Papa politiza viagem com drogas e corrupção

Em quatro dias úteis de trabalho no Brasil, Francisco faz prodígios de produtividade; com palavras certeiras, ele municiou a Igreja com bandeiras claras para reinserir os católicos no debate nacional: incentivou os jovens a se manifestarem, atacou a liberalização das drogas, pregou pelo progresso social e carregou para o seu campo a bandeira anti-corrupção; suas posições já repercurtem por todo o continente, alterando a correlação de forças sobre cada tema escolhido; nada mau para quem se apresenta como apolítico

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247 – Os papas gostam de dizer que não interferem em assuntos políticos, mas a verdade é que fazem política o tempo inteiro de sua atividade. Com Francisco, que vai arrebatando corações e mentes em sua visita ao Brasil de aparência apolítica, não é diferente.

Após um primeiro momento em que ele, como o esperado, evitou avalizar o discurso da presidente Dilma Rousseff, feito no Palácio Guanabara, no evento inaugural da viagem, Francisco soltou o verbo. No Rio, em visita a um hospital para dependentes químicos, iniciou por criticar os regimes da América Latina que procuram liberalizar o consumo de drogas como a maconha.

- Não é deixando livre o uso das drogas, como se discute em várias partes da América Latina, que se conseguirá reduzir a difusão e a influência da dependência química, demarcou.

Com a referência direta, municiou a Igreja para o debate que cresce no Brasil, orientando o clero e os fiéis na oposição ao modelo mais liberal defendido, entre outros, pelo ex-presidente Fernando Henrique. Talvez o suficiente para, como quer o próprio papa, interditar as discussões ou atrasá-las mais alguns anos. Do ponto de vista ele, um feito e tanto para apenas um discurso.

Isso, sem dúvida, é fazer política.

Mas houve bem mais. Na manhã desta quinta-feira 25, no complexo de favelas de Manguinhos, também no Rio, Francisco falou na direção das centenas de milhares de jovens que saíram as ruas, no Brasil, durante os protestos do mês de junho, condenando a corrupção entre os políticos. Outra vez, neste ponto, o papa procurou claramente posicionar o campo da Igreja Católica nesse movimento, aderindo a ele:

- Vocês, jovens, têm uma sensibilidade especial frente às injustiças, mas muitas vezes se desiludem com notícias que falam da corrupção de pessoas que, em vez de buscar o bem comum, procuram seu próprio benefício. Nunca desanimem, nunca percam a confiança. Não deixem que se apague a esperança, a realidade pode mudar. O homem podem mudar. Procurem ser vocês os primeiros a procurar o bem.

Como um grande doutrinador, com estas palavras o papa abriu espaço para os católicos se engajarem diretamente no movimento difuso que busca mudar os costumes políticos do País. A partir dessa marcação de posição, não será surpresa se, em próximos protestos, a imagem do papa aparecer favoravelmente nos cartazes dos manifestantes. Francisco se qualificou como um deles, ao cravar a sua mensagem nada cifrada "não deixem que se apague a esperança, a realidade pode mudar".

No campo social, especialmente num país que viu a Igreja buscar sua própria renovação por meio da Teologia da Libertação, nas décadas de 1970 e 1980, Francisco deu alento às alas mais engajadas politicamente dos católicos. Além de escolher uma favela para estar mais próximos dos mais pobres, aplicou dentro dela um nítido discurso de mudança social.

- Nenhum esforço de pacificação será duradouro, não haverá harmonia e felicidade para uma sociedade que abandona na periferia parte de si mesma. Ela simplesmente empobrece. Não deixemos entrar em nossos corações a cultura do descartável, porque somos irmãos e ninguém é descartável.

Redirecionando a Igreja para suas bases, entrando em assuntos pontuais como o consumo de drogas e incentivando os jovens a se manifestarem, o papa, em poucas palavras, deixou uma profunda marca politica, a ser debatida e disseminada no caldo de cultura de sua passagem pelo Brasil, com extensão para todo o continente. Ele deu o norte, agindo como líder. Como bom político, tratou de fortalecer sua instituição e ampliar seu discurso. Para quatro dias úteis de trabalho, não é pouco. Ao contrário, Francisco está sendo um prodígio de produtividade.

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