“O racismo causa afetações no psiquismo da população negra”

A afirmação é da mestra em psicologia Suely dos Santos, que ao lado da especialista em inteligência emocional Simone Urbano, participou do debate “Racismo e Saúde Mental” no programa “Um Tom de resistência”, na TV 247

Suely dos Santos e Simone Urbano
Suely dos Santos e Simone Urbano (Foto: Divulgação)
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247 - “O racismo causa afetações no psiquismo da população negra”. A frase é de Suely dos Santos, mestra em Psicologia, que ao lado de Simone Urbano, especialista em inteligência emocional, participou do programa “Um Tom de resistência”, na TV 247, para falar sobre saúde mental. A cantora Alliye de Oliveira foi a atração musical do programa apresentado por Ricardo Nêggo Tom.

Segundo dados do Ministério da Saúde de 2019, jovens negros estão mais expostos à depressão e ao suicídio no Brasil. O estudo também aponta que a população preta tem 45% mais chances de cometer o ato. Para Suely dos Santos, “o racismo causa afetações no psiquismo da população negra no País. Porque o racismo aqui possui algumas especificidades. Diferente dos Estados Unidos, por exemplo, mas tão cruel quanto. Todo ser humano aprende a se sentir e a sentir tudo que está fora de nós. E o racismo lança uma série de mentiras a nosso respeito, que nos colocam sob uma contínua suspeição. Isso nos impõe uma humilhação social, e naturalmente, gera consequências no nosso emocional”, explicou.

Do ponto de vista da inteligência emocional, Simone Urbano considera que o autoconhecimento é muito importante para evitar que o racismo desestabilize o emocional dos negros. Para ela, “é interessante que saibamos reagir àquela situação. E o autoconhecimento é muito importante nesse processo. Quando você se auto conhece, o que o outro diz a seu respeito não é problema seu, é dele. A confusão mental é dele, não sua. Quando começamos a trabalhar a nossa autoestima, conhecendo os nossos valores através de suas potencialidades, conseguimos amenizar essas afetações. É importante começar a trabalhar isso na população negra desde a primeira infância”.

Suely trouxe para o debate a teoria apresentada pelo sociólogo Guerreiro Ramos, primeiro acadêmico negro a falar sobre a “patologia” dos brancos como fator motivador da radicalização estrutural. “Ele foi o primeiro a abordar a temática racial sob esse aspecto. Contemporâneo de Abdias do Nascimento, ele explorou a teoria do psiquiatra Alfred Adler, que diz que a ilusão de superioridade dos brancos é uma psicopatologia que precisa ser tratada. É uma doença mental, que se não faz as pessoas portadores dela rasgarem dinheiro, pode fazer com que elas se tornem criminosas. O colonialismo e o escravismo são exemplos disso. Seus métodos de realização foram através do tráfico de seres humanos, de sequestros, de estupros e todos os tipos de violações e de crimes de lesa humanidade”, destacou ela.

As cobranças e as exigências impostas sobre os negros, tanto no ambiente social como no profissional, são particularidades do racismo como ato adoecedor coletivo. Na opinião de Simone Urbano, “nós, negros, temos sempre que tirar 10. Às vezes, 20. Seja no primeiro emprego, na escola, no bairro onde você mora. Principalmente, se você for o único negro nesses locais. Aí é que você precisa ser diferente, ser o melhor para se destacar e atenuar a sua condição racial. Ao longo dos anos, isso vai gerar algum tipo de transtorno social que vai afetar e prejudicar a qualidade de vida e o emocional dessa pessoa”. Simone, assim como Suely, aprova a criação de políticas de saúde pública para promover estudos sobre o tema e acompanhar melhor os casos.

A cantora e compositora Alliye, que fez uma participação musical no programa cantando a música “Hospício digital”, composição de sua autoria e que faz um resumo sobre o atual momento político e social do país, mostrou a sua percepção a respeito das consequências do racismo sobre a saúde mental do povo negro. Para ela, “as pessoas são muito teleguiadas e acabam incorporando ao seu dia a dia sugestões de estereótipos e padrões de aceitação, que acabam definindo o seu comportamento social. O ato estético de alisar o cabelo é uma forma de sucumbir e se submeter a essa humilhação social que a Suely bem destacou, com o objetivo de ser melhor aceito dentro dessa estrutura racializada”. 

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