Primeiro de Maio, 1980: onde tudo começou

H 31 anos, 130 mil metalrgicos tomaram o estdio de Vila Euclides, em So Bernardo do Campo; Fomos para o confronto com o regime, diz Frei Chico, em vdeo-entrevista ao Brasil 247; nascia ali o Brasil moderno, que levou Lula ao poder

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247_Marco Damiani – Foi num 1º de Maio que o Brasil mudou. Hoje, o feriado do Dia do Trabalhador se tornou um show de arrecadação financeira para as maiores centrais sindicais do País, mas a data marcou, em 1980, o momento exato em que mais de 100 mil brasileiros encararam os riscos de sair às ruas, ultrapassaram a repressão policial e indicaram o rumo para um futuro democrático. Aconteceu em São Bernardo do Campo, cidade industrial da Grande São Paulo, onde os trabalhadores metalúrgicos fizeram greves históricas entre 1978 e 1981. Neste período, cada uma a sua maneira, as manifestações de 1º de Maio realizadas em 1979 e 1980 entraram para a história como as que definiram um novo momento político, com as massas entrando no jogo.

“Fomos para o enfrentamento com o regime militar”, lembra Frei Chico, dirigente sindical de orientação comunista, hoje famoso pela condição de irmão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em vídeo-entrevista ao Brasil 247. Assista:

 


Lula, que presidia o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, estava no comando das manifestações. Em 1979, como mostra a foto do repórter fotográfico Ricardo Alves, ele parecia feliz e aliviado na noite de 1º de Maio. O sindicato estava sob intervenção federal e o próprio Lula, ao lado de sua diretoria, havia sido cassado como dirigente sindical. Mas vivia-se uma trégua. Entre 13 e 27 de março daquele ano, os metalúrgicos entraram em greve para buscar um reajuste salarial de mais de 80%. O TRT (Tribunal Regional do Trabalho) julgou o pedido e resolveu estipular um reajuste de 43%. Os metalúrgicos não aceitaram. Assembléias de até 80 mil trabalhadores se sucediam no estádio de Vila Euclides, único ponto de São Bernardo capaz de reunir tanta gente. Quando a situação estava totalmente radicalizada, a assembléia resolveu dar uma trégua de 45 dias para os empresários e o governo e, assim, suspender temporariamente o movimento. Nesse contexto, Lula liderou um 1º de Maio de calma, com uma reunião de cerca de 50 mil metalúrgicos durante o dia, mais uma vez em Vila Euclides, e um show noturno que reuniu artistas consagrados como Elis Regina, Luiz Gonzaga Jr., Fagner, Dominguinhos, João Bosco e Sérgio Ricardo. A intenção era a de aproximar os trabalhadores da sociedade civil em geral, com os artistas fazendo uma ponte entre eles. Após a trégua, os metalúrgicos de São Bernardo voltaram às negociações e retomaram o trabalho. A missão de fustigar o regime, naquele 1979, continuaria com os metalúrgicos de São Paulo que, olhando o exemplo do ABC, também foram à greve, em outubro. Naquele movimento, morreu o metalúrgico Santo Dias da Silva, militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB).

Em 1980, a situação era outra, ainda mais tensa. Quando o 1º de Maio daquele ano chegou, os metalúrgicos já estavam em greve havia mais de um mês. A campanha salarial deles sempre se dava às vésperas do Dia do Trabalhador. Sem irem às fábricas, os metalúrgicos se concentravam na igreja do Largo da Matriz, no centro de São Bernardo, onde dom Cláudio Hummes permitira que o grande salão de festas abrigasse os mantimentos recolhidos pelo Fundo de Greve. Todos os dias, os grevistas iam até lá, pegar comida, ouvir as orientações. Quando chegaram para a missa em homenagem ao Dia do Trabalhador e iniciar a caminhada até a concentração marcada para Vila Euclides, porém, encontraram a praça tomada por 8 mil policiais militares. O clima era de enfrentamento. Uma viatura policial tentou estacionar no meio da concentração de trabalhadores, de modo a dispersá-los, mas o que ocorreu foi o contrário: a polícia é que teve de sair. Vencida a repressão, os trabalhadores rumaram para o estádio e, lá, realizaram o maior 1º de Maio de protesto que o Brasil já assistira, com mais de 100 mil trabalhadores concentrados em Vila Euclides para dizer “abaixo a ditadura” e ouvir Lula discursar.

Todos esses lances cruciais da história recente do País foram registrados pelas lentes do repórter fotográfico Ricardo Alves, que trabalhava para a Editora Oboré, realizadora de jornais sindicais, e as guarda como um tesouro. No iPad, Brasil 247 mostra o trabalho completo do talentoso fotógrafo. Aqui, você fica com a vídeo-entrevista de Frei Chico, na qual ele explica detalhes da organização daquele 1º de Maio e como, pelas suas mãos, Lula entrou para o sindicalismo e, assim, para a história desse País.

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