Luis Felipe Miguel vê Boulos como o melhor quadro para liderar a esquerda
"A campanha eleitoral pode ser um momento importante de disputa das narrativas, de educação política, de reforço da mobilização. E um bom desempenho da esquerda, quiçá a obtenção da maioria, amplia os custos do retrocesso", diz o cientista político Luis Felipe Miguel; "Não tenho dúvidas de que a pessoa mais gabaritada para desempenhar esse papel hoje é Guilherme Boulos. Tem base social, discurso claro e firme, capacidade de articulação e uma combinação muito interessante de radicalidade e pragmatismo"
Por Luis Felipe Miguel, em seu Facebook
Faz tempo que espero assistir ao formidável enterro da última quimera do PT, mas é difícil: sempre tem mais uma esperando para morrer. O partido não desiste de acreditar que, em algum momento, "as instituições" vão responder. E assim fica sonhando com alguma intervenção do Supremo, para frear as arbitrariedades em curso, ou uma brecha no TSE, que permita a candidatura de Lula - e continua sonhando, a despeito de todas as evidências de que não vai acontecer.
Não é possível ter ilusões: não, Lula não será candidato. Foi importante marcar posição, com as caravanas, e é importante continuar denunciando que a exclusão arbitrária do ex-presidente fere de morte a legitimidade do processo eleitoral. Não retirar a candidatura de Lula, para reforçar a denúncia da perseguição que ele sofre, pode até ser útil no momento. Mas não há chance de reversão do quadro no Judiciário e é hora de pensar o que fazer.
Tenho dito que é um grave erro jogar todas as fichas no processo eleitoral. O golpe não foi dado para, dois anos depois, abrir espaço para a expressão da vontade popular. Mas a campanha eleitoral pode ser um momento importante de disputa das narrativas, de educação política, de reforço da mobilização. E um bom desempenho da esquerda, quiçá a obtenção da maioria, amplia os custos do retrocesso.
Não tenho dúvidas de que a pessoa mais gabaritada para desempenhar esse papel hoje é Guilherme Boulos. Tem base social, discurso claro e firme, capacidade de articulação e uma combinação muito interessante de radicalidade e pragmatismo. Tem mostrado grande estatura política no momento atual. Tem potencial para ganhar a vasta base do lulismo que, sem o ex-presidente na disputa, se inclina para a abstenção ou o voto em branco. Os nomes cogitados pelo PT como alternativas a Lula - Fernando Haddad, Jacques Wagner, Celso Amorim, Patrus Ananias - não me parecem reunir as qualidades exigidas pela conjuntura.
Como também alimento minhas quimeras, penso que seria extraordinário se o PT abrisse mão de ter candidato próprio e apoiasse a candidatura de Boulos (com o bônus de levar à loucura a parte do PSOL antipetista e a parte do PT antipsolista). Para vice, claro, sugiro Manuela d'Ávila. Sempre tive enormes restrições ao comportamento de seu partido, mas ela tem crescido muito na pré-campanha e se credenciou pela retidão e coragem no enfrentamento da conjuntura e como porta-voz de causas importantes.
Com o fechamento cada vez maior do regime pós-golpe, a unidade da esquerda também no plano eleitoral se torna um caminho necessário. Uma chapa Boulos-Manuela, com o apoio do PT, com tudo o que significa um apoio de Lula, teria melhores condições de transmitir sua mensagem e mesmo de puxar a parte sadia da base do cirismo, o setor do PSB que continua à esquerda e o que sobrou do marinismo que é só desavisado (e não cínico). E, em especial, se o PT fosse capaz de um tal gesto de grandeza, marcaria sua disposição para contribuir sem ressalvas na construção do futuro da esquerda brasileira.