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O discurso de Bolsonaro sobre o suicídio na pandemia: uma ferramenta política que faz morrer

De acordo com especialistas, divulgar cartas de suicídio pode despertar gatilhos, principalmente em pessoas que estejam em uma situação de vulnerabilidade, sendo uma ação capaz de desencadear processos irreversíveis. Logo, ao ler o conteúdo da carta, Bolsonaro produz o efeito contrário do que deseja, visto que esta leitura pode estimular outras vítimas em potencial a seguir o mesmo caminho.

Protestos consagram Bolsonaro como genocida (Foto: Filipe Araújo)

Por Sabrina Lacerda da Silva, Felipe França, Igor Corrêa Pereira - Ultimamente o governo federal vem reforçando o argumento nefasto de que a crise econômica gerada pelas medidas restritivas no combate à disseminação da covid-19 no país poderia ser mais grave do que a própria pandemia. O presidente Jair Bolsonaro (sem partido), vem apontando possíveis malefícios do isolamento imposto em diversas cidades do Brasil.  

Em 11 de março 2021, Bolsonaro fez sua tradicional live semanal e utilizou mais uma vez o suicídio para justificar sua contrariedade às restrições impostas pela pandemia e defendidas pela comunidade científica. Durante suas falas nas redes sociais o presidente leu uma possível carta de despedida de um feirante que teria se suicidado na Bahia. Na carta, o trabalhador culpa o governador e o prefeito que decretaram "o fechamento de tudo" e que com isso não estaria conseguindo vender na feira o suficiente para pagar suas dívidas.O Instituto Vita Alere de Prevenção e Posvenção do Suicídio emitiu uma nota repudiando a postura do Presidente e lembrou que divulgar cartas de pessoas que morreram por suicídio demonstra uma total falta de humanidade e de respeito com a vida humana. Associar o suicídio ao lockdown é uma falta de responsabilidade, uma vez que é dever do Estado prover os recursos necessários para que a população enfrente a pandemia com segurança.

A Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) também se manifestou ao reforçar a postura contrária ao compartilhamento de notícias sobre suicídio, especialmente àquelas que contenham informações explícitas, como cartas de suicídio. A ABP reitera que é preciso ter cuidado com aqueles que estão em luto em decorrência de um suicídio. Recomendações, vale pontuar, que são respaldadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em um manual para profissionais de mídia lançado em 2000. 

