Pedro Celestino: Statoil reclama no Brasil do que a fez crescer na Noruega e ganhar o mundo

Presidente do Clube de Engenharia, Pedro Celestino, diz que o coração do golpe que retirou a presidente Dilma Rousseff em 2016 é o ataque ao pré-sal; em audiência pública da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, Celestino criticou a petroleira estatal Statoil, da Noruega, que defendeu a abertura do pré-sal e o fim da política de conteúdo local

Presidente do Clube de Engenharia, Pedro Celestino, diz que o coração do golpe que retirou a presidente Dilma Rousseff em 2016 é o ataque ao pré-sal; em audiência pública da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, Celestino criticou a petroleira estatal Statoil, da Noruega, que defendeu a abertura do pré-sal e o fim da política de conteúdo local
Presidente do Clube de Engenharia, Pedro Celestino, diz que o coração do golpe que retirou a presidente Dilma Rousseff em 2016 é o ataque ao pré-sal; em audiência pública da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, Celestino criticou a petroleira estatal Statoil, da Noruega, que defendeu a abertura do pré-sal e o fim da política de conteúdo local (Foto: Aquiles Lins)

Do Viomundo - No último 22 de setembro, na sede do Clube de Engenharia, no Rio de Janeiro, foi realizada Audiência Pública da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado Federal para discutir o tema O conteúdo local na cadeia de petróleo e gás.

A proposta foi do senador Lindbergh Farias (PT-RJ).

A abertura coube a Pedro Celestino, presidente do Clube.

Muito resumidamente: ele denunciou que o plano do governo golpista é encolher a Petrobras de tal maneira que o Brasil correrá risco, no futuro, de importar derivados de petróleo.

 

Feito o que acontece com o minério de Carajás, que o Brasil exporta para a China para em seguida importar trilhos de trem (ver vídeo acima).

timing da denúncia foi muito apropriado.

Ontem, no leilão de campos contíguos ao pré-sal, a gigante Exxon Mobil desembarcou em grande estilo no Brasil, em parceria com a Petrobras.

Em breve, virão os leilões do próprio pré-sal, com a presença de dezenas de multinacionais, muitas das quais sob controle de estados estrangeiros.

Shell, BP e a própria Exxon estão deixando de ser empresas de petróleo para serem empresas de energia, o que requer grandes investimentos em novas tecnologias.

A Petrobras, segundo Pedro Celestino, está na contramão; se afasta de ser uma empresa integrada, como as competidoras, para focar em furar poços.

Desmantelada por dentro, corre o risco de se tornar uma prestadora de serviços de luxo.

É o contrário do papel que teve, por exemplo, a Statoil, estatal de petróleo da Noruega.

No domingo 24, a revista Veja circulou com uma reportagem intitulada Vai jorrar petróleo, na qual caberia perfeitamente o subtítulo Para os estrangeiros.

O ponto alto do texto é uma entrevista com o presidente da ESTATAL norueguesa, apresentado pela revista da marginal como sendo “CEO norueguês”.

ESTATAL, essa palavra, não entrou no texto da revista por motivos óbvios.

Poderia despertar no leitor esperto de Vejaaquele, a incômoda pergunta: mas, a gente está desmontando nossa estatal para fortalecer outra ESTATAL? Outro estado?

E a nossa soberania?

A Statoil tem presença em 30 países do mundo. Opera 40 plataformas. O maior campo da Statoil no mundo é o Peregrino, na bacia de Campos, que produz 100 mil barris por dia.

À revista, o CEO da Statoil, Eldar Saetre, fez os elogios de praxe ao Brasil, aqueles que enchem de orgulho os colonizados exatamente no momento em que sua (a do colonizado) carteira está sendo batida.

Ele explicou que, embora dono de dois terços da Statoil, o governo norueguês não se envolve na administração da empresa; que a companhia esteve envolvida em seu próprio escândalo de corrupção (“sim, também aconteceu ali”, escreve a Veja, em seu tradicional viralatismo).

A entrevista vale mais pelo que não foi dito:

O que ele disse: “outro ponto positivo é o fim da obrigatoriedade de ter a Petrobras como sócia em todos os campos do pré-sal”.

