O maniqueísmo de um julgamento pobre

Ou o STF condena os mensaleiros, ou a mídia condena o STF. In dubio, pro reu. In Delúbio, pró-Dirceu

Um dia desses Otto Lara Resende, uma das poucas cabeças livres desse País que escreve para jornais, disse estar cansado desse mundo maniqueísta, onde tudo e todos, para efeitos de publicação, têm que ter um carimbo. Bonito ou feio, bom ou mau, como se a vida e os seres humanos, fossem simples assim. Maniqueísta e simplificado, para facilitar o entendimento dos que compram opinião, que é muito diferente do que comprar informação. E fica assim, ou você esta alinhado com o politicamente correto, ou não tem vez. Eu, por exemplo, ainda nem sei se aceito casamentos homossexuais, mas não tenho nem coragem de falar das minhas dúvidas, com medo de ser linchado.

Assisto ao julgamento do século no STF, ouço o Procurador geral, os advogados, mas fico na dúvida se realmente está mais empolgante do que era Leopoldo Heitor na tribuna, se está mais interessante do que o julgamento do Doca Street, no caso Angela Diniz. Pode ser.

A cobertura da imprensa está pré-definida e as opiniões, como parece que os votos, tambem já estão carimbados.

A  mídia já decidiu, ou os ministros condenam os mensaleiros, ou a mídia condena o Supremo.

O Presidente FHC, do alto do seu prêmio de um milhão de dólares, já disse que se convenceu que todos têm que ser condenados, pelo que ele ouviu do Procurador geral, esquecido da compra de votos da sua reeleição, aquela que deu na renúncia do Ronie Von, não o cantor, mas o Santiago. Esqueceu que o seu Zé Dirceu atendia pelo nome de Sergio Motta e que o seu Procurador engavetava tudo, inclusive isso.

Do outro lado Lula manda publicar a oportuna pesquisa que mostra que ele ou Dilma ganham fácil de quem vier pela frente, sabedor que mais forte que o poder só a perspectiva de poder. Nada mais próprio na véspera de um julgamento como esse.

O ilustre Procurador, com seu discurso sem graça, que parecia discurso de formatura de colegial citando Chico Buarque, jura que se convenceu que foi o Dirceu que fez tudo, mas não fala como se convenceu que o Lula não sabia de nada.

Hipocrisia por hipocrisia, a verdade é que o advogado do Dirceu nem gastou todo o tempo, para nos dar saudade dos grandes tribunos. Nem precisava. Quem defendeu melhor o Dirceu foi mesmo o Procurador, que declarou, repetiu e enfatizou que não tem provas, só o testemunho do Roberto Jeferson. Ora, a valer esse raciocínio, chama o Marconi Perillo, que disse lá atrás que o Lula sabia, se bem que agora ele já deve estar muito arrependido do que falou. O que o Procurador quer nos dizer é que se pode condenar como assassino, num homicídio, alguém que não estava na cena do crime, ou dos autos, porque há uma testemunha que assim o diz, ainda que sem provas. IN DUBIO, PRO REU. IN DELÚBIO,PRO DIRCEU.

Eu ate já acredito que foi mesmo o maquiavelico Zé Dirceu quem indicou Gurgel para procurador-geral. Ele já conhecia seu grau de competência.

Mas continuo na dúvida, se Gurgel disse que era entre quatro paredes, de dentro do palácio, que a trama foi urdida, e se ele tem essa convicção mesmo afirmando não ter provas, como pode saber que o chefe da quadrilha estava no quarto andar, onde fica a Casa Civil, e não no terceiro, onde Lula reinou soberano por oito anos???

Não consta dos autos nem uma escutinha telefônica para tirar a duvida? E se Jefferson dissesse como o Marconi, que o Lula sabia, será que o probo procurador pediria com a mesma convicção a condenação do ex-presidente? Será que ele teria essa coragem? E porque nenhum advogado, nem nenhum ministro do Supremo, perguntou isso a ele

Seria o mesmo que Carlos Lacerda acusar Tancredo, o então ministro da justiça, e não Getúlio Vargas, pelo crime da rua Toneleros. Convenhamos, Lacerda ia mais direto ao assunto, era mais corajoso e mais lógico que o Jô Soares de Brasília. Se os  Americanos tivessem um Gurgel teriam evitado o impeachement do Nixon e condenado um chefe da Casa Civil que nenhum de nós sabe o nome.

Leio os jornais, desesperançado, e não vejo ninguém falando que o relator desse processo, que pediu sua nomeação para Frei Beto num fortuito encontro de aeroporto, deseja presidir o Supremo como justiceiro para depois ser o primeiro presidente negro da nossa história, uma espécie de Obama sem Michelle. E ninguém fala que o atual presidente da nossa suprema corte fez uma exposição de suas poesias no hall do STF, dando as suas rimas pobres pelo menos a leitura obrigatória de seus súditos, para agora aventurar-se numa possível eleição para Senador pelo Sergipe.

Vaidades, vaidades. Enquanto isso, alguns apavorados ministros de verdade tentam entender as provas exigidas no devido processo legal, com um olho nos autos e o outro nas ruas, nesse teatro de encenações duvidosas.

Teria sido mais simples, Dirceu ter recebido o doutor Antonio Fernado de Souza,pois se é verdade o chá de cadeira, poderá ser o mais caro da história do Pais.

E a Globo, que com essa cobertura queria derrubar as olimpíadas da Record, já percebeu que a audiência dessa novela de mau gosto está longe disso.

Como sabe Otto Lara Resende, ninguém é tão bom ou tão mau quanto parece, ninguém tem toda a razão, e se o mundo maniqueísta já é chato, imagina o maniqueísmo misturado com a hipocrisia dos midiáticos, na voz de oradores monocórdios, sem estilo e sem emoção, de acusadores sem convicção e de defensores sem a indignação dos inocentes.

 O Direito fica menor sem doutrinas, os processos sem as provas, as tribunas sem oradores, a justiça  sem a isenção própria da Deusa que, de olhos vendados, basta-se do que esta no interior das peças ,cega aos interesses externos das circunstâncias.

 

  • Ricardo Cascais é uma eminência parda da política brasileira

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