PCC mais vivo e forte

Cinco anos depois de aterrorizar So Paulo, faco criminosa ainda atua em 90% das prises paulistas

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Fernando Porfírio_247 - O PCC tem influência em cerca de 90% das 147 prisões paulistas. Essa influência é um tanto quanto diversificada em cada uma das unidades, a depender das relações que se estabelece com a administração do local, na qual se estabelecem seus limites. Essa é a conclusão da antropóloga Karina Bionde, da Universidade Federal de São Carlos, uma estudiosa nas questões que envolvem a atuação das organizações criminosas dentro e fora dos presídios paulistas.

Agora uma nova luz é apontada para os ataques do PCC em maio de 2006 nas principais cidades paulistas. Os achaques abusivos de policiais aos criminosos paulistas foram fundamentais para os ataques. A conclusão é apontada em relatório intitulado “São Paulo sob Achaque: Corrupção, Crime Organizado e Violência Institucional em Maio de 2006”.

O principal deles foi praticado em março de 2005, um ano antes da rebelião em 74 presídios e dos ataques do Primeiro Comando da Capital (PCC) nas ruas do Estado de São Paulo. Rodrigo Olivatto de Morais, enteado de Marcos William Camacho, o Marcola, líder da facção, foi sequestrado por policiais civis de Suzano, na Grande São Paulo. Só foi solto depois que Marcola pagou o resgate de R$ 300 mil.

O chefe do PCC ficou indignado com o achaque. No dia 12 de maio de 2006, véspera dos ataques do PCC, Marcola fez um comentário no Departamento de Investigações sobre o Crime Organizado (Deic): “Não vai ficar barato.” No inquérito feito pela Corregedoria da Polícia Civil, o delegado assistente, Hamilton Antônio Gianfratti, depois de citar dados do sequestro, afirma que o crime ajudou a deflagrar a revolta do PCC. Com a divulgação dos estudos e fatos recentes ocorridos em São Paulo mostram que a organização criminosa não está de braços cruzados ou vivendo unicamente de tráfico de drogas de dentro e de foram dos presídios. Roberto Ramos, acusado de ser integrante do Primeiro Comando da Capital (PCC), foi preso com documentos da organização criminosa e um míssil balístico de 19 quilos com rampa de lançamento. De acordo com a Polícia, a arma seria usada para resgate de líderes do bando.

As pesquisas começaram a ser feitas em outubro de 2006 por 24 pesquisadores da organização não governamental (ONG) Justiça Global e pela Clínica Internacional de Direitos Humanos da Faculdade de Direito de Harvard, com apoio de outras entidades. Roberto Ramos, acusado de ser integrante do Primeiro Comando da Capital (PCC), foi preso com documentos da organização criminosa e um míssil balístico de 19 quilos com rampa de lançamento. De acordo com a Polícia, a arma seria usada para resgate de líderes do bando.

O acusado foi preso por suspeita de envolvimento em assaltos a condomínios de luxo. Na revista feita na casa de Ramos, no bairro Vila Nova Curuçá (na zona leste da Capital paulista), a Polícia diz ter apreendido um míssil. A arma, de acordo com Polícia, seria usada no resgate de líderes do grupo, como Wanderson Paula de Lima, o Andinho, e do traficante Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar.

"Em razão do notório poder de destruição desse artefato explosivo, não poderia certamente ser guardado por um membro da facção sem importância alguma no seu respectivo organograma”, anotou o relator do recurso, desembargador Torres Garcia. “Somente a alguém com relevo e destaque na quadrilha poderia ser dada a incumbência de custodiar material explosivo tão poderoso e destinado à libertação de inúmeros outros criminosos.” 

O acusado disse que o míssil encontrado pela Polícia em sua casa foi entregue por um homem durante uma quermesse e recebeu dinheiro para guardar o artefato por oito dias. Roberto Ramos alegou que não lembra o nome do homem. A Polícia chegou a afirmar que Roberto Ramos é técnico em explosivos, formado dentro do PCC com a ajuda de guerrilheiros internacionais das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). De acordo com a Polícia, a ligação entre o narcotráfico brasileiro e a guerrilha surgiu com o traficante Fernandinho Beira-Mar, que viu nas Farc uma oportunidade para trocar armas roubadas no Brasil por drogas e treinamento de guerrilha.

Também conhecido como Beto Bomba, Roberto já tinha condenação de 25 anos de detenção. Ele foi acusado de roubo de cargas, bancos e de participação em sequestros organizados pela quadrilha de Andinho. Por isso, a Polícia afirma que o sequestrador seria um dos alvos da tentativa de resgate.

O acusado ficou preso até dezembro de 2004, quando foi beneficiado pelo chamado indulto de Natal e aproveitou para fugir. Um mês antes da prisão de Roberto Ramos, a Polícia Federal descobriu um plano de resgate de Fernandinho Beira-Mar, do sequestrador chileno Maurício Hernandez Norambuena e de Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola. O plano previa o uso de lançadores de bomba.

Célula do PCC

Uma operação cercada de sigilo e com comando único dentro de um pelotão de elite da Polícia Militar de São Paulo foi desencadeada na última quinta-feira (5), numa chácara de cinco mil metros quadrados. Nem a Polícia Civil, nem a delegacia local tomou conhecimento da operação ou sequer lavrou o boletim de ocorrência. Todo o material apreendido foi encaminhado pela Rota (Rondas Ostensivas Tobias Aguiar) para a sede do Deic, na capital paulista.

