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Brasil

O novo CD dos mestres da música

O Zimbo Trio, formado h 47 anos, mostra toda sua magia e genialidade em um DVD e um disco com composies de seu lder, Amilton Godoy

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É um caso raro, talvez único, na MPB. Um conjunto instrumental, dono de um som refinadíssimo, que se mantém na ativa há quase 50 anos. Numa época em que coisas como duplas sertanejas e conjuntos de axés dominam o cenário musical brasileiro, o som que emerge do mais recente CD do Zimbo Trio é realmente um bálsamo para os ouvidos. Sobre eles, o jornalista João Marcos Coelho, de O Estado de S.Paulo, escreveu um texto que merece ser lido:

No júri estavam figuras imponentes do mundo erudito: o compositor Camargo Guarnieri; uma das mais aclamadas pianistas brasileiras, Antonieta Rudge; Alberto Soares de Almeida e Carlos Vergueiro. No Steinway de concerto, um pianista de Bauru chamado Amilton Godoy, aluno de Dona Nellie Braga, da Escola Magda Tagliaferro, superou todos os concorrentes num dos mais celebrados ciclos pianísticos românticos, os Estudos Sinfônicos, de Schumann. Eram as finais do IV Concurso de Piano Eldorado.

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Pasmem, mas naquele mesmo 1964, Amilton, que tinha tudo para seguir uma vitoriosa carreira erudita, uniu-se ao contrabaixista Luiz Chaves e ao baterista Rubens Barsotti para formar o Zimbo Trio. Nos últimos 47 anos, o trio transformou-se numa espécie de paradigma e divisor de águas na história da música popular brasileira. E comemora esta semana a data com um duplo lançamento: um DVD gravado ao vivo em 2009, ao lado do Grupo Sinfônico Arte Viva, regido por outro Godoy de imenso talento, Amilson, o Tuca; e um novo CD do Zimbo Trio, intitulado Autoral, porque traz apenas composições de Amilton Godoy.

Choque de qualidade. Vivendo sob o manto estético da bossa nova, a chamada MPB foi chacoalhada com a chegada daquele pianista erudito. Amilton levou na bagagem alguns pressupostos que fizeram o diferencial.

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Primeiro, um apuro técnico que ainda não se tinha visto na área popular. Amilton sempre exibiu uma técnica pianística irretocável; sua "facilidade" ao piano lembra a de outro lendário pianista de jazz, famoso por seu virtuosismo, Oscar Peterson.

Em seguida, a paciência e talento para escrever arranjos que se tornaram assinaturas até hoje reconhecíveis por qualquer um com mais de 40 anos. É mágico, por exemplo, o arranjo de Garota de Ipanema com o qual, em 1964, levaram ao delírio o público do Teatro Paramount, num dos grandes shows de bossa em São Paulo; assim como Arrastão, de Edu Lobo, alguns anos depois.

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E, finalmente, a química que alcançaram com Elis Regina, a maior cantora popular brasileira moderna. Durante três anos, o Zimbo e Elis quebravam tudo semanalmente em horário nobre na TV Record no programa O Fino da Bossa. Ali se sedimentou a originalíssima integração entre os quatro. "Não era a Elis acompanhada pelo trio", diz Amilton. "Ela passou a ser o quarto elemento do trio." Ele tem razão. Basta reouvir o CD O Fino do Fino (Polygram, 1990), que resgata momentos do programa.

Ao contrário da fase posterior com César Camargo Mariano, a fase Elis-Zimbo retrata quatro jovens músicos notáveis construindo uma maneira nova de recriar a MPB. Elis põe a pitada do improviso, enquanto Amilton põe ordem na casa, com arranjos precisos.

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Arte e educação. Antes de comemorar sua primeira década de existência, em 1973, Amilton, Rubinho e Luiz fundaram o Clam, escola de formação de músicos populares que lhes dava as ferramentas teóricas para não enfrentarem limitações dali em diante, em suas carreiras, onde quer que fossem. Nesses 38 anos, por lá passaram 30 mil alunos.

Há nove anos, Luiz Chaves saiu do grupo para aventurar-se em outras formações (morreu em 2007). Seu aluno de contrabaixo no Clam, Itamar Collaço, assumiu o posto, tocando baixo elétrico até 2009. Em 2010, com Marinho Andreotti, o grupo retornou ao contrabaixo acústico e Rubinho, com problemas de saúde aos 79 anos, afastou-se. Em seu lugar entrou Percio Sapia, que está no CD Autoral.

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Mas Amilton permanece no comando. E não abre mão da qualidade. Até hoje, 70 anos, ele começa seu dia ao piano tocando música clássica, e pega pesado: encadeia, de Bach, a Partita n.º 1 e o Concerto Italiano. De Chopin, os Estudos opus 10 n.ºs. 4 e 8. Segue com a dificílima Sonata n.º 3 de Prokofiev e termina placidamente com Arabesque e Clair de Lune de Debussy. Só então passa ao improviso dele de cada dia.

ZIMBO TRIO

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45 ANOS

R$ 35

QUATRO MOMENTOS

Zimbo Trio, por Amilton Godoy

1.Zimbo Vol. III (1966) "Gostei do resultado todo do disco, o Zimbo conseguiu um padrão muito bom de qualidade de gravação, algo raro naqueles tempos, além de ótimo refinamento. Não havia, na época, a gravação em estéreo por aqui."

2.Zimbo Trio, Hector Costita e Heraldo do Monte (1976). "Tínhamos dois convidados maravilhosos. Nos anos 80 estávamos meio prisioneiros das gravadoras, que só queriam que fizéssemos discos comerciais. Então, neste disco bancamos só pra fazer o que a gente queria. Tem só 7 faixas, pra permitir improvisos sem pressa."

3.Zimbo Trio ao Vivo Prêmio TIM (2008) "O Rubinho tocava em tempo integral; Itamar Collaço substituíra Luiz Chaves no baixo. Como convidados, a voz de Fabiana Cozza, o bandolim de Danilo Brito e o sax de Débora de Aquino. Gente nova, músicos talentosos para os quais abrimos espaço, coisa que sempre fizemos ao longo destes 47 anos."

4."As gravadoras nos obrigavam a gravar discos com objetivos comerciais. Não gosto de me lembrar daquele tempo, nem de coisas como Zimbo Trio Strings and Brass Plays the Hits (Philips, 1971) ou Zimbo Trio FM Stereo (Philips, 1974). Felizmente, os músicos não precisam de ninguém, buscam soluções alternativas. A interferência na liberdade de criação artística hoje é mínima."

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