O banqueiro e o torturador

Persio Arida, scio-fundador do BTG Pactual, contou em artigo na Piau o tempo que passou preso no Doi/Codi de Brilhante Ustra; pela Folha, este disse que as histrias so imaginrias, fictcias e delirantes

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Marco Damiani, 247 _ Um dos dois homens nas fotos acima está faltando com a verdade. Antes de julgar a questão propriamente dita, uma busca por seus currículos pode ajudar a dirimir os desmentidos lançados nesta sexta-feira 27, em artigo publicado na página 3 do jornal Folha de S. Paulo, pelo coronel da reserva Carlos Alberto Brilhante Ustra. O próprio é um dos protagonistas da querela. E seu currículo encerra muito mais que, de per si, honrosa condição de coronel da reserva do exército brasileiro. Ustra tornou-se conhecido, nos duros anos da década de 70, como comandante do Codi/Doi do II Exército, em São Paulo. Assumiu, como lembra, orgulhoso, em seu texto, no dia 29 de setembro de 1970. Ficou até 1974, acumulando, mais tarde, quando o regime militar que ele representava já havia caído, nada menos que 502 denúncias de torturas nas dependências sob sua guarda. Em 2008, o coronel tornou-se o primeiro militar brasileiro condenado por seqüestro e tortura, em decisão da 23ª Vara Cível de São Paulo. Antes, na década de 1980, Ustra exerceu o cargo de adido militar do Brasil no Uruguai. Ali, foi reconhecido pela então deputada federal Bete Mendes como o homem que, em pessoa, havia praticado pesados maus tratos contra ela, quando presa no Codi/Doi que ele chefiava.

Na outra foto está Persio Arida. Doutorado pelo Massachusets Institute of Technology (MIT), ele é visto por seus pares como um dos mais brilhantes economistas do País. Para muitos, “o” mais brilhante. Foi um dos formuladores dos planos Cruzado e Real, tendo sido apontado, neste último, ao lado de André Lara Resende, como o criador da URV, a Unidade Referencial de Valor que fez a transição de uma inflação de quatro dígitos para a de um. Hoje, na qualidade de fundador do banco de investimentos BTG Pactual, Arida corre o mundo fechando negócios bilionários, por meio dos quais acumulou grande fortuna.

Esses são os currículos, e a história que divide esses dois homens é a seguinte: Arida narrou, em ensaio de 27 páginas, publicado na revista Piauí, em abril, sob o título Rakudianai (palavra oriental que significa Não é fácil), um drama pessoal com alto valor histórico. Militante da Var-Palmares, a mesma organização guerrilheira a que pertenceu a presidente Dilma Rousseff, Arida contou detalhes de sua prisão na estrutura comandada por Ustra. Foi interrogado, ouviu gritos de torturados e até palestra de um “terrorista arrependido”. Também afirmou que viu o momento em que o militante Edson Leite, o Bacuri, foi levado da unidade para as mãos do temido delegado Sérgio Paranhos Fleury. Dias depois, Bacuri fora morto a tiros, após ter seus olhos azuis arrancados. Arida lembra ter tido ele mesmo mais sorte. Transferido para o Rio de Janeiro, a uma dependência do exército, foi torturado, arrastado nu pelo chão e deixado numa cela fria, sem assistência, numa crescente crise de asma. Na volta, mais um período de isolamento no Codi/Doi de Ulstra até ser libertado depois de responder a inquérito militar. Uma história, como ele menciona logo de início, no artigo, “pouco original”, tantas são as de torturados. Chama atenção, no caso dele, pela riqueza de detalhes, a carga emocional na homenagem aos pais que tentarem protegê-lo da barbárie e, claro, pela projeção que ele alcançou na sociedade.

Ustra, porém, resolveu sair a campo para desmentir Arida. “Muitas dessas lembranças, sem datas, sem nomes, não correspondem à verdade”, registrou. Nega que o banqueiro pudesse ter tido contato com Bacuri, no pátio do Codi/Doi, e classifica como “inacreditável” a memória do adversário, segundo a qual recebeu, no cárcere, um pacote de esfihas enviadas pelo pai por meio de um policial. Especialmente, Ustra nega que Arida que tenho sido enviado da rua Tutóia que ele, Ustra, muito ajudou para tornar tristemente famosa, para ser torturado no Rio. “Eu contesto isso”, assinala o coronel condenado por seqüestro e tortura. Para ele, o artigo de Arida contém “27 páginas de situações imaginárias, fictícias e delirantes”.

Pela história de vida de ambos, a coerência da narrativa de Arida e renitente mania de Ustra em negar o que inúmeros depoimentos confirmam e a própria Justiça, pela sentença da 23ª Vara Cível de São Paulo, estabeleceu – sua condição de seqüestrador e torturador – é fácil saber com que está a verdade. Arida acrescentou ao seu brilhante currículo o mérito de revelar mais uma história horripilante de um tempo que não pode ser esquecido. Com sua postura estudadamente contestatória, pensando, certamente, em futuras defesas nos tribunais, Ustra conseguiu empanar mais ainda – o que já parecia impossível --, o brilhante do seu nome. Ele perdeu, com o artigo na Folha, a chance de manter-se recolhido ao seu inferno.

Leia no link o artigo de Persio Arida publicado na revista Piauí de abril: http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-55/memorias-vertiginosas/rakudianai

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