Identitarismo trava aproximação da esquerda com evangélicos
A divergência ideológica entre os dois segmentos é agravada pelas questões identitárias, que favorecem a direita
247 - A reconstrução do diálogo de setores da esquerda com o segmento evangélico tem esbarrado na polarização, na ascensão da luta identitária e na incompatibilidade de visões. Além disso, temas que foram incorporados pela direita, como segurança pública e agronegócio, acabaram por ampliar as dificuldades entre os segmentos progressistas e religiosos.
"Se você perguntar para o evangélico se ele quer ter saúde e escola pública de qualidade, direitos trabalhistas como férias, ele vai dizer que sim. É dessa forma que a esquerda consegue se conectar com as igrejas", disse o pastor Alexandre Gonçalves, líder dos cristãos trabalhistas no PDT, ao jornal Folha de S. Paulo. "Mas se você inicia um diálogo com temas transversais, ainda que eles tenham a sua importância, isso acaba fazendo surgir um identitarismo de maioria. Isso faz muito bem à direita", completou.
A divergência ideológica agravou-se com a importação de pautas da nova esquerda americana, focada em questões identitárias. Para alguns evangélicos, isso cria um identitarismo majoritário que beneficia a direita. A esquerda busca conciliar essa tensão, mas a dificuldade em mobilizar eleitores em torno de pautas amplas e a falta de comunicação eficaz acentuam os desafios.
O cientista político Guilherme Casarões, professor da FGV, observa que o padrão é global. "Temos as tensões entre uma esquerda tradicional, focada na dimensão econômica e de classe, e uma identitária, preocupada com a garantia dos direitos de grupos vulneráveis".
"Vemos uma dificuldade das esquerdas em geral em mobilizar eleitores em torno de pautas amplas. A utopia do passado, representada pelo socialismo, foi substituída por sentimentos como medo, ódio e ressentimento, ativados de maneira eficiente pela extrema direita, em particular de corte populista", explica Casarões.
Para ele, a direita foi hábil "na ocupação precoce dos espaços digitais", enquanto a esquerda tenta "construir narrativas amplas de apelo às massas, para além dos grupos com os quais tradicionalmente dialoga". Ainda segundo Casarões, “ao mesmo tempo, tragados pela polarização, muitos passaram a equivaler conservadorismo e fascismo, ostracizando parcelas significativas da população."
O desafio maior, porém, reside em superar estereótipos, dialogar com a diversidade de vozes evangélicas e construir pontes baseadas no respeito mútuo visando superar esses obstáculos e reconquistar a confiança do segmento evangélico.
Nesta linha, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem feito acenos para esse segmento desde seu retorno à Presidência, como o envio de uma carta para justificar sua ausência na Marcha para Jesus, além de apoiar a ampliação da isenção tributária às igrejas na Reforma Tributária.
