O Pelourinho não é mais aquele

Principal carto postal de Salvador, na Bahia, Centro Histrico passa por dificuldades da rea social cultural; moradores clamam por melhorias e governantes prometem intervenes

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Rebeca Bastos_Bahia247 - Cantado e contado em versos e em prosa, o Pelourinho ganhou fama mundial e atingiu o seu ápice quando astro pop Michael Jackson cantou e dançou em suas ladeiras ao som dos tambores da banda Olodum. Isso aconteceu em 1997 e, de lá para cá, muitas águas rolaram pelas suas ladeiras revestidas de pedras "cabeça de nego". Hoje, o abandono do lugar tem afastado a população local e deixado turistas espantados. Entre as belas edificações históricas conhecidas por todo o Brasil, o que se sobressai é a criminalidade, a aparência de mal cuidada e os inúmeros pedintes que insistem em perturbar os passeios alheios.

Desde a primeira gestão do governador Jaques Wagner, o abandono do Pelourinho não sai da ordem do dia, mas pouco ou quase nada foi feito para resolver os problemas o local, que teve nos anos 90 sua última revitalização. A falta de manutenção do patrimônio arquitetônico e o crescimento da criminalidade, aliado à sensação de insegurança, geraram no cidadão a impressão de que o Pelourinho está abandonado. Nos últimos meses, dois homicídios na região assustaram os soteropolitanos. As atribuições municipais, como limpeza e ordenamento de ambulantes, também vêm sendo negligenciadas.

Promessas

Ao longo dos últimos cinco anos, a população ouviu muitas promessas, planos e propostas para revitalizar o Centro Histórico da cidade, mas nenhum plano concreto e abrangente foi posto em prática. As desculpas foram muitas também: falta de verba, falta de planejamento e excesso de burocracia.

A história de que os problemas do Centro Histórico seriam, enfim, solucionados já foi contada em diversas ocasiões por Wagner, pelo prefeito João Henrique e pelo seu vice, Edvaldo Brito. A dupla da vez é João Leão chefe da Casa Civil da PMS, e Edmon Lucas, chefe de gabinete da governadoria. Recentemtne, os dois vieram a público declarar que Estado e Município se alinharão para revitalizar o Pelô. Dizem que estão planejando tudo e que em breve o Pelourinho vai estar em obras. Nos últimos dias, Leão anunciou que a Prefeitura pretende cadastrar no Programa 'Minha Casa, Minha vida' 400 famílias que vivem no Centro, e que também estão previstas capacitações para jovens maiores de 18 anos que habitam no Pelourinho e entorno. Os investimentos para os próximos quatro anos devem ser em torno de R$ 526 milhões. Será que agora vai?

Abandono no coração da Bahia

Foi Jorge Amado, em Bahia de Todos os Santos (1944), quem localizou o centro de Salvador como o coração da Bahia: "O coração da vida popular baiana situa-se na parte mais velha da cidade, a mais poderosa e fascinante". Essa opinião é compartilhada por Clarindo Silva, figura referência do bairro por sua simpatia e envolvimento com a causa da revitalização do local. Proprietário da Cantina da Lua, um dos restaurantes mais conhecidos do bairro, o empresário conta que está há 41 anos por lá, e que vê com muita tristeza o novo ciclo de abandono do Centro Histórico. "O Pelourinho está na UTI! Me dá muita angústia ver que, nos últimos anos, quase 70 casas comerciais fecharam as portas". Clarindo aponta que a falta de uma agenda cultural interessante e a sensação de insegurança constante afastaram as pessoas do local. O empresário diz que fechou 2010 com prejuízo e recomenda celeridade com as construções dos casarões que vão virar residências. "Isso aqui precisa de gente, de famílias que dêem vida à rotina do bairro, sugere".

Uma caminhada rápida pelas ruas e ladeiras do Pelourinho revela suas carências. Há descaso com os monumentos e com as praças, além da falta manutenção e higienização. A falta de sanitários públicos e da inexistência de repressão e controle aos meninos de rua chamam a atenção. "Eles não param de circular por aí, perturbando os turistas pedindo dinheiro", conta o ambulante Bertulino do Carmo. Residente do Centro há 50 anos, ele diz que falta pulso para gerir o local.

Na opinião de Aloísio S. Santos, taxista que atua no bairro há 15 anos, o Pelourinho já foi melhor para trabalhar, pois oferecia segurança e atrações para os turistas. "De uns cinco anos para cá foi que virou este abacaxi, com lojas e restaurantes fechados, monumentos e praças degradados", destaca o motorista. Ele ainda conta que o turista que vem pela primeira vez, sai até com uma boa impressão do Centro Histórico, mas quem conheceu o Pelourinho antes fica chocado e decepcionado com a situação. Entre tantas situações vividas, Santos lembrou de um casal de estrangeiros que veio com ele do hotel e 20 minutos depois retornou. "O problema foi o assédio que sofreram dos ambulantes e pedintes, ficaram com medo e desistiram do passeio".

Mobilização

Insatisfeitos com os rumos do Centro Histórico, moradores e lojistas da região pedem intervenção do Ministério Público (MP). Uma audiência pública solicitada pelo grupo aconteceu dia 13 de julho, no Gabinete da Procuradoria Geral da Justiça, sede do MP. A população reclama do abandono do local, que salta aos olhos com a ação de pequenos traficantes, com a prostituição e a exploração de menores, além da ação descontrolada pedintes e ambulantes. A situação vem afastando os turistas da região e tem causado prejuízo aos lojistas. A situação está sendo analisada pelo procurador-geral, José Gomes Brito.

14 soluções

Um bom projeto para o Pelourinho é o que não falta. A maior esperança de que a revitalização do Centro Histórico saia do papel no governo Wagner é depositada em um projeto desenvolvido pelo Escritório de Revitalização do Centro Antigo de Salvador (Ercas). "Tudo o que precisava ser estudado aqui no Centro Antigo de Salvador (CAS) já foi contemplado no Plano de Reabilitação Participativo, e agora é hora de partir para ação", assegura Beatriz Cerqueira, coordenadora geral do ERCAS.

O escritório coordenou um estudo multidisciplinar, feito ao longo de três anos, que mapeou todas as áreas da região, seus problemas e possíveis soluções. De acordo com Beatriz, o estudo contempla não só o Pelourinho, mas também o seu entorno, isso porque não é possível revitalizar apenas uma pequena área e esquecer o que está em volta. A expectativa da coordenadora é que todas as ações planejadas comecem a ser concretizadas ainda este ano, (com atraso de um ano, visto que as ações deveriam começar em 2010, segundo o Plano). A conclusão prevista para 2014, o ano da Copa do Mundo.

O estudo deu origem à publicação "Centro Antigo de Salvador - Plano de Reabilitação Participativo", que detalha 14 proposições para reabilitação da área. São elas:

1. Fomento as atividades econômicas

2. Ampliação as da competitividade das atividades econômicas

3. Preservação das áreas de encostas

4. Incentivo a habitação

5. Revitalização da orla do CAS

6. Qualificação dos espaços culturais

7. Estruturação do Turismo

8. Ações a população vulnerável

9. Otimização das condições ambientais

10. Requalificação da infraestrutura

11. Ações de segurança pública

12. Ações de educação e valorização

13. Criação de um Centro de Referência em Cultura da Bahia

14. Gerenciamento das ações do plano de reabilitação

Já incrédula e cansada de tantas promessas, a população baiana espera que o projeto, tão completo aos olhos de um leigo, deixe de ser apenas teoria. Nunca é tarde para começar, mas a gente cansa!

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