Mobilidade Urbana na Copa

As obras para o Mundial de 2014 correm o risco de sofrer um grande descontrole de verba. Sugiro aqui um debate sobre os gastos para solucionar os gargalos da mobilidade nas cidades que irão sediar o evento

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Tendo em vista toda a repercussão sobre o possível descontrole de gastos com obras para a Copa, o que vai além dos estádios, sugiro um debate sobre os gastos para solucionar os gargalos da mobilidade urbana nas cidades que vão sediar o Mundial em 2014. Até lá, há um corre-corre nos bastidores e projetos que já estavam definidos correm o risco de serem trocados por modais bem mais caros, pouco eficientes e inviáveis de serem implantados no prazo necessário. Há aí uma guerra de interesses de empreiteiras e governantes e o risco de desperdício de muito dinheiro público. Em paralelo, há a disputa em torno do RDC, sem licitações e muita insegurança jurídica. Nesse sentido, a suspensão pela Justiça das obras do terceiro terminal de passageiros em Cumbica, no final do ano passado, é um bom exemplo.

Descritivo

Como opção para a mobilidade urbana, as cidades contam com os BRT (Bus Rapid Transit) ou corredores exclusivos de ônibus; corredores expressos de ônibus limitados por faixas exclusivas; os VLT (Veículos Leves sobre Trilhos); os monotrilhos (que são trens sobre trilhos ou rodas que correm em vias expressas suspensas) e o metrô. Entre as 12 cidades-sede, nove tinham assumido o compromisso de fazer projetos de BRT. Dessas nove, duas cidades – Salvador e Cuiabá – já anunciaram oficialmente a mudança para o VLT (Veículo Leve sobre Trilhos) ou metrô. Isso significa um aumento de cerca de quatro vezes o valor do projeto original. Segundo o escritório Jaime Lerner Arquitetos Associados, o custo para implantação de um BRT é de R$ 11 milhões por quilômetro, enquanto que o VLT consome R$ 40 milhões. Em Cuiabá, o custo da obra pula de R$ 488 milhões para declarado R$ 1,1 bilhão.

Repetir o erro da África do Sul

Além do custo, há ainda uma questão importante a se considerar. Estudiosos afirmam que não há mais tempo hábil para a implantação de VLTs, já que são necessários cerca de cinco anos para a finalização da obra, enquanto os corredores BRT levam apenas um ano para serem implantados. A África do Sul amargou prejuízos enormes – após terem contratado projetos milionários para a COPA do Mundo 2010, os projetos tiveram de ser substituídos por corredores de ônibus no ultimo minuto do segundo tempo.

BRT – modal que dá certo

Desde 1974, opera na região na Grande São Paulo o corredor ABD, um corredor de ônibus exclusivo no sistema BRT (Bus Rapid Transit), fisicamente segregado do trânsito comum, que há anos vem dividindo com o Metrô a liderança na preferência dos usuários nas pesquisas. Com 33 km de extensão, o corredor liga as zonas Leste (São Mateus) e Sul (Jabaquara) de São Paulo, passando pelas cidades de Santo André, Mauá, São Bernardo do Campo e Diadema, no ABC.

O sucesso desse modal inspirou o governo do Rio de Janeiro, que também será sede dos Jogos Olímpicos em 2016. No início de setembro, o secretário de transportes carioca visitou as instalações do corredor ABD. Quatro grandes corredores BRT serão construídos no Rio - com os nomes de TransOeste, TransCarioca, TransOlímpica e TransBrasil -, somando 155 km de vias exclusivas para ônibus.Curiosamente, o governo do estado de São Paulo pretende “levar o Metrô” ao ABC implantando uma via de monotrilho ligando a região à estação Tamanduateí do Metrô.

Monotrilhos / VLTs:

Diante dessa situação pontual que vive o Brasil, indico os aspectos que merecem ser levados em conta na apuração:

- Especialistas apontam que o uso de VLT (veículo leve sobre trilhos) ou monotrilho para situações como essa vai na “contramão do mundo”. É uma obra cara, demorada e pouco eficiente para o transporte urbano pela capacidade limitada.

- As obras para VLT ou monotrilho são muito mais caras do que obras para corredores exclusivos de ônibus (BRT – Bus Rapid Transit), um sistema que poderia atender perfeitamente a demanda da cidade, com implantação infinitamente mais rápida e barata.

- Os poucos monotrilhos com aplicação urbana que deram certo no mundo custaram mais do que o previsto inicialmente e foram projetados para serem erguidos sobre largas avenidas, que não tinham muitos obstáculos para a construção. É uma realidade não compatível com a situação da Grande São Paulo.

- Outros projetos de monotrilho e VLT foram abandonados por absoluta inviabilidade econômica, casos de cidades como Bancóc, Jacarta, Seattle, Las Vegas e Johanesburgo, entre tantos outros, depois de inúmeros processos de falências e escaladas de preço.

- Grécia e Dubai, que têm projetos megalômanos, sofrem com dificuldades para pagar os investimentos feitos em monotrilho e metrô-leve.

- Os projetos feitos para a Copa do Mundo de 2010 da África do Sul foram substituídos quase de última hora por corredores de ônibus, depois de melhor avaliados.

- No ano passado, o governo do Rio de Janeiro conheceu de perto o corredor ABD, pois na capital carioca estão sendo construídos 4 enormes trechos de BRT que vão fazer a interligação da cidade. (Esse vídeo é super interessante para entender o projeto do RJ. Veja aqui)

Desdobramentos

- Quem vai pagar a conta se esses projetos de São Paulo se somarem à enorme lista de obras abandonadas e falidas pelo mundo?”

- No Brasil, Manaus teve seu monotrilho barrado pelo Ministério Público e pelo Tribunal de Contas. Salvador tem um projeto de metrô aéreo se arrastando por 10 anos sem conclusão e a um custo três vezes maior que o inicialmente planejado.

 

Adalberto Maluf é Diretor da Fundação Clinton, Coordenador da Rede C40 no Brasil (rede que reúne os prefeitos das 40 maiores cidades do mundo para o combate às mudanças climáticas) e especialista em políticas de mobilidade urbana. É também pesquisador do Instituto de Relações Internacionais da USP.

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