"Ocupar supermercados é revolucionário para quem está passando fome", declara Poliana Souza, líder do MLB
Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB) é organizador do “Natal sem fome”, que ocupou mercados reivindicando cestas básicas para famílias carentes
Por Ricardo Nêggo Tom - A política do governo Jair Bolsonaro é responsável direta pelo aumento da miséria e da fome no país. Os números são assustadores e indicam que mais de 19 milhões de brasileiros já acordam sem saber do que irão se alimentar. O aumento absurdo nos preços dos produtos da cesta básica fez com que a população mais pobre fosse à caça de ossos e restos de alimentos para suprir as suas necessidades. Uma realidade cruel e desumana, sob a égide de um neoliberalismo predador da dignidade humana. Para Poliana Souza, líder do MLB (Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas) e presidente estadual da Unidade Popular em Minas Gerais, “estamos num país onde milhares de pessoas morrem de fome todos os dias e crianças dormem sem ter o que comer. Um país que produz alimentos suficientes para alimentar bilhões de pessoas, e dentro dele as pessoas morrem de fome. Isto significa que não há vontade e nem interesse político em modificar essa situação. É possível ter alimento para todo mundo e todos terem o que comer. Isso já está provado. Se fortalecermos a agricultura familiar, se os alimentos forem distribuídos primeiramente dentro do país antes de serem exportados. Essas são maneiras de combater a fome”.
Poliana cita o descaso do governo Bolsonaro com os menos favorecidos e vê na revolução popular o único meio de se combater a miséria e a fome no País. A líder do MLB entende que “diante dessa realidade imposta por um governo como esse que está colocado em nosso país, um governo fascista que não está preocupado se o povo está comendo ou não, as pessoas vão se organizar e vão lutar. Então, eu posso dizer que ocupar uma rede de supermercados é uma ação revolucionária para quem está passando fome. Conseguir comida para quem tem fome é uma ação revolucionária. Assim começa uma revolução. Agora, nós falamos também de uma revolução maior, na qual o proletariado, os trabalhadores, como nós, que só trabalhamos e trabalhamos, também tenham o direito de ser donos dessa terra. É nessa revolução socialista que acreditamos. Mas uma revolução começa na necessidade individual de cada pessoa”.
Marcos Antônio, que é morador da ocupação Valdete Guerra, em Natal, Rio Grande do Norte, complementa a fala de Poliana dizendo que “a revolução começa nas pequenas ações e, ao mesmo tempo, a partir da maior delas, que é a revolução dentro de si mesmo. Porque quando você é pai de família, está desempregado, mora na periferia, não está conseguindo pagar o seu aluguel e ainda defende um governo como o de Jair Bolsonaro, que faz churrasco com um tipo de carne que custa mais de R$ 1.700,00 o quilo, alguma coisa está errada dentro de você. “
O membro da coordenação nacional do MLB segue o seu raciocínio chamando a atenção para a ganância dos donos do capital, que, por falta de um trabalho de consciência de classe, acaba sendo assimilada e naturalizada pelos menos favorecidos. Segundo Marcos, “é preciso repensar os conceitos”. “Quando alguém consegue reconhecer que não precisa de muito para viver e que, tendo muito, ele consegue ajudar aqueles que estão ao seu redor e têm menos, isso também é uma revolução. É você parar de querer se dar bem às custas do suor e do trabalho do outro. Essa é a nossa preocupação. Essa é a luta do proletário. Não existem três ou quatro classes. Só existe a burguesa e a proletária. Ou você é trabalhador ou você é patrão. Infelizmente, muitos empregados são intimidados a dizerem que amam o sistema que aí está, por medo de perderem os seus empregos. Quando vemos esses dados oficiais sobre a fome e a miséria no país e trazemos isso para a realidade das periferias das grandes cidades, vemos os motivos reais desse acontecimento. E muitos deles passam por uma questão de falta de infraestrutura e de assistência social por parte do poder público. E a pandemia agravou um problema que já se arrasta há décadas, principalmente, sob a atuação de um governo negacionista que impôs a morte às pessoas, sob a alegação de que a economia não podia parar. E sabemos que o dinheiro nunca foi um problema para o país, mas sim a vontade de distribuí-lo de uma forma mais justa”.
Sobre a idealização e a realização da ação “Natal sem fome” por parte do MLB, que é um ato de ocupação de supermercados em protesto contra os altos preços e que reivindica cestas básicas para as famílias carentes, Poliana Souza explicou como funciona a campanha e quantas famílias são cadastradas no movimento. “A situação de fome no Brasil é muito grande. O MLB hoje organiza cerca de 65 mil famílias e 90% delas vivem em condição de insegurança alimentar, se alimentando mal. Nós já vínhamos fazendo uma campanha durante toda a pandemia através da rede solidária do MLB, onde arrecadamos alimentos, fazemos a distribuição e tentamos garantir melhores condições para essas famílias, principalmente nesse momento. A campanha ‘Natal sem fome’ existe desde que o MLB nasceu. Porque desde que fizemos a nossa primeira ocupação e organizamos as primeiras famílias nós já víamos situação de fome entre elas. E sempre fizemos essa ação ocupando alguns órgãos, sejam públicos ou privados. Dentro dessa realidade das 65 mil famílias, 6 mil famílias do MLB estão em situação mais grave, que é a de fome, e não de insegurança alimentar. E essas famílias se organizaram e ocuparam essas redes de supermercados. Cada estado no seu sentido. Essa campanha sempre acontecia no mês de dezembro, mas devido à gravidade da situação, esse ano nós fizemos em outubro, porque com o corte do auxílio emergencial, as pessoas não poderiam esperar até dezembro para voltarem a comer”.
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