Marcia Tiburi: Bolsonaro será tirado do poder quando não for mais útil ao projeto neoliberal

Em entrevista coletiva nesta quinta-feira (4) em Paris, a ex-candidata ao governo do Rio de Janeiro pelo Partido dos Trabalhadores (PT) Marcia Tiburi – filósofa, feminista e escritora –, detalhou as ameaças de morte e o assédio de extremistas de direita que a levaram a se autoexilar nos Estados Unidos, em dezembro passado

Marcia Tiburi: Bolsonaro será tirado do poder quando não for mais útil ao projeto neoliberal
Marcia Tiburi: Bolsonaro será tirado do poder quando não for mais útil ao projeto neoliberal (Foto: Andrea Nestrea)

Adriana Moysés (RFI) - Em entrevista coletiva nesta quinta-feira (4) em Paris, a ex-candidata ao governo do Rio de Janeiro pelo Partido dos Trabalhadores (PT) Marcia Tiburi – filósofa, feminista e escritora –, detalhou as ameaças de morte e o assédio de extremistas de direita que a levaram a se autoexilar nos Estados Unidos, em dezembro passado.

Tiburi recebeu o convite para a coletiva da Fundação Jean Jaurès, um centro de estudos parisiense sobre movimentos sociais comprometido com a defesa do pluralismo e dos valores democráticos. O juiz Rubens Casara, marido da filósofa, que faz atualmente um pós-doutorado na Universidade de Nanterre, também falou sobre o contexto político brasileiro a convite do diretor do Observatório da América Latina na fundação, Jean-Jacques Kourliandsky, pesquisador do Instituto de Relações Estratégicas Internacionais (Iris).

Para a filósofa, o que está acontecendo no Brasil hoje não é um acaso. "O que ocorreu no Brasil depois das jornadas de junho de 2013 e a polarização da sociedade, que levou ao impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT), foi um processo implantado por um plano ultraneoliberal que faz parte da trajetória do capital internacional", estima Tiburi.

Em sua avaliação, a esquerda brasileira precisa realizar uma profunda autocrítica dos seus princípios e do perigo que esse momento histórico representa, com um presidente de extrema direita no poder e um movimento ultraneoliberal alimentando grupos fascistas em várias regiões do mundo. "Entendo por princípios discutir com lisura e cuidado o que ela mesmo tem feito pela evolução do Brasil", explicou.

Segundo ela, o PT pode apoiar candidatos de outros partidos, porque não busca simplesmente uma hegemonia partidária e, sim, "construir uma vida mais justa para os cidadãos brasileiros pobres, pessoas que hoje passam fome e necessidade no Brasil".

"O governo atual é um governo de canalhas, de mafiosos, que orquestraram um processo de destruição da Constituição, da Justiça, das instituições e tomaram o poder como velhos príncipes e fazem o que querem, como figuras sem a menor dignidade", destacou Tiburi. A filósofa recomenda aos brasileiros "entender os jogos de poder que estão em cena".

Tiburi afirma que não pedirá o impeachment de Bolsonaro. "Querendo ou não, a população desejou esse presidente." Ela lastima que o Brasil esteja vivendo em "estado de exceção", governado por uma figura "patética" como Bolsonaro. Mas isso não irá mudar agora.

"Duvido que ele sofra um impeachment se não houver outros interesses em jogo. Ele será retirado no momento que tiver cumprido seu papel, quando não for mais interessante para os interesses do projeto neoliberal, e outros jogos de poder entrarem em cena", acredita.

Assédio e ameaças de morte

Tiburi contou que os problemas envolvendo sua segurança no Brasil começaram a partir de 2015, quando já estavam claras as manobras no Congresso para derrubar o governo de Dilma Rousseff e ela publicou, em outubro daquele ano, o livro "Como conversar com um fascista” (Record). Naquele momento, a sociedade brasileira já estava polarizada – um processo que ela insiste ter sido implantado intencionalmente no Brasil. A filósofa passou, então, a ser assediada por militantes do MBL (Movimento Brasil Livre) nas redes sociais.