No local foram apreendidos três veículos, uma motocicleta, um quadriciclo, um bugre, um fuzil M-4 556, três pistolas Beretta de 9 milímetros e uma metralhadora calibre 45. Os policiais ainda encontraram dois coletes à prova de balas, dois computadores com informações sobre a movimentação financeira do tráfico e pelo menos cinco quilos de cocaína.

Parte da droga estava distribuída na casa, e parte em um compartimento dentro de um veículo e no porta-malas de outro carro da quadrilha. Os criminosos detidos e tudo que foi apreendido no sítio serão trazidos para a sede do Departamento de Investigações sobre o Crime Organizado (Deic), na capital paulista. Três moradores da chácara foram mortos e cinco foram presas.

Nova estrutura

As organizações criminosas brasileiras atuam com desfaçatez e desenvoltura em países da América Latina tanto com o narcotráfico como no tráfico internacional de armas e na lavagem de capitais. O alerta havia sido dado pelo Congresso dos Estados Unidos, num relatório divulgado em 2009. Em março, a 2ª Turma do Tribunal Regional Federal da 3ª Região (São Paulo e Mato Grosso do Sul) confirmou a primeira condenação de integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC) envolvidos nesses delitos.

Sete pessoas foram condenadas pelos crimes de tráfico transnacional de drogas e armas, numa investigação que apurou também os delitos de lavagem de dinheiro e ocultação e dissimulação de patrimônio. Os acusados sofreram penas que somadas chegam a 159 anos de detenção. Os réus são acusados de montar uma rede de comercialização de armas e drogas a partir do Paraguai, com ramificação na Colômbia e na Bolívia, e de lavagem do dinheiro arrecadado com as atividades ilícitas.

A Polícia Federal esquadrinhou a organização por meio de interceptações telefônicas autorizadas pela Justiça. Dois integrantes da quadrilha foram presos em flagrantes num canavial na região de Ribeirão Preto. Eles estavam de posse de quase 500 quilos de cocaína e de um arsenal de armas e munições de origem belga, norte-americana, austríaca e tcheca.

Segundo a investigação, a droga e as armas teriam sido enviadas do Paraguai por Carlos “Capillo” Antonio Caballero, conhecido como Da Kaiser, que além de fornecer drogas e armas para a organização criminosa cuidava da proteção dos membros do PCC no exterior. De acordo com relatório da Justiça Federal, a condenação é resultado de investigações feitas pela PF, durante a chamada “Operação Argus”, que, por meio de interceptações telefônicas, desbaratou associação criminosa de caráter transnacional, estruturada para remeter drogas e armas do Paraguai para o Brasil. Esse grupo seria formado por integrantes da organização criminosa conhecida como PCC.

“As circunstâncias demonstram que o canavial era utilizado como campo de pouso clandestino das aeronaves que transportavam drogas e armas, e que estas tinham procedência estrangeira, o que se conclui por se tratar de droga que não é produzida no Brasil e que estava acompanhada de um periódico do Paraguai, o qual sabidamente não tem circulação no Brasil”, concluiu o desembargador federal que atuou como relator do recurso.

Inspiração na Al Quaeda

O grupo tinha uma estrutura celular que atuava de forma independente de outras células da organização criminosa. O líder comandava os negócios de dentro do presídio. Um primo seu garantia que as ordens do chefe fossem seguidas à risca. Em seguida, o principal gerente do grupo tinha como responsabilidade o contato com os traficantes e com os revendedores. Dois operadores cuidavam do recebimento da droga e armas que vinham em pequenos aviões e pousavam em pistas clandestinas no meio do canavial. A célula contava ainda com um técnico para cuidar da mistura da droga.

O grupo era chefiado por Almir Rodrigues Ferreira, conhecido como Nenê. Ele dava as ordens para o tráfico de drogas e armas de dentro da cadeia por meio de telefone celular. A investigação apurou ainda que Nenê foi encarregado pelo PCC da lavagem dos ativos adquiridos com o tráfico ilícito. A Polícia Federal também informou que o líder comprava carros de luxo e abria empresas de “fachada”, no nome de terceiros como meio de ocultar e dissimular o patrimônio da organização criminosa.

A droga e as armas chegavam ao Brasil por meio de pequenos aviões que aterrissavam em pistas clandestinas, no meio de canaviais, na chamada “Califórnia brasileira”, na região de Ribeirão Preto. Os integrantes da organização criminosa em carros e caminhonetes, munidos de binóculos, GPS e rádio transceptores, tinham como tarefa apanhar o material e levá-lo para o local de manejo e refino.

Foi numa dessas operações que a Polícia Federal prendeu em flagrante duas pessoas que acabara de pegar a droga e o arsenal bélico. Além de 420 quilos de cocaína, os federais interceptaram armas e explosivos militares (nove petardos de TNT), oito granadas, três fuzis automáticos 762, uma metralhadora calibre 30 com tripé, um lançador de granadas, duas pistolas Glock de 9 milímetros e um lançados de foguetes. Por meio dos grampos telefônicos, a PF descobriu que as armas haviam sido encomendadas ao representante do PCC no Paraguai, identificado nas escutas como Da Kaiser.

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