O deputado e seus desejos: Freud explica

E fica a dica para você que acompanha o deputado, com esse ódio contra os homossexuais : procura um analista

Siga o Brasil 247 no Google News Assine a Newsletter 247

Nos idos de meus 12 anos, quando as pressões sociais me fizeram entrar na adolescência, fui obrigado a voluntariamente largar os bonecos. Os olhares unívocos com um imperativo repressor digno do bigodinho do führer – no caso, ralo, por conta da ainda baixa testosterona comum à idade – preenchiam o semblante dos moleques de minha nova turma, quando eu pretendia falar de algo que não a capa da Playboy do mês, um novo jogo de vídeo-game ou algum desenho – essa era a lista quase completa do então moralmente lícito. Brincar de boneco: não. Absolutamente reprovável, já que boneca era coisa de criança e menina. Devo enfatizar, assim como fazia à época, antes que vocês me olhem com a clichê cara amarrada: nada de Barbies ou suas respectivas cópias, eram só bonecos. Vocês leram, estão de prova, proibidas eram as bonecas, mas... - Xiiiu, desiste: boneco era coisa de viadinho e ponto final.

Imbuído pela expectativa de ser aceito no grupo, tive de me despedir dos tais bonecos, os quais, não se enganem, eram chefes de família, lideres de organizações políticas, com religião, escolaridade e, claro, mega-ultra-power-super poderes. Eles carregavam, sobretudo, histórias. Espelhavam o meu humor, minhas vontades e até minha visão infantil de mundo. De certa maneira, funcionavam como um diário. Não à toa, pouco tempo depois, percebi o vazio que me deixaram. Eu precisava colocar essa vontade transbordante de qualquercoisaquemeexpresse, impossível de caber em mim, em algum solo tão fértil quanto minha mente. Eis que canalizei o desejo de criar na prática da escrita – e, enfim, cá estou.

Chegando ao fim do então Ginásio, morador de Angra que eu era, uma professora sugeriu que eu tentasse a carreira militar no Colégio Naval, devido ao meu bom desempenho escolar e a promessa de uma vida abastada e na retidão. Eu neguei, dizendo que pretendia ser psicólogo e escritor de novelas, na ingenuidade semi-profética de minhas palavras – hoje, trabalho numa clínica e você está me lendo... espero. Foi nesta época, não recordo muito bem o porquê, que meu pai falou comigo pela primeira vez sobre um deputado-milico (nesse momento, talvez vereador), o qual ele admirava bastante e que hoje segura o bastião defensor dos supostos valores familiares universais. Foi nesta circunstância, tamanha rejeição que eu já tinha com determinados dogmas, que superei meu pai enquanto referência para os meus atos. Tornei-me, então, senhor de mim mesmo.

Senhores, agora daremos uma guinada no tempo. Falaremos sobre o presente – de grego, infelizmente. É imprescindível que eu avise-os de antemão: o conteúdo a seguir pode ter se tornado um assunto cansativo (quem sabe, provocador de náuseas) e o formato da nave provavelmente não será visto enquanto crônica. Mas, tal qual o gênero pretendido, este texto tem seu(s) lugar(es) no(s) tempo(s) - Chronos-, com uma pequena narrativa embebida em lirismo. Vale dizer, se o tema tomou tal lugar no cotidiano, desde no auto-falante midiático até nas conversas de botequim, é sinal de que choca as representações e práticas de muitas pessoas. É a demonstração de que a pólis, ainda que ora apática, está viva e pulsante. Não, não estou falando sobre o casamento gay, tão explicitamente repudiado pelo deputado. Meu objeto aqui é o deputado em si – o qual nem preciso citar o nome, haja vista a repercussão de suas ações.

O deputado emerge aos gritos no telejornal, sem pedir-nos licença, para entoar que está defendendo os valores da família, ao contrariar a tão discutida união homoafetiva. Em vez de elaborar uma dissertação dentro desta questão, acho de bom tom alterarmos o prisma. Não falemos de casamento gay, falemos dos valores da família.

