Lula aponta comércio e energia como eixos da relação com Bolívia
Presidente brasileiro recebe Rodrigo Paz em Brasília e afirmou que integração sul-americana é “necessidade histórica”
247 - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta segunda-feira (16) que a integração entre países sul-americanos é essencial para o desenvolvimento econômico e político da região. A declaração foi feita durante pronunciamento à imprensa por ocasião da visita de Estado do presidente da Bolívia, Rodrigo Paz, em Brasília.
Na abertura do discurso, Lula deu as boas-vindas ao chefe de Estado boliviano e à delegação formada por ministros, governadores e empresários. O presidente brasileiro lembrou que os dois já haviam se encontrado em janeiro, durante um evento regional no Panamá, e destacou o simbolismo da escolha do Brasil como destino da primeira visita bilateral de Paz após assumir o cargo.
O presidente brasileiro também recordou o histórico de relações entre os dois países ao mencionar o ex-mandatário boliviano Jaime Paz Zamora, pai de Rodrigo Paz, que visitou o Brasil em 1990. Segundo Lula, a relação entre as duas nações vai além da diplomacia formal e se manifesta em uma extensa fronteira comum. “Bolívia e Brasil são o ponto de encontro entre a Amazônia, o Pantanal, os Andes e o Cone Sul”, afirmou. “Essa não é apenas uma linha no mapa. É uma fronteira viva, que conecta povos, culturas e economias”
Com mais de 3.400 quilômetros de extensão, a fronteira entre os dois países conecta os estados brasileiros do Acre, Rondônia, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul aos departamentos bolivianos de Pando, Beni e Santa Cruz. Lula destacou que o intercâmbio econômico ainda está abaixo do potencial. “Em 2013, tínhamos um intercâmbio de 5 bilhões e meio de dólares. Ano passado, esse valor foi de apenas 2,6 bilhões. Estamos atuando para reverter esse quadro”, declarou
Entre as iniciativas para ampliar os negócios, Lula citou a participação de mais de 100 empresas brasileiras na Expocruz, em Santa Cruz de la Sierra, em 2025, e a presença de 120 empresários bolivianos na comitiva presidencial durante a visita ao Brasil. Eles participarão de um fórum empresarial em São Paulo, voltado à ampliação das parcerias comerciais entre os dois países.
O presidente também destacou oportunidades em setores como alimentos, lácteos, sementes, frutas, algodão, cana-de-açúcar e soja, além da cooperação em biotecnologia com apoio da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Lula afirmou ainda que o novo Sistema Brasileiro de Crédito à Exportação, aprovado recentemente pelo Congresso, ampliará o financiamento às exportações por meio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), aumentando a competitividade internacional das empresas brasileiras.
No campo da infraestrutura, Lula relembrou que inaugurou, em 2004, a primeira ponte entre os dois países, ligando Brasiléia, no Acre, à cidade boliviana de Cobija. O presidente anunciou também o avanço de um novo projeto de integração. “Ano passado, assinei a ordem de serviço para construir a segunda ponte entre nossos países, cujas obras terão início em 2027”, disse, referindo-se à travessia sobre o rio Mamoré que conectará Guajará-Mirim, em Rondônia, a Guayaramerín, no departamento de Beni.
A nova ponte integra o projeto das Rotas de Integração Sul-Americana e poderá facilitar o acesso de produtores brasileiros e bolivianos aos portos do Chile e do Peru, abrindo caminho para o comércio com mercados asiáticos. Lula também afirmou que o Brasil propôs um acordo tripartite com Bolívia e Paraguai para melhorar a navegabilidade da hidrovia do rio Paraguai, incluindo intervenções no Canal Tamengo.
Outro tema central do encontro foi a cooperação energética. Lula destacou a importância histórica da atuação da Petrobras no desenvolvimento do setor de hidrocarbonetos boliviano e afirmou que o país continua sendo o maior fornecedor de gás natural ao Brasil. “Conversamos sobre a possibilidade de ampliar investimentos nessa área e incrementar o volume exportado para o mercado brasileiro”, disse.
Segundo Lula, o Gasoduto Brasil–Bolívia, que contribuiu para o crescimento industrial brasileiro e para o setor energético boliviano, pode ganhar novas funções, inclusive abastecer uma eventual fábrica de fertilizantes que o governo boliviano planeja instalar em Puerto Quijarro. Os dois países também avançaram em um acordo para interligar seus sistemas elétricos, com a construção de uma linha de transmissão entre a província boliviana de Germán Busch e o município brasileiro de Corumbá.
O presidente brasileiro afirmou ainda que o Brasil está disposto a cooperar com a Bolívia no desenvolvimento de biocombustíveis e outras fontes renováveis. Segundo ele, a diversificação energética contribuirá para a segurança no abastecimento e para a descarbonização das economias da região.
A cooperação também inclui ações de segurança pública na fronteira. Lula explicou que o acordo assinado durante a visita prevê maior coordenação no combate ao crime organizado, ao tráfico de drogas e de pessoas, contrabando, roubo de veículos, lavagem de dinheiro, mineração ilegal e crimes ambientais.
Ao tratar da dimensão social da relação bilateral, o presidente destacou a presença de milhares de brasileiros em universidades bolivianas, especialmente em cursos de medicina. Segundo ele, essa mobilidade acadêmica fortalece os laços entre os dois países e amplia o intercâmbio cultural.
Os dois governos também assinaram um memorando de entendimento sobre cooperação turística. Lula citou como exemplo o potencial de intercâmbio entre destinos simbólicos dos dois países. “Queremos que mais turistas bolivianos conheçam a nossa Copacabana carioca; e que mais brasileiros visitem a Copacabana andina, histórica cidade às margens do Lago Titicaca”, afirmou.
Em seu pronunciamento, Lula também destacou a importância da integração regional no cenário internacional. “O presidente Paz e eu concordamos que a integração regional não é um projeto ideológico. É uma necessidade histórica”, declarou. “Em um mundo cada vez mais competitivo, nenhum país da nossa região terá condições de prosperar isoladamente”
Nesse contexto, o presidente brasileiro classificou como “um passo histórico” a adesão da Bolívia ao Mercado Comum do Sul (Mercosul), afirmando que o bloco ganha mais autonomia estratégica diante das instabilidades do mercado global. Lula também mencionou o papel da Comunidade de Estados Latino‑Americanos e Caribenhos (Celac) na articulação regional e confirmou sua participação na próxima cúpula do grupo, prevista para 21 de março em Bogotá.
Por fim, o presidente brasileiro ressaltou a responsabilidade compartilhada de Brasil e Bolívia na proteção da Amazônia e de sua biodiversidade, tema que também orienta a atuação dos países na Organização do Tratado de Cooperação Amazônica. Ao concluir, Lula desejou sucesso ao governo boliviano e destacou o compromisso com a democracia na região.
“Sem amarras ideológicas, sem ódio e sem violência, construiremos uma América Latina pacífica, integrada e próspera”, afirmou. “Desejo muita sorte ao presidente Rodrigo Paz nesse mandato que se inicia e felicidades ao povo boliviano”