PF aponta ligação entre MC Ryan SP e fintech sob investigação no caso Master
Investigação indica uso de estrutura financeira da Cartos em esquema de R$ 1,6 bilhão ligado a bets ilegais, rifas e suspeitas de lavagem de dinheiro
247 - A Polícia Federal (PF) identificou conexões entre o esquema investigado na Operação Narco Fluxo, que envolve o funkeiro MC Ryan SP, e a fintech Cartos Sociedade de Crédito, empresa já alvo de outras apurações em âmbito nacional. As informações foram divulgadas pelo jornal O Estado de S.Paulo, que revelou detalhes da investigação conduzida pela corporação.
Segundo a PF, a organização criminosa teria utilizado uma rede estruturada de apostas ilegais e rifas para movimentar recursos oriundos do tráfico internacional de drogas. O esquema, que teria girado cerca de R$ 1,6 bilhão, contava com empresas de fachada — conhecidas como “empresas de prateleira” — e contratos firmados com a Cartos para viabilizar operações financeiras.
A representação da PF que embasou a operação aponta que a engrenagem criminosa não teria alcançado o mesmo nível de eficiência sem o suporte da infraestrutura bancária fornecida pela fintech. A Cartos também é citada em outras investigações, como as operações Compliance Zero e Sem Desconto, que apuram irregularidades envolvendo o Banco Master e fraudes contra beneficiários do INSS.
MC Ryan SP, identificado como Ryan Santana dos Santos, foi preso temporariamente durante a deflagração da operação, realizada na quarta-feira, 15. Ele é apontado como líder do esquema. Em nota, a defesa do artista afirmou que todos os valores movimentados em suas contas “possuem origem devidamente comprovada, sendo submetidos a rigoroso controle e ao regular recolhimento de tributos”.
As investigações também citam Estefany Pereira da Silva, alvo de prisão temporária, que teria firmado contratos com a Cartos em circunstâncias que levantaram suspeitas de “cegueira deliberada” por parte da empresa. De acordo com a PF, a fintech teria aceitado dados cadastrais inconsistentes, como um capital social considerado incompatível com a atividade declarada de corretora de investimentos.
Relatório da Polícia Federal, com 164 páginas e assinado pelo delegado Gustavo Pachioni Martins, aponta que a Cartos figura como alvo central em investigações de alta gravidade. O documento menciona ainda que a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das Bets solicitou a quebra de sigilo bancário da fintech diante de indícios de uso de sua estrutura para lavagem de dinheiro e associação com organizações criminosas.
O delegado destaca que a empresa também é investigada por atuar como um “nó logístico” em fraudes sistêmicas que teriam contribuído para a liquidação do Banco Master. Segundo o relatório, a fintech teria fornecido infraestrutura para a criação de créditos considerados falsos, em valores bilionários, utilizando seu modelo de “Banking as a Service”.
A PF também questiona a atuação da Cartos junto ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). Segundo a corporação, as comunicações feitas pela empresa foram classificadas como superficiais. “Logo, os indícios apontam que a Cartos tenha realizado o que se classifica como uma ‘comunicação defensiva’, gerada de forma automatizada apenas para cumprir uma formalidade normativa e evitar sanções do órgão regulador”, afirma o relatório.
Para os investigadores, essa conduta indica uma possível “postura negligente e premeditadamente permissiva” da instituição financeira. A PF sustenta que as informações repassadas ao Coaf omitiram dados relevantes sobre movimentações financeiras, o que comprometeria a eficácia dos mecanismos de controle.
A fintech também foi alvo de análises na CPI do INSS, que investigou um esquema de fraudes estimado em R$ 6,3 bilhões entre 2019 e 2024. O relatório final da comissão apontou que a Cartos teria fornecido estrutura operacional que conferia aparência de legalidade a operações fraudulentas envolvendo carteiras de crédito.
De acordo com o documento, empresas ligadas ao esquema teriam utilizado dados falsos e estruturas societárias preparadas previamente para viabilizar as fraudes. A PF afirma que esse tipo de prática é comum em esquemas que utilizam “laranjas de preparo”, responsáveis por estruturar empresas que posteriormente são usadas em operações ilícitas.
O Estadão informou que procurou a Cartos para comentar as investigações, mas não houve resposta até a publicação da reportagem. O espaço segue aberto para manifestação.