De acordo com especialistas, divulgar cartas de suicídio pode despertar gatilhos, principalmente em pessoas que estejam em uma situação de vulnerabilidade, sendo uma ação capaz de desencadear processos irreversíveis. Logo, ao ler o conteúdo da carta, Bolsonaro produz o efeito contrário do que deseja, visto que esta leitura pode estimular outras vítimas em potencial a seguir o mesmo caminho.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), aproximadamente 800 mil pessoas morrem por suicídio anualmente no mundo. No Brasil, são cerca de 11 mil pessoas que se suicidam a cada ano, o que situa o nosso país na 8ª colocação no ranking mundial de números absolutos de mortes autoprovocadas.Durkeim, no seu livro O suicídio, define o ato como intencional, realizado pelo próprio sujeito com o objetivo de provocar sua própria morte. Considerado um fenômeno multifatorial, o suicídio não deve ser associado somente a um fator de risco. É imprescindível considerar também a personalidade do sujeito, suas questões genéticas, suas inconstâncias psicológicas, socioculturais, econômicas, espirituais e políticas.  O fenômeno ainda é um tabu e todo o estigma em torno desta questão dificulta ações de promoção à saúde e preservação da vida. Além disso, esse véu que colocam sobre o suicídio pode colaborar para que as pessoas que pensem em se matar não procurem ajuda nos momentos agudos de crise.Num discurso feito aos seus apoiadores na frente do Palácio do Planalto no dia 19 de março, o Presidente voltou a abordar o assunto ao dizer que o país terá problemas sociais muito graves e que a depressão tem causado muitos suicídios no Brasil. A fala de Bolsonaro remete ao que já foi visto em outros momentos de crises sanitárias. No livro A Bailarina da Morte, Heloisa M. Starling e Lilia Schwarcz apontam que, durante a gripe espanhola, houve um aumento de casos de suicídios devido à insegurança social que se abateu sobre algumas cidades, principalmente onde os governantes e jornais apoiadores da gestão desdenharam da letalidade e transmissibilidade da doença. O clima era caótico, corpos espalhados pelas ruas, cemitérios e hospitais sem condições de atender. De fato, uma gestão pífia leva a crises que podem levar ao caos social e Durkheim, em 1897, já havia descrito que cada sociedade do modo que é gerida está predisposta a criar o cenário perfeito para o aumento de mortes voluntárias. Não é de agora que Bolsonaro utiliza o suicídio como uma estratégia de argumentação para sensibilizar a população a concordar com aquilo que alguns estão chamando no Brasil de “necropolítica” ou “genocídio”. No dia 30 de março de 2020 ele já havia trazido a questão do suicídio como um argumento para refutar as medidas restritivas. Outras ocasiões também evidenciam o modo problemático como o presidente brasileiro trata o assunto. Em novembro de 2020, Bolsonaro deu a entender que o suicídio de um voluntário que participava dos testes da CoronaVac poderia ser efeito colateral da vacina, comemorando a situação como uma vitória contra a vacina. Já em 04 de março, o Presidente gargalhou quando lia um documento que descrevia o aumento do número de suicídios no Brasil. Intrigante ele apresentar esses dados associados à pandemia, pois as últimas atualizações sobre as mortes por suicídio são de 2017 e 2019. No mundo, um dos países que apresenta informações robustas a cerca do aumento de suicídio na pandemia é o Japão, que já registrou um número expressivo de mortes autoprovocadas por mulheres. O Brasil carece de uma vigilância epidemiológica eficiente para o acompanhamento em tempo real dos casos de suicídio. Além de estratégias de educação e prevenção do suicídio. Dentre os fatores de risco, as questões socioculturais e econômicas podem estar fortemente relacionadas com o suicídio. E isso se apresenta como uma das faces mais cruéis do neoliberalismo capaz de suscitar muitas “mortes por desespero", termo cunhado pelos economistas americanos Anne Case e Angus Deaton ao longo do século XX. No livro A tirania do mérito: O que aconteceu com o bem comum?, Michael J. Sandel aponta que uma sociedade que premia os que têm diploma e humilha os que não têm diploma, acaba criando uma enganosa mensagem de atribuir o sucesso ou fracasso a posse de um diploma. O autor continua sua argumentação referindo que associar sucesso e fracasso a ter ou não diploma é culpar o indivíduo por problemas sociais e econômicos complexos. O modelo neoliberal promove uma desindustrialização cuja a tendência é a diminuição dos empregos. Não faz sentido associar o sucesso a formação universitária, uma vez que nenhuma sociedade do mundo atingiu universalização do ensino superior, e mesmo os que possuem formação universitária já vivem situação de desemprego ou empregos precários. Nesse sentido, as “mortes por desespero” seriam as mortes das vítimas acusadas injustamente pela tirania de uma sociedade meritocrática.

O desemprego e a precarização das relações de trabalho aumentaram de 20% a 30% o risco de suicídio, segundo o Conselho Regional de Psicologia do Distrito Federal/2020. O Presidente Jair Bolsonaro costuma ser simplista associando o suicídio a uma consequência do “fica em casa”, uma das medidas de prevenção e controle da covid-19 defendida por especialistas e com respaldo da OMS. Ele usa o suicídio como moeda de troca social para ganhar apoio da população e devagarinho envia os brasileiros para o precipício. Crises econômicas e sanitárias podem contribuir para o aumento de números de suicídio, mas é preciso pensar em estratégias de proteção econômica, como o auxílio emergencial, e políticas de valorização e manutenção dos serviços de saúde, como ferramentas eficazes na prevenção do suicídio.