A perspectiva de conservação familiar tem como fundamento basilar o evolucionismo e, ao mesmo tempo, a noção de natureza humana. Tem como princípio, por exemplo, a ideia de que uma relação sexual entre dois homens ou duas mulheres não será capaz perpetuar a espécie – como se o deputado só tivesse trepado quatro vezes na vida. Evidente que só a relação sexual entre homens e mulheres pode resultar em filhos biológicos, mas parece, por outro lado, ser necessário avisar ao deputado e seus pares que a população mundial anda bem no aspecto quantitativo, uma vez que contabilizamos mais de 6 bi – acalme-se, deputado, estou falando de bilhões. Além do mais, a direção de todas nossas ações não vão de encontro, por uma unidade do espírito humano, à continuidade da espécie. Se assim o fosse, a discussão seria sobre como alimentar as crianças de barrigas cheias de vento ou como mudar a forma de produção em alta escala, para salvarmos o planeta da tragédia ambiental anunciada. Junto a essa noção, mistura-se paradoxalmente o argumento de que determinadas formas de organização social e cultural não são mutáveis, mas que são geridas por leis naturais do comportamento humano – decerto, a natureza condiz com você, né, deputado? Curioso como nessas horas religiosos se advogam de argumentos darwinistas para fazerem valer suas ambições. De uma miscelânea tão díspar quanto essa, só poderia sair algo profundamente estéril.

Para completar este texto, abuso do gênero dramático – mostrando que a crônica ultrapassa o conservadorismo dos gêneros literário e sexual – com um discurso direto deste que vos fala para o deputado que teima em aparecer aos berros desesperados:

- Eu não sou gay e, como se não fosse suficiente ver o quanto de descriminação existe por aí, já fui tratado com desdém ou agressividade por suporem que eu era. Talvez, se houvesse o conservadoramente denominado “kit gay” há tempos nos colégios, meu desejo de brincar de boneco aos 12 anos teria sido menos recalcado e isso nem seria um ponto de pauta na cabeça dos garotos. Mas sabe, deputado, na verdade eu preciso é agradecer a indivíduos que, como você (hahaha), impedem o processo histórico de se desenrolar e tentam se ater a uma noção de essência do ser humano tão apodrecida, mantida com o formol da ignorância. Afinal, se não houvesse caras como você na minha turminha, eu provavelmente não estaria aqui escrevendo – sei que me chamam de cínico, mas o porquê eu não sei.

- Hoje, nesta crônica social que pode descrever tão facilmente a vida de tantos outros anônimos, replico, com o direito ao grito, mas com a licença de todos aqueles que querem ser donos de seus próprios caminhos: todos têm o direito natural de serem o que bem entenderem. O Estado, do qual o amor homoafetivo não carece, é apenas o reconhecedor legal do conjunto de forças políticas existentes, que tem vitoriosos. Todos lutam por seus próprios interesses, a partir de seus respectivos desejos. Então, deputado, não venha com o falacioso argumento de que está na defesa de um valor universal que não temos, que mais parece mascarar uma relação traumática (edipiana) muito da mal resolvida, geradora de um medo duvidoso.

E fica a dica para você que acompanha o deputado, com todo esse ódio contra os homossexuais, pautado na carapaça da preocupação com a família: procura um analista, cara. Freud explica.

O conhecimento liberta. Saiba mais. Siga-nos no Telegram.

A você que chegou até aqui, agradecemos muito por valorizar nosso conteúdo. Ao contrário da mídia corporativa, o Brasil 247 e a TV 247 se financiam por meio da sua própria comunidade de leitores e telespectadores. Você pode apoiar a TV 247 e o site Brasil 247 de diversas formas. Veja como em brasil247.com/apoio

Comentários

Os comentários aqui postados expressam a opinião dos seus autores, responsáveis por seu teor, e não do 247

WhatsApp Facebook Twitter Email