem regulamentação de outras formas de perdão de pena.

Haddad apaziguou críticas ao candidato do PDT, Ciro Gomes, ressaltando que o admira e que houve diálogo no sentido de comporem chapa. “Eu fui o que mais buscou a aproximação de todas as partes da centro esquerda para lutar contra esse obscurantismo que está solto. Não foi possível no primeiro turno, será possível no segundo turno e mais ainda no governo. Você está falando com uma pessoa que não tem nada de sectária.  Uma pessoa que vai ajudar a construir um amplo campo de apoio democrático popular com um projeto comum”, afirmou.

Economia e reformas

O ex-prefeito de São Paulo admite que o país tem um problema fiscal (descompasso entre o que arrecada e o que precisa investir), mas assinala divergências com o modelo do governo Temer, que segue a proposta do PSDB. “O que o PSDB e o próprio Bolsonaro estão propondo é um remédio que vai tornar mais lenta a retomada. É preciso desenhar uma trajetória adequada para garantir sustentabilidade fiscal porque ninguém é a favor de trajetória explosiva da dívida. E o Lula foi o presidente que mais reduziu a dívida pública na história do país, sem aumentar imposto”, disse, lembrando que Lula “herdou 32% de carga fiscal em relação ao PIB e entregou com 32,5%”, reduzindo a dívida pública pela metade.

E criticou as teorias de que é preciso agradar o mercado: “Não adianta o mercado querer ensinar o que ele não conseguiu. O mercado apoiou o governo FHC, que dobrou a dívida pública. Vocês pedem para o PT fazer autocrítica, mas têm de pedir para o mercado fazer autocrítica. O mercado não faz autocrítica depois que quebrou o mundo com o Lehman Brothers. O mercado é um ser etéreo, vocês não têm como entrevistar, só fala em ‘off’ (sem autorização para divulgar), e não em de seus próprios erros”, criticou. “Chamar os pobres para pagar conta da crise não é razoável.”

Haddad voltou a defender o enfrentamento à “cartelização” dos bancos e uma reforma no sistema bancário. “Sem crédito barato não vamos a lugar nenhum. É preciso enfrentar a cartelização. Não adianta tirar o nome das pessoas do SPC, com essa taxa de juros porque no ano seguinte elas voltam. Então temos de enfrentar uma reforma do sistema bancário e a reforma tributária também, e ainda as reformas complementares, como a do teto de gastos, para ter algum espaço fiscal para a retomada dos investimentos públicos.”

O candidato de Lula disse estar animado com a evolução não só das Fintechs (empreendimento/startup que otimiza serviços do setor financeiro com custos operacionais mais baixos), mas também das cooperativas de crédito. “Eu perguntei para o presidente do Banco Central Ilan Goldfarjn e disse a ele o seguinte: quero colocar um chicote e uma cenoura no sistema bancário, para que quem reduzir o juro pague menos imposto e quem cobra juro mais alto pague mais imposto. Introduzir um elemento de progressividade”, disse, revelando que o próprio Goldfajn questionou se ele pretende elevar a carga tributária do sistema bancário. “Eu disse ‘não’. Quero punir quem cobra muito e estimular quem cobra menos juros para o tomador final. Ele disse ver isso com bons olhos e que não acha que será um problema.”

Perguntado se considera viável – como está no programa do PT – isentar quem ganha até cinco salários mínimos da cobrança de Imposto de Renda, Haddad afirmou que há estudos da Receita indicando que sim, e que ainda se prevê um efeito adicional para a arrecadação decorrente do aumento do consumo das famílias de média e baixa renda. “Por quê? Um banqueiro que recebe dividendos não consome, bota no banco para ganhar com juros, ou gasta no exterior. A pessoa de média renda, quando recebe uma renda um pouco maior, vai pagar dívidas, fazer um crediário, trocar de carro, de casa. E nós precisamos de algum tipo de aquecimento imediato da economia. Aumentar a renda das famílias é fundamental para reativar o mercado.”

Haddad não descartou a possibilidade de oferecer subsídios a alguns setores da economia, mas se comprometeu a estudar com calma esse tipo de medida. "Política industrial tem que ser feita com muito critério. Você não pode escolher a bel prazer o setor que apoiará. O subsídio tem que ser temporário e setor deve demonstrar que não vai depender do Estado dali adiante. A Petrobras, com o mando do pré-sal, que perdeu, seria a maior empresa contratante de plataformas e embarcações do mundo em função do pré-sal, porque nós perderíamos essa oportunidade? É uma polêmica que eu pretendo enfrentar, se tiver um setor que mereça do Estado para reindustrializar o país", explicou

Alianças e governabilidade

Questionado sobre uma possível composição com o chamado Centrão ou o MDB, Haddad destacou que eles já escolheram seus projetos para apoiar e o PT tem outro projeto de país. “A população não quer a continuidade da política econômica do Temer, como quer o Alckmin e o centrão”, afirmou. Já em relação a um eventual aperto de mãos com o PSDB, o petista lembrou que existe “um mal maior a ser combatido”. “Existe espaço para uma agenda de Estado, com o reestabelecimento da fortaleza institucional republicana, para dar sustentação a quem ganhar, independente de quem seja”, afirmou.

Haddad defendeu ainda reformas na eleição para os legislativos e para escolha dos membros do Supremo Tribunal Federal (STF). No primeiro caso, o candidato avalia que a escolha de deputados e senadores junto com o primeiro turno prejudica o debate de ideias. “A nossa proposta é que votemos em senadores e deputados no segundo turno, porque você só terá duas propostas para discutir, você organiza o pensamento da sociedade”.

Já para o STF, a ideia é que haja mais participação da sociedade e da comunidade jurídica, além de redução do tempo de mandato, que deixaria de ser vitalício. “A pessoa passa 20 anos ali na Suprema Corte, escolhida num jogo de bastidor que não tem acompanhamento da sociedade, vai para o Senado, que possui um jogo de cena, sem sabatina. Nós precisamos de um processo mais robusto. Ouvir melhor a comunidade jurídica, abrir uma discussão mais ampla. Estamos falando de 11 pessoas que ditam o destino do país por quatro ou cinco mandatos presidenciais. Acredito que a proposta para um mandato é algo aceito”, disse Haddad.

O candidato garantiu que não aceitará indisciplina de membros das Forças Armadas em relação aos rumos que população decidir para o país. “O comandante chefe das Forças Armadas é o presidente da República, militar ou civil, mas escolhido pelo povo. Por que hoje há essa dispersão? O presidente que não tem autoridade deixa as pessoas falarem pelos cotovelos. Quem está debaixo de uma hierarquia tem que defender a democracia, quem estiver sob o comando da Presidência tem que defender a democracia, sem acordo com quem quiser sabotar a democracia”, afirmou.

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