Muita rebeldia para pouca causa

Contra a polícia, contra o reitor, contra a mídia, contra, contra, contra. Ótimo. É bom ser do contra. Mas os estudantes da USP foram favoráveis a que, mesmo?

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Talvez por terem ido juntos ao cinema assistir o excelente documentário “Rock Brasília”, do paraibano Wladimir Carvalho, os estudantes da Universidade de São Paulo (USP) decidiram organizar uma “roconha” dentro da Academia e, flagrados, deram início a um escarcéu dos mais vergonhosos para a juventude brasileira. Em primeiro lugar porque, diferente dos enfrentamentos com policiais protagonizados na Universidade de Brasília (UnB), inseridos no filme de Carvalho, o quebra-quebra da USP acabou saindo pela culatra: foi muito vandalismo por nada.

Desde o primeiro momento, imagens flagraram o “fora PM” de forma desastrosa. No meio da multidão, alguém lança um cavalete de madeira sobre policiais e está armada a confusão. Depois, feito meninos birrentos, os estudantes decidem invadir prédios da Universidade, jogar pedras nos carros da polícia, fechar acessos com pedras e paus, quebrar placas do Campus em que estudam e deveriam zelar, queimar bandeiras e esconder o rosto. Tudo porque um grupo de amigos que fumava maconha foi detido? Bem, pensemos: se essa juventude tem força para fazer tudo isso diante de um motivo tão pífio, o que fariam em uma mobilização tipo “fora corruptos” ou “abaixo o analfabetismo”. Uma revolução, não? Que nada.

Contra a polícia, contra o reitor, contra a mídia, contra, contra, contra. Ótimo. É bom ser do contra. Mas eles foram favoráveis a que, mesmo? Houve quem bradasse “fumar maconha não é crime”. Bem, quem quiser se valer de códigos, leis e afins fique à vontade, mas invadir e depredar prédio público, desacatar policial, negar o direito de ir e vir dentro de uma instituição pública, aberta, é crime – gostemos ou não das premissas. E mais: se não pode fumar maconha no morro porque poderia na USP? E isso vale para qualquer morro e Universidade do País. Há quem reclame que os estudantes uspianos estariam sendo tratados como filhinhos de papai. Melhor seria filhinhos de mamãe, pois pelas carinhas de mimados e ideais do tipo “colegial” não há melhor definição. Barbudos e feios no colinho da mama.

Uma imagem chamou a atenção. Depois da desocupação do prédio, mais de 70 detidos, a grafitagem na parede do edifício-sede dos rebeldes mostrava três estudantes virando uma viatura da polícia. Nas camisas dos alunos-desenho, todos devidamente encapuzados, símbolos do Anarquismo, do Comunismo e uma frase: “fora PM”. Aliás, essa parece ter sido a frase-motora de todo o movimento que parou a maior Universidade brasileira. Talvez a única. O relato de um jornalista que assistiu a uma das assembleias dos rebeldes uspianos revelou a falta de base de sustentação do protesto-pro-canabis. Um dos estudantes, ao pegar o microfone, sugeriu expandir o movimento “fora PM” para alunos secundaristas de São Paulo. A grande ideia? “Fora patrulha escolar”. É ou não é o máximo do ridículo?

Sim, a polícia é mal preparada para lidar com a população, sob pressão. Sim, há um governo direitista que manipula e faz crer que qualquer motim é contra a sociedade paulistana, mas qual é mesmo o resultado de tantos “foras”? Prisões, mais gente posando para a foto diante do paredão de policiais da tropa de choque e alguém inspirado na novela “Amor e Revolução” oferecendo uma flor ao policial? Tudo tão ensaiadinho e pastelão. Se a polícia é ruim, briguemos pela sua melhoria, não contra ela. Se o político é corrupto, saiam às ruas para retirá-lo do poder. Esmurrá-lo não vai nos livrar dele. Esconder-se em um prédio com panos encobrindo os rostos é uma atitude meramente covarde. Nem mesmo a turma da USP do período da ditadura militar, certos dos riscos de tortura e mesmo morte, chegou a isso. Todo mundo de cara limpa diante dos soldados armados, amados ou não. Já não se fazem mais causas para rebeldes como antigamente.

Henrique França é jornalista, mestre em Ciência da Informação e professor universitário. Autor do blog #CotidianaMente

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