O livro, com título provocativo, fala do autoritarismo na vida cotidiana e busca alertar a cultura e a sociedade "para o perigo que todos estavam correndo", explicou Tiburi. Nessa época, era ela afiliada ao PSOL, mas por divergências com colegas do partido favoráveis à Lava Jato – que acabou prendendo o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva –, passou a defender com veemência "a manutenção do governo eleito do PT e a figura histórica de Dilma Rousseff, primeira mulher eleita à Presidência do Brasil". "Nossa esquerda não percebe o momento histórico que estamos vivendo, por isso passei a defender Lula e Dilma e me desliguei do PSOL."

Tiburi segue dando aulas de filosofia na universidade, opta por "não dar consistência" ao assédio persistente nas redes sociais, e publica mais dois livros: "Ridículo Político" (Record, 2017) e “Feminismo em Comum” (Rosa dos Tempos, 2018). A atividade de escritora faz com que ela viaje pelo país para participar de dezenas de eventos literários. E, como ela mesmo destaca, se pronuncia "muito na mídia", alertando sobre as manobras políticas que ameaçavam o Brasil de um retrocesso histórico.

A intimidação contra Tiburi aumenta a partir de uma data precisa: 24 de janeiro de 2018. Naquele dia, em Porto Alegre para acompanhar o julgamento que condenou o ex-presidente Lula a 12 anos e 1 mês de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso do tríplex do Guarujá, e para participar de um evento literário, Tuburi sofre uma forte agressão. Membros do MBL invadem a emissora de rádio onde ela está dando uma entrevista sobre seu livro “Feminismo em Comum”, e a espiral da violência se instala.

Campanha de ódio

"Esse movimento protofascista [MBL], verdadeiros milicianos midiáticos que usam celulares para fazer sabotagem e guerrilha nas redes sociais, criou uma campanha de fake news contra mim, montando vídeos e memes com falas minhas recortadas e descontextualizadas, produzindo um clima de ódio contra mim que passou a circular em milhares de links", relata.

"Publicaram minha foto no site do movimento e declararam perseguição à minha pessoa no país inteiro. Em alguns eventos literários, eles faziam fila para pegar senha e sentavam na plateia entre o público; de repente, saltavam das cadeiras, faziam 'flash mobs' vestindo as máscaras de Kim Kataguiri, o líder deles, hoje deputado. Tivemos de chamar a polícia, aconteceram cenas de violência entre as pessoas presentes. Precisei contratar seguranças armados, fazer a campanha para o governo do Rio em carro blindado", relata. Pelo Messenger, recebeu ameaças do tipo: "Quando eu te encontrar, vou te dar um tiro no meio da testa" ou "quando você estiver assinando um livro, vou te matar". A ex-vereadora Marielle Franco (PSOL) tinha sido assassinada em março.

Sabendo desse "estado de coisas", uma instituição americana que protege escritores perseguidos em todo o mundo convidou Tiburi a se instalar nos Estados Unidos, para onde ela foi em dezembro.

"Nosso país é vergonhosamente racista, misógino, homofóbico, escravagista e agora fascista", constata. Tiburi disse ter tentado alertar a sociedade brasileira sobre essa evolução, e também acusa a esquerda de misoginia. "Até no PSOL, um partido que dá espaço para mulheres negras, sofri discriminação dos coronéis, que têm um projeto de poder de homem branco e personalizado", comentou.

Após as críticas feitas ao casal por estarem em Paris, Tiburi disse que veio visitar o marido e não sabe se quer ficar na França. "Rubens também está sendo perseguido com seu pós-doutorado investigado por uma comissão do MEC", contou. Casara tirou uma licença remunerada de dois anos do Tribunal de Justiça do Rio, "como fazem 'zilhões de juízes no Brasil'", lembrou a filósofa.

Ela continua dedicada à carreira de escritora. Há um mês, lançou seu novo livro "Delírio do Poder" (Record), com prefácio assinado pelo ex-presidente Lula.

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