O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), postou no Twitter a foto da suposta carta e além disso expôs imagens do corpo do feirante, com a legenda "Lockdown mata" e a seguinte postagem: “Carta antes do suicídio na Bahia… Minhas condolências a família.” Uma postura equivocada e sensacionalista, que está extremamente em desacordo com o que orienta a OMS, pois pode suscitar culpa e dor àqueles que ficaram. Depois de amplamente denunciada, a publicação foi removida da rede social. As lives onde Bolsonaro cita o suposto suicídio e lê a carta, até o dia de hoje, 06 de abril de 2021, ainda se encontram disponíveis no Twitter com 45 mil de retweets, no  Facebook com 2 milhões de visualizações e no Youtube com 367.699 visualizações. Esses são números das páginas oficiais de Bolsonaro, entretanto, existem apoiadores que retransmitem o conteúdo e provavelmente os números podem ser ainda maiores, à medida que os vídeos continuam na rede e muitas pessoas seguem recebendo a live dos horrores. Como acionar o poder público frente ao comportamento do presidente Jair Bolsonaro, quando ele traz a carta e a apresenta como uma justificativa para fazer as pessoas evitarem o lockdown e voltarem a trabalhar para solucionar a crise econômica?

A Associação Brasileira de Psiquiatria reforça que apresentar imagens e textos que tornem o suicídio como uma forma de retaliação ou de chamar atenção, deve ser evitado para não haver um possível efeito de imitação em cascata por parte de sujeitos que estejam sensibilizados e com as mesmas dificuldades da pessoa que morreu por suicídio.

Nos governos de extrema direita é comum vermos a promoção do caos, deixando os mais vulneráveis à mercê de políticas públicas destrutivas. Dentre os fatores de risco, as questões socioculturais e econômicas podem estar fortemente relacionadas com o suicídio. Uma das faces mais cruéis do neoliberalismo capaz de suscitar muitas “mortes por desespero", termo cunhado pelos economistas americanos Anne Case e Angus Deaton ao longo do século XX. A passagem citada no livro ‘A tirania do mérito: O que aconteceu com o bem comum?’ de Michael J. Sandel aponta que uma sociedade que premia os que têm diploma e humilha os que não têm diploma, acaba criando uma enganosa mensagem que atribui o sucesso ou fracasso a obtenção ou não de um diploma universitário. O autor continua sua argumentação referindo que associar sucesso e fracasso a esse atributo é uma novidade dos últimos quarenta anos, o que coincide com a emergência do governamento neoliberal. Antes disso, nos EUA onde o autor baseia principalmente sua análise, o american way of life era possível a famílias chefiadas por operários sem diploma, que ganhavam uma remuneração adequada e se sentiam prestigiados socialmente.  O autor demonstra que a chamada tirania do mérito, a estabelecer como condição para o sucesso a formação universitária, é uma estratégia de culpabilizar o indivíduo por problemas sociais e econômicos complexos, que tem a ver com a transição do Estado do bem-Estar social para o governamento neoliberal. Esta transição proporciona uma desindustrialização cuja a tendência é a diminuição dos empregos e a queda do prestígio social das pessoas sem formação universitária. Portanto, as mortes por desespero são as mortes dos que são apontados por fracassar numa sociedade meritocrática.

O desemprego e a precarização das relações de trabalho aumentam de 20% a 30%o risco de suicídio segundo as orientações para a atuação profissional frente a situações de suicídio e automutilação o Conselho Regional de Psicologia do Distrito Federal/2020. Após um ano de pandemia o que vemos no Brasil é mais desigualdade e mais desemprego. Isso sim que aumenta a chance de suicídios em época de crises.

(Des) Caminhos para a prevenção

Muito se avançou nos mecanismos que impedem a proliferação de conteúdos relacionados ao suicídio nas redes sociais, mas ainda há muito a melhorar nas plataformas. É preciso de uma revisão mais efetiva das políticas de privacidade para impedir que tais publicações continuem disponíveis e se multipliquem na rede. Novamente, lembramos que realizar descrições detalhadas sobre como ocorreu a morte por suicídio e a divulgação de cartas, pode desencadear gatilhos em quem se encontra fragilizado e com ideação suicida e ainda pode trazer dor e culpa aos familiares e amigos que sobreviveram ao suicídio.

