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Lula amplia agenda voltada às mulheres para reforçar apoio feminino

Presidente intensifica agenda, sanciona leis e reforça discurso contra violência de gênero após pesquisas indicarem perda de vantagem entre eleitoras

Lula amplia agenda voltada às mulheres para reforçar apoio feminino (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

247 - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) intensificou, nos últimos meses, uma série de ações e compromissos voltados ao público feminino, em um movimento estratégico diante da redução de sua vantagem entre as mulheres nas pesquisas eleitorais. As informações foram publicadas originalmente pela Folha de S.Paulo.

De acordo com a reportagem, apenas nos primeiros meses deste ano, o chefe do Executivo participou de mais de dez iniciativas direcionadas às mulheres, incluindo seminários, cerimônias oficiais e a sanção de medidas com impacto direto ou indireto nesse público. Em grande parte desses compromissos, Lula esteve acompanhado da primeira-dama Rosângela da Silva, conhecida como Janja, apontada por auxiliares do Planalto como influente na ampliação da pauta feminina na agenda presidencial.

Entre os episódios recentes está a realização do Pacto contra o Feminicídio, articulado entre os três Poderes após a repercussão de casos de violência no país. O tema também passou a ocupar espaço recorrente nos discursos presidenciais, evidenciando uma tentativa de reposicionar o governo diante das críticas e dos números das pesquisas.

Levantamento do Datafolha indica que Lula perdeu a vantagem que mantinha entre mulheres. Em março, em um cenário de segundo turno contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o presidente aparecia com 50% das intenções de voto entre eleitoras, contra 37% do adversário. Já em abril, a diferença caiu para um empate técnico: 47% para Lula e 43% para o parlamentar, dentro da margem de erro de três pontos percentuais.

A intensificação dessa agenda ocorre em um contexto marcado por declarações consideradas machistas feitas pelo presidente ao longo do mandato. Em abril do ano passado, Lula referiu-se à diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva, como “mulherzinha”. Um mês antes, ao comentar a nomeação de Gleisi Hoffmann, afirmou ter escolhido uma “mulher bonita” para melhorar a relação com o Congresso.

A partir do segundo semestre do ano passado, o governo também ampliou a produção legislativa voltada ao tema. Foram sancionadas mais de cinco leis com impacto sobre a vida das mulheres, incluindo um pacote com três projetos voltados ao combate à violência de gênero. Entre as medidas estão o uso imediato de tornozeleira eletrônica para agressores e a tipificação do vicaricídio — assassinato de filhos ou parentes como forma de violência doméstica.

Outras iniciativas incluem a publicação, em fevereiro, de um decreto que aprimora o funcionamento do Ligue 180, canal de denúncias de violência contra a mulher, além da criação do Dia Nacional de Luto e de Memória às Mulheres Vítimas de Feminicídio, celebrado em 17 de outubro. Neste mês, o presidente também sancionou a regulamentação da profissão de doula, responsável pelo acompanhamento de gestantes e parturientes.

No campo institucional, o Palácio do Planalto promoveu um seminário interno sobre feminicídio, organizado pelo chamado Conselhão, vinculado à Secretaria de Relações Institucionais. O evento contou com espaços separados para homens e mulheres, com a participação de Lula e Janja em grupos distintos durante as atividades.

A pauta feminina também foi incorporada a ações na área esportiva. O governo encaminhou ao Congresso um projeto com medidas relacionadas à realização da Copa do Mundo Feminina da Fifa de 2027 no Brasil. Durante evento com campeões mundiais no Planalto, havia a expectativa de apresentação do troféu da competição feminina, o que não ocorreu por questões logísticas.

A influência da primeira-dama foi mencionada publicamente pelo presidente em diferentes ocasiões. Em um evento em Pernambuco, em dezembro, Lula relatou: “Eu acordei domingo para tomar café e no café a Janja começou a chorar. De noite, vendo o Fantástico, a Janja voltou a chorar. Ontem, ela voltou a chorar. E hoje, no avião, ela pediu para mim: 'Assuma a responsabilidade de uma luta mais dura contra a violência do homem contra a mulher no planeta Terra'”.

Apesar da ampliação de políticas e discursos voltados às mulheres, a composição ministerial do governo segue majoritariamente masculina. Após mudanças recentes, o número de mulheres à frente de ministérios caiu de 10 para 8, em um total de 38 pastas. Parte das substituições ocorreu com a saída de ministras para disputas eleitorais, sendo que quatro foram substituídas por homens.

A discussão sobre maior presença feminina também se estendeu ao Judiciário. Setores da sociedade defenderam a indicação de uma mulher para o Supremo Tribunal Federal (STF), mas Lula optou por nomes masculinos nas duas indicações realizadas até o momento.