James Green sobre queda de Bolsonaro: se as pessoas forem às ruas pode acontecer. Por enquanto, não

O historiador e brasilianista James Green, em entrevista à TV 247, avalia que a queda de Jair Bolsonaro só é possível com forte mobilização popular, já que o atual governo está permitindo que as reformas que agradam as classes dominantes sigam em frente. Ao comentar a Vaza Jato, ele ressalta que “Moro ainda ser ministro da Justiça é um crime”. Assista

247 - O historiador, brasilianista e ativista do movimento LGBT James Green, professor da Universidade de Brown, conversou com a TV 247 sobre os recentes escândalos que envolvem o governo e sobre uma possível queda de Jair Bolsonaro. Green falou também sobre a relação das pautas dos LGBTs com a esquerda, das possíveis eleições de Luciano Huck e João Doria à presidência e dos crimes revelados pela Vaza Jato.

Para James Green, não importa quantos escândalos apareçam, o governo Bolsonaro só cairá com o consentimento das classes dominantes ou com uma forte mobilização popular. “É como a situação do Flávio. De repente ele não existe mais, a corrupção dele é evidente, já foi provada e não vai ser investigado. Não interessa, quando não querem derrubar uma pessoa, não derrubam. Tem vários mecanismos para não avançar nas questões do Flávio ou do assessor dele. Acho que só se o Bolsonaro não conseguir manter a estabilidade política do país. Se começar um Chile, um milhão de pessoas nas ruas de novo, mobilizações contra os efeitos dos programas de Paulo Guedes, se surgirem mobilizações de milhões de pessoas de novo pode ameaçar a estabilidade do governo e chegar ao ponto de pedir o impeachment dele. Por enquanto, não”.

Ele ressaltou que a Rede Globo e a Folha de S. Paulo, mesmo sofrendo com represálias de Jair Bolsonaro, aguentam a continuação do atual governo porque as reformas econômicas do ministro da Economia, Paulo Guedes, os agradam. “É fundamental que a gente lute contra o governo Bolsonaro, esse discurso dele e dos filhos dele são muito perigosos. Na minha análise, acho ainda difícil Bolsonaro sair. Acho que a solução para setores como a Globo e Folha de S. Paulo, que estão sendo atacados, é tentar apoiar esse governo e aguentá-lo. Estão apostando em duas opções: se for necessário, apoiar Mourão como alternativa para transição, ou, o que é mais interessante, aguentar porque o Paulo Guedes está implementando as reformas econômicas que eles querem. Acho que estão apostando nas eleições de 2022 e nas disputas de candidatos”.

O historiador analisou ainda uma possível candidatura do apresentador Luciano Huck à presidência em 2022. “Luciano Huck é uma pessoa que eles estão cogitando como alternativa, pessoa que tem um certo apelo popular, que tem um plano neoliberal, mas não é tão duro com as questões sociais e culturais. Tem um irmão gay, então não vai ser contra os LGBTs, vai falar sobre a defesa da cultura brasileira e talvez vá reativar uma série de programas que o Bolsonaro está acabando. Doria também é uma alternativa”.

Em sua opinião, Lula será impedido de disputar as próximas eleições. “Fizeram um golpe para não deixar Lula ser presidente, fizeram um golpe para não deixar Lula ser candidato em 2018, não vai deixá-lo em 2022, vão inventar mais uma corrupção, mais uma coisa como que ele atravessou a rua sem respeitar o sinal. Eles não vão deixar isso acontecer. Como sabemos pelo The Intercept, o Judiciário é totalmente corrupto”.

Questionado sobre a Vaza Jato e as ilegalidades do ministro da Justiça, Sérgio Moro, Green afirmou que o ex-juiz violou a Constituição. “Moro ainda ser ministro da Justiça é um crime, é absurdo isso”.

Ele também falou da estratégia da esquerda de se afastar de pautas como as de defesa dos LGBTs e do aborto para angariar votos de camada que não concordam com estes pontos de vista. Para ele, é uma estratégia errada e que não dará certo. “Tem setores que dizem: ‘bom, perdemos votos dos evangélicos, o PT tinha uma força entre as classes populares que agora foram para os evangélicos, eles foram para os evangélicos (segundo este argumento) por essas questões de feminismo, defesa do aborto e a questão LGBT’. Então nossa estratégia, seguindo esse raciocínio, seria abandonar essas questões, vamos deixá-las para poder reaproximar as questões que interessam aos evangélicos e as classes populares. Eu acho uma estratégia super errada e que não vai funcionar. Querendo ou não, a população associa a questão LGBt à esquerda, então é melhor abraçar essa reivindicação do que tentar afastar-se”.

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