HOME > Brasil

Marina herdou eleitores de Aécio mas despencou depois de apoiar o golpe

Em nova análise sobre as pesquisas eleitorais desde 2015, Thais Moya e Mauro Lopes analisam o caso Marina: grande herdeira do espólio de Aécio, o que lhe garantiu um destaque nas pesquisas até o início de 2016, ela perdeu a base que lhe era fiel desde 2010 ao apoiar o golpe, e iniciou sua decadência 

Marina herdou eleitores de Aécio mas despencou depois de apoiar o golpe

Por Thais Moya e Mauro Lopes- Em uma das primeiras pesquisas depois das eleições de 2014, Aécio Neves registrava liderança isolada com 35% das intenções de votos, seguido por Lula (26%) e Marina (18%).

Um fato muito curioso e pouco explorado pela imprensa e analistas é que nas mesmas pesquisas, quando o cenário apresentou Alckmin, no lugar de Aécio, a intenção do tucano paulista já era bem inferior: 20%. Ou seja, Alckmin, desde o início, apresentou pequeno potencial de ser herdeiro de Aécio, deixando esvair pelas mãos 15% do eleitorado do mineiro. Em outras palavras, em junho de 2015, Aécio tinha em torno de 52 milhões de eleitores, enquanto Alckmin tinha 30 milhões; expressivos 22 milhões de votos a menos.

Elaborado por Thais Moya e Mauro Lopes, 2018. Fonte: Pesquisas eleitorais Datafolha 2015 a 2018. Ver http://datafolha.folha.uol.com.br/eleicoes/2018/presidente/indice-1.shtml, acesso em agosto de 2018.

Se os votos de Aécio não migraram para Alckmin, para onde foram?

É possível afirmar que, em 2015, em torno da metade do eleitorado de Aécio, que não migrou para Alckmin, escolheu Marina como candidata. Em junho, Marina salta de 18%, em cenário com Aécio, para 25% no cenário com Alckmin; o mesmo acontece em novembro e dezembro, quando Marina cresce automaticamente uma média de sete pontos percentuais nos cenários sem Aécio.

A outra parte do eleitorado que o PSDB perdeu quando os cenários apresentavam Alckmin se deslocou para a esfera da desilusão (nulos, brancos e nenhum) e para outros candidatos nanicos. Note que o eleitorado de Lula pouco ou quase nada varia quando o candidato tucano é alterado, assim como o eleitorado indeciso; igualmente o de Bolsonaro, que começou a ser computado em dezembro de 2015.

Em 2016, a tendência permanece com pouca alteração de Bolsonaro e indecisos; assim como Marina permanece ganhando votos diretos quando enfrenta Alckmin e não Aécio -e o fluxo do restante segue para nanicos e desiludidos. Há apenas uma variação gritante: Lula, que iniciara o ano com queda, chegando a 17%, em março, mas que, a partir da sua ilegal condução coercitiva, no mesmo mês, iniciou um crescimento que atingiu 25% em dezembro, ou seja, um aumento de 12 milhões de eleitores em oito meses.

Elaborado por Thais Moya e Mauro Lopes, 2018. Fonte: Pesquisas eleitorais Datafolha 2015 a 2018. Ver http://datafolha.folha.uol.com.br/eleicoes/2018/presidente/indice-1.shtml, acesso em agosto de 2018.

Se Marina herdou parte considerável dos votos que foram do PSDB em 2014, porque, hoje, seu eleitorado dificilmente atinge 10%?

O alinhamento entra as curvas de Marina nas pesquisas e seu comportamento público deixam patente: custou-lhe muito caro seu apoio ao golpe de Estado que derrubou Dilma Roussef. Desde então seu potencial eleitoral tem desmoronado. É possível que ela tenha feito o cálculo de que uma aproximação mais marcante com o antipetismo lhe renderia ainda mais dos espólio de Aécio, Mas ela negligenciou o perfil do seu eleitorado mais fiel, que lhe acompanhava desde 2010 e que, se não é petista, não concorda com o processo golpista que se instalou no país.

Elaborado por Thais Moya e Mauro Lopes, 2018. Fonte: Pesquisas eleitorais Datafolha 2015 a 2018. Ver http://datafolha.folha.uol.com.br/eleicoes/2018/presidente/indice-1.shtml, acesso em agosto de 2018.

Nos últimos anos, portanto, Marina teve uma mudança de perfil em seu eleitorado, e, aparentemente, hoje, possui a parcela aecista que se decepcionou com o PSDB e, consequentemente, com Alckmin, mas não foi percebida como uma figura capaz de agregar as alas mais conservadoras do país e do eleitorado; ao mesmo tempo em que perdeu eleitores que discordam de seu posicionamento em relação ao golpe.

Marina parece tão esvaziada de conteúdo e sentido quanto Alckmin; ambos têm procurado seu rebanho perdido em celeiros errados.