'Mito' do herói honesto é soterrado por acusações e trapalhadas

A campanha de Bolsonaro caminhava sobre a uma montanha sob risco iminente de uma avalanche, sem que o eleitorado disso soubesse e sob um cerco de proteção das elites e da mídia conservadora; mas a terra ruiu, veio a avalanche e o "mito" caiu montanha abaixo; o mito do homem honesto está soterrado sob toneladas de denúncias e debaixo de uma sequência de trapalhadas e barbaridades raramente vistas na cena política nacional. Será o suficiente para abalar sua candidatura? Ele irá muito enfraquecido para o segundo turno ou sequer passará pela peneira do primeiro?

'Mito' do herói honesto é soterrado por acusações e trapalhadas
'Mito' do herói honesto é soterrado por acusações e trapalhadas (Foto: REUTERS/Leonardo Benassatto)
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Por Mauro Lopes, editor do 247 - A campanha de Bolsonaro caminhava sobre a uma montanha sob risco iminente de uma avalanche, sem que o eleitorado disso soubesse e sob um cerco de proteção das elites e da mídia conservadora. Mas a terra ruiu, veio a avalanche e o "mito" caiu montanha abaixo. O mito do homem honesto está soterrado sob toneladas de denúncias e debaixo de uma sequência de trapalhadas e barbaridades raramente vistas na cena política nacional. Será o suficiente para abalar sua candidatura? Ele irá muito enfraquecido para o segundo turno ou sequer passará pela peneira do primeiro?

Cedo para dizer, teremos que esperar pelas próximas pesquisas. O eleitorado de Bolsonaro parece em boa medida operar numa bolha, infenso ao mundo exterior, que enxerga como uma ameaça, cercado por inseguranças, medos e ódio contra a esquerda, o comunismo, a liberdade sexual, a cultura. O sociólogo Marcos Coimbra, diretor do instituo Vox Populi, acredita que o mais provável é um enfraquecimento de Bolsonaro, sem que a avalanche consiga tirá-lo do segundo turno.

Foi uma sucessão vertiginosa.

De "homem honesto" e "candidato da família" a acusado pela ex-mulher de furto, violência, indício claro de corrupção (aqui).

De candidato fascista a caminho de uma candidatura de perfil neoliberal a líder de uma trupe de patetas. Seu economista-chefe, o ex-posto Ipiranga Paulo Guedes, causou um desastre de enormes proporções ao propor a recriação da CPMF e uma mudança nas regras do Imposto de Renda mais regressivas que já se tem conhecimento. O general do capitão, seu candidato a vice, tornou-se uma usina de desastres, da defesa de um golpe militar a uma Constituinte sem eleição, de xingamentos a indígenas e quilombolas a ofensas a mães e avós chefes de família, até o último desastre, o ataque frontal ao 13º salário. Uma confusão tamanha que ambos, posto Ipiranga e general, foram recolhidos ao silêncio por ordem expressa de Bolsonaro.

O problema da ordem de Bolsonaro é que ela levanta uma questão. Quem manda na campanha? O jornalista José Roberto de Toledo, apontou com precisão e mordacidade: na hierarquia e mentalidade militar capitão não manda em general. "Estivessem ambos na ativa, Bolsonaro seria preso por quebra de hierarquia", escreveu Toledo (aqui). O fato é que Bolsonaro mandou Mourão ficar quieto há pelos menos duas semanas. E o general ignorou solenemente até agora.

O mito está soterrado. Até a mídia conservadora, que vinha tratando-o com a deferência de Bolsonaro ter se tornado seu "plano B" depois que Alckmin naufragou, perdeu a paciência e começa a produzir manchetes contra o ex-mito. A revista Veja, à beira da falência, deixou de lado por uma semana seu ódio a Lula para dedicar uma rara capa a outro tema: o processo da ex-mulher contra o capitão.

As revelações da reportagem a partir do processo movido por Ana Cristina Siqueira Valle no processo de separação de Bolsonaro em ação a partir de abril de 2008 são contundentes. As acusações de Ana Cristinar relatadas em Veja: 

• Bolsonaro ocultou patrimônio pessoal da Justiça Eleitoral em 2006. Quando foi candidato a deputado federal, declarou que tinha um terreno, uma sala comercial, três carros e duas aplicações financeiras, que somavam, na época, 433 934 reais. Sua ex-mulher, no mesmo processo, anexou uma relação de bens e a declaração do imposto de renda do ex-marido, mostrando que seu patrimônio incluía também três casas, um apartamento, uma sala comercial e cinco lotes. Os bens do casal, em valores de hoje, somariam cerca de 7,8 milhões de reais.

• Bolsonaro tinha uma "próspera condição financeira" quando era casado com Ana Cristina, segundo ela própria. A renda mensal do deputado chegava a 100 000 reais — cerca de 183 000 reais, em valores atualizados. Na época, oficialmente, Bolsonaro recebia 26 700 reais como deputado e 8 600 reais como militar da reserva. Para chegar aos 100 000 reais, diz a ex-mulher, Bolsonaro recebia "outros proventos", que ela não identifica.

• Bolsonaro, de acordo com Ana Cristina, furtou seu cofre numa agência do Banco do Brasil, em outubro de 2007, e levou todo o conteúdo: joias avaliadas em 600 000 reais, 30 000 dólares em espécie e mais 200 000 reais em dinheiro vivo — totalizando, em valores de hoje, cerca de 1,6 milhão de reais. O cofre ficava na agência do Banco do Brasil da Rua Senador Dantas, no centro do Rio. Seu conteúdo é incompatível com as rendas conhecidas do então casal.

• Bolsonaro era um marido de "comportamento explosivo" e de "desmedida agressividade". Essa foi a razão que levou Ana Cristina a separar-se, segundo ela mesma informa.

Bolsonaro conseguirá, mesmo assim, ir ao segundo turno? Resposta em uma semana.

  

 

 

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