O taxista que conduz personagens e suas histórias

Relato sobre um motorista culto numa excêntrica cidade chamada Salvador

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Antonio Trabuco é um homezinho de fala mansa, mas meio acelerada. É um sujeito inquieto. Conhecido por muitas pessoas em Salvador e São Paulo, inclusive por jornalistas e escritores, teve a oportunidade de conversar com Loyola Brandão que o estimulou a continuar fazendo o que gosta: escrever. Costuma ouvir muitos casos enquanto transporta passageiros ao seu destino. E se diverte, sobretudo, com as histórias "cabulosas" da madrugada. Pretende produzir contos inspirados no que as pessoas contam e publicá-los sob o nome "causos de taxi".

Certa vez, uma passageira pediu para Trabuco seguir o marido dela com a intenção de pegá-lo 'com a boca na botija'. O taxista seguiu o cidadão até um shopping e ambos permaneceram dentro do táxi por mais de uma hora e meia aguardando o marido seguir caminho para algum lugar com a amante. Resultado: o esposo saiu, foi seguido até a suposta casa de encontro dos dois, mas estava sozinho dentro do carro. E não houve flagrante. Bom deve ter sido o dinheiro que Trabuco ganhou por causa dessa odisséia.

Outra história curiosa é de um cidadão que pegou o táxi próximo a Avenida Tancredo Neves e, tendo avistado o carro do irmão, ficou com vontade de falar com ele. No entanto, quem estava dirigindo era um desconhecido e o cidadão se assustou. De repente, o passageiro pediu para Trabuco segui-lo, ligou para a polícia, informou que o carro do irmão tinha sido roubado, disse o número da placa, a cor do automóvel... tudo. Adiante, ele percebeu que era um lavador de carros que estava conduzindo o carro para estacionar.

Outra lembrança dele é de um gringo que tinha uma namorada brasileira. Tendo combinado com ela para levar uma amiga para o motel supreendeu a namorada ao chegar ao local. O gringo foi pagar a corrida e, com ele, surgiu mais uma mulher. Ou seja, três mulheres no total! A namorada dele começou a brigar e foi a maior algazarra. Trabuco quase fica sem receber o dinheiro da corrida. "Mas recebi. Saí a mil, pois a briga começou a esquentar", ri.

São histórias comuns que acontecem todos os dias em Salvador e que gente como Trabuco consegue aproveitá-las. Por enquanto, tudo está na memória. "Tenho que arranjar tempo para escrever".

O taxista escritor, ou – como prefere – autor, descende de italianos, embora ele ressalte que a 'importância' só está no nome. Nordestino, é autor de "Em nome da fome, do pai e do filho", obra inspirada no excelente "Vidas Secas", de Graciliano Ramos. Versa sobre uma realidade experimentada quando, no início da adolescência, via pessoas passando fome no na região do sisal, no interior baiano. "Via as pessoas passando fome na seca, era tudo seco e isso ficou na minha cabeça quando fui pra São Paulo... e escrevi". Publicado em 2004 por uma editora independente, o livro está com edição esgotada. A luta, agora, é por uma nova publicação.

Num trecho, diz a respeito do sofrimento de um personagem: "Queria ser uma jararaca para ter veneno e poder derrubar uma ovelha ou um garrote no pasto, com sua picada traiçoeira e violenta. Queria sim para poder dormir de barriga cheia para saciar a dor persistente (...) Iria pelo menos espreguiçar e sentir um alívio na barriga e não uma queimação no estômago, como se ele fosse a terra rachada que o sol escaldante torrava todos os dias e secava cada vez mais".

Além de Graciliano, adora Guimarães Rosa. Jorge Amado, Machado de Assis e Ernest Hemingway também entram na lista de atores prediletos. Antes, quando morava em São Paulo, tinha tempo para ler até seis livros por mês. Mas, na correria da vida de taxista, lê apenas um ou dois. Adepto das máquinas datilográficas, o motorista que reside em Salvador há pouco mais de dois anos costumava até mesmo a fumar cigarros de palha para ter inspiração quando ia escrever histórias. Não confia no computador. Fica preocupado com os possíveis "panes" que a máquina pode dar e surpreendê-lo como aconteceu há pouco tempo quando escrevia "Petúnia", segundo livro que está em fase de revisão. Traumatizado, chegou a perder boa parte obra. Precisou recuperar o HD e gastar boa grana com isso.

"Petúnia" é também baseada em fatos reais. "Um parente meu um pouco distante gostou de uma jovem de 15 anos e o pai era coronel. Ele mandou matar o cara e é aí que começa o enredo. Matou a facão e foice". A história se passa em Juazeirinho, no final da década de 1980, início de 1990. Devido ao tratamento do pai, a protagonista vira prostituta e, claro, o pai não aceita a situação. O final, só esperando para ver.

Por enquanto, Trabuco permanece rodando a cidade, conduzindo pessoas e suas histórias. Como muitos novos escritores, segue na labuta, utilizando o táxi como vitrine.

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