Reiteramos que o suicídio é um fenômeno multicausal e não se deve associá-lo a somente uma causa. Ao se deparar com alguém em sofrimento, primeiramente devemos acolher e observar fatores de risco, dentre eles: perda recente de pessoas especiais, desemprego, doenças incapacitantes, transtornos psiquiátricos, abuso de álcool e outras drogas, separações, bullying, cyberbullying, assédio moral, violências, tentativas prévias de suicídio, familiares que já tentaram ou se suicidaram, ideia recorrente de morte. Frases de alerta devem ser observadas, tais como “se eu morrer não farei falta”, “tenho vontade de sumir”, “não sirvo para nada”, “vocês ficariam melhor sem mim”, entre outras.

Se você estiver frente à alguém com risco de se matar, é importante acionar no seu município a Rede de Atenção Psicossocial na Atenção Básica, Centros de Atenção Psicossocial nas suas diferentes modalidades, SAMU (192), Unidades de Pronto Atendimento, Atenção Residencial de Caráter Transitório, Atenção Hospitalar, Estratégia de Desintitucionalização e de Reabilitação Psicossocial. 

Também é possível oferecer serviços de apoio emocional como o Centro de Valorização da Vida, o CVV, que está disponível 24 horas por dia de forma gratuita pelo telefone (188), chat ou e-mail no site cvv.org.br. Voluntários em todo o Brasil estão capacitados para conversar de forma anônima e sigilosa, sem julgamento. 

Diante de tantos avanços na prevenção do suicídio no país, ainda temos muitas barreiras a serem rompidas para a preservação da vida. Uma das mais difíceis, tem sido lidar com o governo Bolsonaro, que tem como tática de gestão a morte como uma aliada.

Referências

AFFONSO, Carlos. Redes sociais devem moderar live de Bolsonaro que expõe carta de suicídio?. UOL. 2021. Disponível em: <https://www.uol.com.br/tilt/colunas/carlos-affonso-de-souza/2021/03/16/plataformas-devem-moderar-live-de-bolsonaro-com-carta-de-suicidio.html> Acesso em: 06 de abril 2021BIERNATH, André. Lockdown causa depressão e suicídio? O que um ano de covid-19 nos revela sobre saúde mental. BBC News Brasil.  2021. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/internacional-56491463> Acesso em: 06 de abril 2021BOTEGA, Neury José. Comportamento suicida: epidemiologia. Psicol. USP , São Paulo, v. 25, n. 3, pág. 231-236, dezembro de 2014. Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-65642014000300231&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 06 de abril 2021BRASIL. Ministério da Saúde. Agenda de ações estratégicas para a vigilância e prevenção do suicídio e promoção da saúde no Brasil [Internet]. Brasília: BVSMS; 2017 [citado em 2017 Out 28]. Disponível em: http//bvsms.saude. gov.br/publicacoes/acoes_estrategicas_vigilanciaCONSELHO REGIONAL DE PSICOLOGIA DO DISTRITO FEDERAL. Orientações para a atuação profissional frente a situações de suicídio e automutilação / Organizado pela Comissão Especial de Psicologia na Saúde do CRP 01/DF --. Brasília: CRP, 2020. 48p.: il.DURKHEIM, Èmile. O suicídio. São Paulo, SP: Editora Martin Claret. 2008GALLO, Silvio.  Live Promover a morte, governar vidas. YouTube. 2021. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=_K1cFOr5FKs&t=3919s> Acesso em: 06 de abril 2021SANDEL, Michael, J,. 1953 -  A tirania do mérito: O que aconteceu com o bem comum?, tradução Bhuvi Libanio, - 1ª ed. - Rio de Janeiro - RJ: Civilização Brasileira, 2020STARLING, Heloisa . M. SCHWARZ, Lilia. A Bailarina da Morte. Companhia das Letras. 2020. 396pWORLD HEALTH ORGANIZATION. Preventing suicide: a global imperative. Geneva: WHO, 2014.

* Sabrina Lacerda da Silva é enfermeira, Felipe França jornalista e Igor Corrêa Pereira técnico  em assuntos educacionais