Lava Jato debocha de “incompetência” na custódia de provas usadas contra Lula

“Levamos o drousys numa sacola de supermercado para Brasilia”, afirmou um procurador da força-tarefa da Lava Jato

Ex-presidente Lula e procuradores da Lava Jato em Curitiba
Ex-presidente Lula e procuradores da Lava Jato em Curitiba (Foto: Felipe L. Gonçalves/Brasil247 | Divulgação/MPF-PR)
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Jornal GGN – Em uma das novas conversas da Operação Spoofing que vieram à tona nesta segunda (8), os procuradores de Curitiba conversam, debocham e, em certa medida, admitem “incompetência” na cadeia de custódia de provas fornecidas pela Odrebecht e usadas em processo contra o ex-presidente Lula.

O material em questão são as informações extraídas do chamado “sistema de pagamento de propina da Odebrecht”, o Drousys e o My Web Day.

A defesa de Lula questionou a manipulação dos sistemas da Odebrecht em meio às investigações da Lava Jato. Publicamente e nos autos, a força-tarefa do Ministério Público Federal sempre alegou que não havia possibilidade de fraudes.

Mas em mensagens trocadas em fevereiro de 2018, fica evidente que os próprios procuradores de Curitiba e, depois, os agentes que se debruçaram sobre o material em Brasília, não seguiram os trâmites esperados para garantir a lisura da cadeia de custódia e, portanto, a legitimidade das provas colhidas.

Os sistemas estavam baseados no exterior e era preciso requerer ajuda às autoridades da Suécia e Suíça para obtê-los. Mas a Lava Jato tudo recebeu, primeiro, da própria Odebrecht, primeira interessada em entregar o que fosse para fechar acordos de leniência e delação premiada para seus executivos.

A Odebrecht enviou o material do Drousys que estava na Suécia e também do My Web Day na Suíça. Depois, a força-tarefa da Lava Jato recebeu arquivos “das autoridades suíças em resposta ao nosso pedido de cooperação material compreendendo Drousys e My Web Day que acreditamos ter o mesmo teor” do conteúdo entregue pela Odebrecht. Mas, àquela altura, os procuradores ainda não tinham feito a devida apuração para descartar possibilidade de adulteração.

Mais do que isso, entrou em discussão o modo como os arquivos foram enviados à Brasília e como os agentes de lá acessaram o material. O procurador Januario Paludo inseriu no chat a seguinte mensagem: “Carlos. Falei com o Dantas agora. Ele teve essa conversa dentro da polícia federal com gente qualificada. Alguém da área técnica embora não tenha revelado a fonte. Ele reafirmou que é o pessoal que esteve Brasília, recebeu os cds digo, os arquivos em sacolas de supermercado, plugava direto no computador os arquivos originais. que não havia espelhamento para fazer a pesquisa. que era feito direto no arquivo original. que quando os peritos chegaram para ver os arquivos ninguém sabia onde estavam e ficaram ligando uns para os outros até que alguém veio com as sacolas. falei que isso é surreal e que existe todo um sistema de controle. não acho que seja contra. mas tem que ser checadas essa história e esclarecida. não somos assim incompetentes.”

A procuradora Jerusa então escreveu uma mensagem admitindo o pouco cuidado com as provas e vislumbrando “amadorismo” no manejo pelos agentes de Brasília. “nao quero me meter, mas levamos o drousys numa sacola de supermercado mesmo para Brasilia. O que foi feito na SPEA, aí já é outras história, mas nao acredito que tenham sido tão amadores…”

Januário Paludo tirou sarro do transporte em sacolas de supermercado. “Tomara que tenha sido do Bourbon e não do

Carrefour. Esqueci o Carrefour não dá mais sacola de supermercado.”

Jerusa entrou na onda e respondeu. “Jerusa don´t worry …. era sacola retornável, pois somos ecológicos!”, ao que o procurador Athayde cravou: “Ta ai a cadeia de custodia. Pao de Acucar”. Restou ao procurador Roberson [Pozzobom] dar risada e continuar o deboche: “Kkkkkkkk. Da pra ver a sombra dos seguranças que estavam escotando esse transporte.”

Defesa de Lula

O ex-advogado da Odebrecht, Rodrigo Tacla Duran, jogou uma bomba na Lava Jato quando levantou a possibilidade dos sistemas Drousys e My Web Day terem sido adulterados no curso da operação. Mas o então juiz Sergio Moro sempre obstruiu as acusações de Tacla Duran.

A defesa de Lula moveu recursos sobre os sistemas. Em uma das mensagens, Isabel Grobba chamou o advogado Cristiano Zanin de “desabusado” ao lembrar desses questionamentos.

“Acondicionamento do material, diz que estamos intervindo na perícia, que já tínhamos o material quando ainda não tinha sido entregue, fraudes, adulteração e por aí vai”, resumiu ela. Depois, fez uma recomendação no chat dos procuradores. “Acho que é bom a PGR (gab da PGR) entender bem tudo como tudo se deu, embora Pablo já saiba muito bem sobre toda a sequência relativa à entrega dos materiais.”

“Relembrando: 1) recebemos da Odebrecht primeiramente material do Drousys oriundo da Suécia; 2) recebemos em seguida material da Odebrecht obtido pela empresa junto às autoridades suíças, compreendendo Drousys e My Web Day; e 3) recebemos das

autoridades suíças em resposta ao nosso pedido de cooperação material compreendendo Drousys e My Web Day que acreditamos ter o mesmo teor daquele da entrega 2 acima”, acrescentou.

Dos sistemas da Odebrecht, a Lava Jato tirou informações sobre supostos pagamentos de propina a uma série de executivos e políticos. No caso de Lula, a Odebrecht é ré na ação penal que questiona se a empresa quis ajudar na construção (compra da sede) do Instituto Lula e se bancou, ainda, outras supostas vantagens indevidas ao ex-presidente.

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