Novo mecenas do futebol brasileiro fez fortuna com clonagem de cartão e tem condenação por corrupção

Do grupo ME RJ Importação e Distribuição foi aberta em Portugal a Diz Ros Importação e Exportação, que comprou o Azeite Royal. No Brasil, a marca responde pelo logotipo no uniforme de quatro clubes do Rio, por exemplo. Eduardo Vinícius Giraldes Silva, à frente do “Azeite Royal”, aparece como membro de uma organização criminosa que atuou em clonagem de cartões

Eduardo Vinícius Giraldes Silva
Eduardo Vinícius Giraldes Silva (Foto: Divulgação)

Por Lúcio de Castro, Sportlight - Muito antes do azeite, um mar de lama envolveu o novo mecenas do futebol brasileiro.

A ficha criminal é ampla:

Falsificação de documentos, furto qualificado, furto mediante fraude, associação criminosa. E uma evolução patrimonial atípica, apontada em processo na justiça, depois de denúncia do Ministério Público Federal (MPF) por lavagem de dinheiro e sonegação, que levou a condenação em segunda instância no Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2) a 5 anos, 10 meses e 15 dias.

Mesmo com esse prontuário recheado, virou o grande patrono do esporte da noite para o dia. Uma entrada em cena movimentando milhões em tempo recorde:

No Brasil, Eduardo Vinicius Giraldes Silva abriu a ME RJ Importação e Distribuição em 26 de setembro de 2016. Do mesmo grupo, foi aberta dois anos depois em Portugal a Diz Ros Importação e Exportação, com inscrição em 25 de setembro de 2018 na 1.ª Conservatória do Registro Comercial do Porto, conforme os documentos consultados pela reportagem. No ano seguinte da abertura em Portugal, de acordo com o site da própria empresa, a Diz Ros comprou o Azeite Royal. E trouxe a marca para o Brasil.

E em apenas um ano de existência, esse mesmo Azeite Royal já responde pelo logotipo estampado no uniforme dos quatro grandes do Rio (Flamengo, Fluminense, Botafogo e Vasco), do Atlético Mineiro, e ostenta a marca na fachada do Maracanã, túneis e bancos dos reservas. Além de atletas de MMA.

Uma meteórica e agressiva expansão pouco comum em tão pouco tempo e pelas altas somas desembolsadas. Só no Vasco, a estimativa é de R$ 2 milhões pagos para ostentar a marca no uniforme apenas no segundo semestre do ano que passou.

O mistério e a interrogação sobre práticas tão pouco usuais para uma marca recém chegada ao mercado ganham tons ainda mais fortes quando se chega até a história do proprietário.

Eduardo Vinícius Giraldes Silva, o homem que consta à frente do “Azeite Royal”, também é conhecido por “Pisca” ou “Bebezão”. Com essas alcunhas aparece como integrante de uma quadrilha e organização criminosa que atuou na década passada em clonagem de cartões de crédito até começar a ser desbaratada na “Operação Nômade II”, cuja investigação começa em 2009, culminando com ações de busca e apreensão em 17 de janeiro de 2014.

A quadrilha movimentou milhões, de acordo com o processo na justiça.

Tinha como modus operandi instalar as máquinas de cartão de crédito, chamadas de “maquina POS”, do inglês, “point of sale” (ponto de venda) em estabelecimentos comerciais, com alguns de seus membros fazendo se passar por funcionários da Redecard, Visanet ou Ticket.

Vencida essa primeira etapa, entravam em cena outros membros da organização: o que o Ministério Público Federal (MPF) classificou como “núcleo de compradores”. Pessoas que recebiam os cartões de crédito ou débito dos líderes do grupo e iam ao comércio comprar produtos previamente determinados, a serem entregues aos chefes, que repassavam tais mercadorias para uma rede de receptadores com deságio. Os cartões de crédito eram falsificados assim como as máquinas POS também eram adulteradas.

De acordo com a denúncia do MPF, Eduardo Giraldes era peça chave em quadrilha que atuou na falsificação e utilização de cartões de crédito clonados e realização de compras fraudulentas, chegando a ter prisão decretada em 2014. Condenado, aguarda em liberdade o trânsito em julgado.

Trecho do processo:

O papel na quadrilha de “Pisca” ou “Bebezão” era bem definido, de acordo com o que está descrito na sentença de condenação: era o proprietário de máquinas POS modificadas, além de realizar a venda de terminais POS adulterados para membros de outros núcleos da organização.

Trecho do processo:

Além do alto padrão de vida incompatível com a declaração de renda acima descrita, a peça da justiça revela ainda a compra de bens, sempre na zona oeste, como apartamento no Recreio dos Bandeirantes e mansão em Vargem Grande. E uma preocupação permanente em segurança, andando sempre com escolta particular.

E aponta o ano de 2011, portanto antes da entrada no negócio do azeite, como um ano de súbito aumento de circulação de dinheiro nas contas do réu, chegando a acumular R$ 3,5 milhões no período sem o que justificasse e evolução patrimonial de 373% em apenas um ano.

Trecho do processo:

Escutas telefônicas revelaram boa parte do papel e do modus operandi de Eduardo Pisca na quadrilha. A defesa do réu chegou a alegar, como mostram os processos, que a voz em questão nas escutas não era de “Pisca”. No entanto, tal possibilidade foi afastada no curso das investigações, que cruzaram os números de telefones do acusado com as gravações e ainda a quantidade de vezes em que ele ligava para o serviço de “Fone Fácil” do seu banco após ligações em que registrava entrada de dinheiro para saber se o saldo tinha sido movimentado. Todo registro de cruzamento de datas e ligações para o banco está no processo. Como também a reprodução das conversas da quadrilha:

Trecho do processo:

Eduardo Giraldes tem como sócia na ME RJ Importação e Distribuição, Nataly Diz Ros, que aparece nos processos como testemunha de defesa e em colunas sociais como mulher dele. E dá o nome da empresa em Portugal, a Diz Ros, citada no início da reportagem como empresa que comprou o Azeite Royal.

Entre os negócios de Nataly, esteve o “Trailer Rio das Pedras Comércio de Alimentos”, na região de Rio das Pedras, zona oeste do Rio conhecido pela forte atuação de milícias. Já baixado na Receita Federal.

Embora condenado, como o trânsito em julgado ainda não ocorreu, o novo mecenas do futebol brasileiro tem deixado o Brasil frequentemente para o exterior com alegação de viagem de trabalho, sempre solicitando autorização ao Tribunal Regional Federal da 2ª Região – Judicial (TRF) para se ausentar.

Na última autorização, obteve licença para ir ao Porto, em Portugal, na virada do ano. Licença concedida para permanência entre os dias 28 de dezembro até 13 do janeiro corrente. Comprovando e juntando na petição ao desembargador passagens de ida e volta e reserva de hotel.

Além de mecenas do futebol, tem sido também patrocinador de camarotes no carnaval e festas de grande repercussão, sempre freqüentadas pelas chamadas “celebridades” da ocasião e inclusive por políticos.

O histórico do novo mecenas do futebol brasileiro, descrito na condenação de Eduardo Giraldes sobre a origem dos seus recursos e súbita evolução patrimonial, deixa claro que o “compliance”, aquele conjunto de normas corporativas para evitar problemas de reputação com associações indevidas, visando a proteção de uma empresa, ainda é pouco ou nada praticado nos clubes por aqui.

Outro lado: A reportagem tentou ouvir Eduardo Giraldes através da assessoria de imprensa do Azeite Royal, que ficou de enviar respostas para as questões enviadas mas depois não voltou a responder, apesar das inúmeras tentativas.

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