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Inspiração para povos originários: morre indígena ativista que fazia doutorado em Paris

Natural da Terra Indígena São Domingos – Krehawã, em Mato Grosso, Mairu foi um dos primeiros estudantes Karajá a ingressar no ensino superior

Doutorando em Direito em Paris, Mairu Kuady uniu trajetória acadêmica, ativismo indígena e defesa dos saberes ancestrais (Foto: Reprodução/ Arquivo Pessoal)
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247 - Mairu Hakuwi Kuady Karajá, indígena reconhecido por sua trajetória acadêmica e por sua atuação em defesa dos povos originários, morreu aos 30 anos. Doutorando em Direito em Paris, na França, ele era considerado uma referência para jovens indígenas por unir a produção de conhecimento acadêmico ao orgulho de suas raízes e à valorização das culturas ancestrais.

As informações são do g1. Segundo a família, a causa da morte foi um infarto. Mairu residia em Brasília e construiu uma trajetória marcada pela defesa do protagonismo indígena em universidades, instituições e espaços de debate público.

Natural da Terra Indígena São Domingos – Krehawã, em Mato Grosso, Mairu foi um dos primeiros estudantes Karajá a ingressar no ensino superior. Ele se formou em Relações Internacionais pela Universidade Federal do Tocantins, tornou-se mestre em Direito pela Universidade de Brasília e cursava doutorado em Paris.

Sua caminhada acadêmica foi marcada por desafios desde cedo. Durante o ensino médio, ele chegou a limpar banheiros para conseguir manter os estudos após conquistar uma bolsa parcial em uma escola particular de Goiás. A experiência se tornou parte de uma história de superação que passou a inspirar estudantes indígenas de diferentes etnias.

Em entrevista ao g1, em 2024, Mairu falou sobre o significado de ocupar espaços acadêmicos sem abrir mão da própria identidade. “Me ver nesse lugar é algo muito especial para mim e inspirador para o meu povo”, comentou.

O pesquisador também relatou o esforço que precisou fazer para seguir estudando. “Limpava banheiros de segunda a sexta-feira, além de domingos e feriados”, disse.

Mairu era reconhecido por defender a produção de conhecimento a partir das perspectivas indígenas. Sua atuação buscava ampliar a presença dos povos originários no ambiente acadêmico e fortalecer a preservação das línguas, das culturas e das formas tradicionais de conhecimento.

O Ministério dos Povos Indígenas lamentou a morte do intelectual indígena neste domingo, 14 de junho, e destacou que, ao longo de sua trajetória, Mairu demonstrou que "a ocupação dos espaços acadêmicos e institucionais pode caminhar lado a lado com o fortalecimento das identidades, das línguas e dos conhecimentos ancestrais".

Além da vida acadêmica, Mairu trabalhava como diretor-geral de operações da empresa Biofix Brasil. Ele também atuou como pesquisador, membro do Observatório dos Direitos e Políticas Indigenistas da Universidade de Brasília, coordenador territorial do projeto Ilha do Bananal+ e professor voluntário da língua Inyrybè.

A atuação como professor voluntário reforçava seu compromisso com a preservação da língua e da cultura do povo Iny Karajá. Para Mairu, o conhecimento acadêmico não deveria substituir os saberes ancestrais, mas dialogar com eles e contribuir para o fortalecimento das comunidades indígenas.

Ao longo de sua trajetória, ele foi convidado com frequência para participar de mesas, debates e palestras sobre cultura indígena, organizações sociais e direitos dos povos originários. Sua presença nesses espaços ajudou a ampliar a visibilidade das pautas indígenas e a afirmar o papel dos próprios indígenas na formulação de ideias, políticas e pesquisas sobre seus povos.

A história de Mairu também se tornou símbolo de incentivo para jovens indígenas que buscam acesso à educação superior. Sua vida acadêmica demonstrava que a presença indígena nas universidades podia abrir caminhos sem romper vínculos com a comunidade, a língua e a memória coletiva.

“Eu sonho com um dia em que os jovens das nossas comunidades alcançarão os objetivos”, declarou Mairu.

Sua morte causou comoção entre familiares, lideranças, pesquisadores e pessoas que acompanhavam sua trajetória. O legado de Mairu Hakuwi Kuady Karajá permanece ligado à defesa dos direitos indígenas, à valorização das identidades originárias e à luta por maior presença dos povos indígenas nos espaços de produção de conhecimento.