O que ele não pode dizer: O pré-sal está lá, descoberto. É furar e tirar. Por que rachar com a Petrobras? Não, a gente paga um adiantamento ao governo Temer, que está precisando comprar deputados e armar o caixa de campanha do PMDB em 2018, e depois deita eternamente no berço esplêndido do petróleo alheio.

O que ele disse: “também vejo com bons olhos a flexibilização da política do conteúdo nacional, que determinava uma enormidade de itens produzidos pela indústria local”.

O que ele não pode dizer: Quanto mais eu concentrar minhas encomendas em um só fornecedor, melhor. Aumento os lucros dos meus acionistas, o governo da Noruega arrecada 2/3 em impostos e me deixa administrar a Statoil sem interferência. Eles que se preocupem com a saúde e a educação na Noruega. E por que criar empregos no Brasil, se posso criá-los na própria Noruega? É um jeito daquele povo chato de esquerda (da Noruega) largar do meu pé. Arrumo emprego para os trabalhadores noruegueses, os sindicalistas me apoiam e meus acionistas vão concordar até com o aumento do salário do CEO.

O que ele disse: “Na Noruega, tivemos, sim, políticas semelhantes [de conteúdo nacional], mas os porcentuais não eram tão altos quanto os daqui, e as empresas locais eram mais competitivas”.

O que ele não pode dizer: Quando a Statoil era 100% estatal, nos anos 70, cheia de incertezas sobre o futuro, o estado norueguês bancou o risco de explorar no mar de Bering e teve a brilhante ideia de usar o conteúdo nacional para criar empregos e tecnologia na Noruega. Faz sentido uma empresa norueguesa ajudar a Noruega, né? Agora, só faltava o Brasil adotar a mesma estratégia AGORA que tem o pré-sal e reduzir nossa margem de lucros! O que vão dizer meus acionistas? Os trabalhadores noruegueses?

O que ele disse: “É claro que a possibilidade de mudanças na regulamentação da indústria do petróleo depois das eleições de 2018 preocupa, mas não acredito que algum político vá nessa direção”.

O que ele não pode dizer: Já pensou se aparece um brasileiro maluco que, eleito presidente, pense primeiro no Brasil e depois na Noruega?

O que ele disse: “Na Noruega, pagamos 78% de impostos sobre a atividade petrolífera. É um valor alto, sem dúvida, mas não muda”.

O que ele não pode dizer: Vou pagar bem menos impostos no Brasil. Se não, como é que fica minha margem? Se eu não ganhar aqui, como vou sustentar a economia norueguesa e ainda ter lucro?

O que ele disse: “Em um planeta em que a população chegará a 9 bilhões nas próximas décadas, ainda vamos precisar de petróleo por muitos anos. O Brasil está no mapa”.

O que ele não pode dizer: O Brasil FEZ o mapa. Eu deveria dar uns pulos de alegria diante deste repórter: o petróleo do mar de Bering só dura até 2030 e o Brasil está deixando eu entrar no pré-sal! Sem a Petrobras! Com taxa rebaixada de conteúdo local! Como é que eu vou desenvolver as tecnologias do futuro — como os cataventos em pleno mar, com os quais vou abastecer o Reino Unido de energia — sem as margens de lucro que vou conseguir no Brasil? Viva o Brasil!

Depois da entrevista, o CEO norueguês pode ter ficado preocupado.

Vai que o repórter da Veja descobre a tese de mestrado daquele estudante da Universidade de Oslo que comparou as políticas de conteúdo local da Noruega e do Brasil?

Vai que ele descobre a conclusão do pesquisador, que avaliou detalhadamente a legislação dos dois países (íntegra em inglês, no pé):

Acho injusto que muitos paises desenvolvidos tenham tido a oportunidade de aplicar amplamente políticas de conteúdo local em suas indústrias no passado, mas hoje exigem que os paises em desenvolvimento não as apliquem alegando quebra das regras de liberdade do comércio.

Que norueguês traidor!

Ah, mas se o repórter da Veja descobrir, pelo editor não passa.

Tarefa urgente: comprar algumas páginas de propaganda na Veja.

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