Por que Haddad vai crescer também na classe média?

Para o jornalista Fernando Brito, do Tijolaço, é difícil qualquer um dos presidenciáveis "colocar-se como alguém capaz de unir, conciliar, dar fim ao clima de ódio e barbárie" no país; "É nessa avenida que Fernando Haddad se propõe a caminhar, à medida em que recebe de Lula o capital político para se tornar um player relevante – e, agora, central – no processo eleitoral"

Por que Haddad vai crescer também na classe média?
Por que Haddad vai crescer também na classe média? (Foto: Stuckert)

Por Fernando Brito, do Tijolaço - Acho muito engraçado quando leio análises políticas sobre o tal "voto útil" que tratam o eleitor como uma simples peça de tabuleiro que se transfere daqui para ali de acordo apenas com o que tocam as trombetas da propaganda dos candidatos e suas declarações aos jornais.

E agem loucamente como que, a cada instante, aposta neste ou naquele "cavalo" segundo as montarias desfilam no cânter.

Merval Pereira, em sua coluna de hoje em O Globo descreve esta movimentação:

"As campanhas dos adversários que ainda nutrem esperanças de bloquear a chegada do PT estão acelerando.

Ciro Gomes já está divulgando mensagens contra esquerda e direita, colocando-se como a saída de centro mais viável.

Mas a campanha de Marina manda sinais de que continua no jogo, avaliando que eleitores de centro direita não votam em Ciro, e que a esquerda não vai de Alckmin de jeito nenhum.

Marina vai aparecer como a transição, recebendo votos dos dois lados, acreditam seus assessores."

Será que acham que o eleitor funciona assim, com este "ideologiômetro" de fina sintonia?

Lamento informar que não.

Ciro teve seu destino traçado quando apostou no tempo de televisão e, à procura de alianças com o Centrão que poderiam ter dado combustível à sua campanha, quis demarcar território diante de um PT paralisado pelo impedimento de Lula.

Tivesse funcionado, sim, a campanha seria outra, com outros bônus e outros ônus.

Como seria outra se ele, ao inverso, apresentasse-se ao eleitorado lulista como aquele que melhor poderia suprir a ausência do líder popular. Àquela altura, Haddad era pouco mais que um nada eleitoral.

Só em função de sua origem política nordestina, seu comportamento valente e seu discurso desabrido consegue, por um tempo, conservar-se relevante eleitoralmente ainda.

Mas, sim, está fadado a perder protagonismo e apenas conservar um eleitorado que, progressista, tem ressentimentos com o PT e com Lula, mas a quem a figura de Jair Bolsonaro repugna.

Marina Silva, que só existe como um ectoplasma de si mesma, perdeu-se em seu discurso que mescla ódio e autopiedade e, sobretudo, porque não pode ser um instrumento de divisão do eleitorado mais pobre e receptáculo do voto evangélico.

Geraldo Alckmin perdeu para si mesmo, para sua cria Doria e para o seu PSDB.

São Paulo, que era sua praça forte, está espatifada numa disputa que o faz amargar a derrota em seu próprio quintal, que dirá ter forças para avançar em outros territórios. Não tem com o que oferecer-se como candidato da direita e é um nanico perto do monstro fascista que ajudou a criar com o golpe.

É difícil, dificílimo, a qualquer um deles, colocar-se como alguém capaz de unir, conciliar, dar fim ao clima de ódio e barbárie que se viu instalado no país.

É nessa avenida que Fernando Haddad se propõe a caminhar, à medida em que recebe de Lula o capital político para se tornar um player relevante – e, agora, central – no processo eleitoral.

O candidato, sua maneira de agir de falar, o seu programa de TV, os seus apelos de campanha, podem ser um comando e podem ser um convite.

Lula é Haddad, Haddad é Lula é um comando para o eleitor popular, lulista, que reconhece no ex-presidente a defesa de seus interesses, de seus direitos, de sua dignidade.

Porém, já provavelmente a partir, do programa de TV de hoje, vai se mostrar, sem desfocar do "é Lula", também, como o homem emocional e politicamente preparado para a pacificação, para a retomada de outro valor perdido com a "Era Lula": a tranquilidade, a fraternidade, a identificação da classe média com o seu povo.

Este é o convite que se somará ao comando do voto popular e progressista, que Lula conservou intacto com sua resistência estóica à perseguição, à prisão e ao isolamento.

O candidato mais aberto que teremos, paradoxalmente, é o do homem que está fechado numa cela e impedido de falar.

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